nota-4,5

Quando soube que J.K. Rowling e David Yates iriam se reunir novamente para a adaptação da mini-enciclopédia Animais Fantásticos e Onde Habitam aos cinemas, tive muito receio. Afinal, a obra de oitenta e poucas páginas surgiu primeiramente como um livro spin-off da saga Harry Potter, cujo autor Newt Scamander é apenas um dos inúmeros pseudônimos adotados por Rowling durante sua infinita trajetória como escritora. E além disso, ele não se mostra como uma narrativa, e sim uma apresentação de diversas criaturas fantásticas e suas respectivas características. Logo, como realizar essa releitura sem um material realmente original?

Obviamente as expectativas se tornaram altas: os últimos filmes da saga de um dos personagens mais conhecidos da cultura contemporânea, apesar de não serem perfeitos, trazem uma densa composição para as telonas, tanto em termos de fotografia, direção de arte e efeitos especiais – sem mencionar o incrível storytelling. E agora a mesma equipe iria unir forças para partir de um escopo original e transformar rascunhos em arte. Meu maior receio era que as possibilidades se tornassem tão vagas que o novo longa não faria jus ao seu real potencial – e que ficasse confuso ao ponto de decepcionar até os mais fervorosos dos fãs.

Felizmente, não foi isso que aconteceu; ao longo de seus aproximados 120 minutos, Animais Fantásticos conseguiu entregar além do prometido, criando uma atmosfera indescritível capaz de trazer os melhores conceitos de um universo mágico que já conhecemos e, ao mesmo tempo, construir sua própria identidade.

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A história gira em torno de Scamander (Eddie Redmayne), um magizoologista britânico cujo principal objetivo é resgatar as criaturas mágicas ameaçadas de extinção e estudá-las, bem como devolvê-las a seus habitats naturais. Na primeira parte de uma franquia de cinco filmes, o bruxo está de visita a Nova York e acaba passando por alguns infortúnios que culminam no escape de diversos animais em meio àquela comunidade estadunidense – e em meio aos “no-maj” (modo como os bruxos americanos se referem aos “trouxas”). O restante da história já conhecemos: ele deve recuperar essas criaturas antes que causem um dano irreparável na cidade e exponham de uma vez por todas o mundo mágico para aqueles que não o conhecem ou o rechacem.

A originalidade da narrativa se estabelece na própria sinopse: afastando-se do método “jornada do herói” explorado por Rowling nas histórias de Harry, Scamander não é chamado para a aventura do modo mais convencional; ele já faz parte daquela cultura – inclusive foi expulso da Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts quando mais novo – e não traz o encantamento com feitiços, objetos inanimados voando sozinhos por aí, escadas que se mexem e a amplitude que uma simples maleta pode ter em seu interior. As coisas poderiam se tornar muito complicadas, mas sabemos que o foco é explorar até que medida os seres mágicos controlam seus poderes? Como vemos, apesar de ser um ótimo pesquisador, o magizoologista não prevê possíveis catástrofes e coloca a vida de várias pessoas em perigo.

A aventura de Scamander é acompanhada pelo infeliz e cômico encontro com o “no-maj” Jacob Kowalski (Dan Fogler), cujo sonho de abrir o próprio negócio entra em choque ao pular bruscamente nas maravilhas e nos perigos do mundo mágico. Ele sim representa o primeiro contato com este universo e o fato de ser um adulto proporciona à história e aos espectadores uma nova perspectiva sobre o maravilhamento. Jacob nos mostra, de forma levemente clichê, que nunca é tarde para abrirmos os olhos para aquilo que está à nossa frente. O convívio entre trouxas e bruxos sempre existiu, mas a negação impediu-os de se correlacionar. Porpentina “Tina” Goldstein (Katherine Waterston), ex-aurora do MACUSA – Ministério da Magia dos Estados Unidos – também tem um papel fundamental na narrativa, funcionando como o arquétipo convencional e moralista, cujas decisões visam, em sua completude, às regras. É interessante dizer que os personagens trazem leve semelhança ao trio protagonista na saga Harry Potter, mas têm personalidades distintas e conflituosas que fornecem ritmo e dinamismo ao longa.

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Tina tem uma irmã bruxa, chamada Queenie (Alison Sudol), que é arrastada para toda essa mixórdia e completa a dupla cômica ao lado de Jacob. O roteiro, escrito por Rowling, poderia pecar no quesito comédia, mas em vez disso traz uma estruturação muito bem equilibrada entre este gênero e o drama, sabendo dosar a quantidade e a duração das cenas de forma exímia.

Mas além de resgatarem os animais que escaparam, o quarteto deve enfrentar força externas, incluindo a austeridade e os ideais retrógrados de Seraphina Picquery (Carmen Ejogo), presidente do MACUSA, que condena a mera aproximação entre “no-majs” e bruxos e deseja varrer para debaixo do tapete aqueles que ousarem negar a ordem; a Second Salemers, uma organização religiosa e fanática liderada por Mary Lou (Samantha Morton) e por seu filho adotivo Credence (Ezra Miller) que deseja exterminar da face da terra os “profanos” detentores de magia – o nome do grupo inclusive remete ao julgamento ocorrido em Salem no século XVII, responsável pela morte de mais de vinte pessoas inocentes acusadas de bruxaria e paganismo; e Grindelwald (Johnny Depp), o mago das trevas que tem como objetivo principal postar a raça mágica como superior e subjugar os “homens comuns”.

Apesar do número excessivo de tramas, todas têm o seu desenvolvimento completo, tornando impossível o descarte de qualquer um dos personagens. Ainda que de forma indireta, eles interferem nas escolhas dos protagonistas e podem impactar nas sequências futuras, abrindo diversas opções. Além disso, é importante citar que o roteiro traz sua previsibilidade, talvez para se aproximar um pouco mais do público jovem e que não cresceu junto a Harry Potter, mas constrói sequências que ascendem em viradas interessantes e inesperadas, até abrangendo temas como lutas sociais e livre-arbítrio.

Um dos grandes pontos positivos recai em suas técnicas. Primeiramente, devo dizer que Animais Fantásticos não é um filme infantil. Claro, ele traz elementos mágicos, assim como criaturas muito bem desenhadas e que atraem o foco de crianças, por exemplo, mas o tom de sua história fixa-se na tensão e na obscuridade. O brilho e o encantamento do novo dão lugar a uma composição de cena que brinca com a luz e a sombra de forma quase lisérgica: os personagens são adultos, as camadas de sua psique estão mais desenvolvidas; logo todos escondem segredos, seja sobre seu passado ou sobre sua própria identidade. A contraposição entre o mundano e o mágico se faz de forma sutil, evidenciada principalmente pela monocromacia da cidade de Nova York, cujos prédios são pincelados com tons de marrom e de roxo, e pelas cores vibrantes do vasto desconhecido que reside na maleta de Scamander: uma combinação de cores exóticas e ecossistemas muito diferentes entre si que mostram que a magia ainda vive – mesmo nos lugares mais inóspitos.

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O filme é, de certa forma, nostálgico, mas carregado de personalidade. Até mesmo a trilha sonora, composta por James Newton Howard, não recicla os temas da franquia original. Aqui, traz as composições do mundo fantástico com um toque da época em que se passa a narrativa – meados da década de 1920 -, como o saxofone e o piano, adicionando melodias de jazz e blues extremamente harmônicas. Cada personagem tem a sua própria caracterização musical, mas em nenhum momento isso traz saturação às cenas.

Em suma, Animais Fantásticos é um ótimo retorno do time Rowling-Yates para o universo mágico; uma apresentação do que pode vir a ser uma das novas e mais instigantes franquias dos próximos anos – e podem ficar tranquilos: as expectativas estão altas, mas de nenhum modo o longa irá decepcionar alguém.

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