American Horror Story chegou a mais um season finale e, mais uma vez, levou o devoto público da antologia a um delírio coletivo. Porém, diferente das temporadas anteriores, a expectativa insurgiu devido às escolhas narrativas de Ryan Murphy e Brad Falchuk para o literal fim do mundo, permanecendo em uma zona de conforto duradoura e cravada na intermitência entre a ascensão do Anticristo e o apocalipse em si. Apesar de criarem episódios competentes e envolventes, ao menos em sua maioria, é inegável dizer que essa onda positiva poderia muito bem ceder às ruínas de seu próprio jogo – e, infelizmente, foi isso o que aconteceu. É claro que, numa perspectiva geral, há momentos interessantes, mas os deslizes e a falta de coerência falam mais alto, culminando em um estigma que já é associado aos showrunners há algum tempo: não saber como terminar uma obra.

Se todas as outras iterações já se finalizavam com conclusões ao acaso e resoluções risíveis de tão falsas que se mostraram, Apocalypse certamente não foi diferente. Em meio a homicídios em massa, abduções alienígenas e sacrifícios inexplicáveis, o oitavo ano da série conseguiu fazer algo ainda pior: mostrar que mudar o passado é algo mais simples que parece. O crossover entre Coven e Murder House se aproveitou muito bem de personagens conhecidos e tramas não solucionadas para solidificar a tensa atmosfera sobrenatural, mas eventualmente desperdiçou esse incrível potencial ao cair em convencionalismos e maneirismos já utilizados. Nem mesmo as sequências mais catárticas conseguem salvar o episódio de um fracasso iminente – e isso pode até parecer decepcionante, porém não assusta ninguém que já acompanha o trabalho da dupla.

Em Apocalypse Then, Cordelia (Sarah Paulson) investe seus últimos esforços para impedir que os diabólicos planos de Michael (Cody Fern) se concretizem. Para tanto, após invadir a empresa responsável por criar os abrigos biológicos, ela realiza feitiços de esquecimento para manipular as personalidades de suas alunas Coco (Leslie Grossman) e Mallory (Billie Lourd), transformando-as em meras mortais até que chegue o momento de se levantar contra as forças das trevas – e assim, por fim, a cronologia volta aos tempos atuais. Logo depois, a Suprema enterra si mesma e suas fiéis companheiras em um feitiço de preservação, ressurgindo anos depois para enfrentar o filho de Satã. O grande problema é que o desenrolar desses fatos definitivamente não faz jus à premissa da temporada ou da série, respaldando-se em uma canastrice desmedida.

Nem mesmo o aguardado confronto entre as bruxas e o Anticristo é construído com cuidado. Ainda que o embate dialógico seja interessante e perscrutado por ácidas ironias de ambos os lados, a batalha física está bem longe de alcançar o mínimo de entusiasmo cênico, acelerando desnecessariamente o ritmo para dar conta de todas as pontas. E, como se não bastasse, o roteiro assinado por Murphy e Falchuk consegue adicionar personagens de última hora, tentando recuperar as glórias de um passado não muito distante com a presença da rainha do vodu, Marie Laveau (Angela Bassett). A ínfima participação de Bassett faz parte de um ciclo inquebrantável de erros após erros, cujo ápice é a ridícula morte de Coco e a “ameaçadora” tentativa de Michael em manter-se no poder.

De qualquer forma, há certas construções que merecem reconhecimento, como o sacrifício de Cordelia ou a última salvação de Mallory. Orquestradas com aprazível técnica fílmica, a Suprema abre mão de todo o seu poder para salvar a aprendiza e permitir que ela utilize o feitiço tempus infinitum para voltar no passado e matar Michael. Aqui sim voltamos para o que, no início, fez com que nos apaixonássemos pela antologia: desde as delineações estéticas até as incríveis performances, incluindo a presença aplaudível de Jessica Lange como Constance Langdon, os eventos são surpreendentes. Acontece que Mallory, realizando o feitiço com maestria, atropela o filho de Satã três vezes e reverte o apocalipse, conseguindo salvar as bruxas que morreram impiedosamente e mantendo, ao menos por alguns anos, a paz entre Céu, Terra e Inferno.

De fato, seria interessante ver as coisas dando certo, ao menos uma vez na vida. Porém, essa escolha resolutiva é muito previsível e mostra a preferência pelo melodrama verborrágico em detrimento de momentos de ação que cairiam como uma luva. É claro que a ideia de AHS não preza pelo confronto físico, mas a temporada inteira preconizou a batalha final entre Luz e Trevas, entre o bem e o mal – então por que renegar tudo isso nos quarenta e cinco minutos do segundo tempo?

Nem mesmo a sequência final revive os ânimos. O retorno de personagens que nem mesmo lembrávamos que existiam tem a intenção de amarrar algumas pontas soltas se prova, mais uma vez, intangível e sem propósito aparente, apenas mostrando que o Destino trabalha em linhas tortuosas. O casal formado por Timothy (Kyle Allen) e Emily (Ash Santos), por fim, tem um filho que é a próxima encarnação do Anticristo, recriando a última cena de Murder House. Porém, Murphy e Falchuk negam a própria mitologia ao dizer que o filho do Diabo simplesmente surgiria da união de dois mortais; afinal, para aqueles que não se recordam, Billie Dean Howard (Paulson) já havia mencionado que o arauto do caos nasceria da cópula profana entre o além e o terreno.

Apocalypse cumpriu o medo de todos: um season finale pífio e que não fez jus ao que prometeu durante essas dez semanas. Mais uma vez, Murphy e Falchuk mostraram que precisam de uma segunda opinião em relação ao momentos finais de suas produções. Urgentemente.

American Horror Story – 08×10: Apocalypse Then (Idem, 2018 – EUA)

Criado por: Ryan Murphy, Brad Falchuk
Direção: Brad Falchuk, Evan Peters
Roteiro: Ryan Murphy, Brad Falchuk
Elenco: Sarah Paulson, Cody Fern, Evan Peters, Billy Eichner, Emma Roberts, Billie Lourd, Francis Conroy, Taissa Farmiga, Gabourey Sidibe, Adina Porter, Kathy Bates, Angela Bassett, Jessica Lange, Jamie Brewer
Emissora: FX
Gênero: Suspense, Terror
Duração: 45 minutos