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Musicais costumam seguir algumas regras básicas para que ganhem forma, eventualmente buscando quebrar essas fórmulas tão endossadas para nos entregar algo novo e manter seu fiel público envolvido com histórias cativantes, peças sonoras interessante e dinâmicas e uma estrutura narrativa que, por mais que ouse sair da caixinha, permaneça dentro de uma coesão compreensiva. Desde a popularização e o crescimento da indústria cinematográfica, diversos longas-metragens do gênero se tornaram clássicos, fossem por ter eternizado fábulas ou por ter ido muito além que seus respectivos conterrâneos – temos, por exemplo, uma obrigação moral de citar A Noviça Rebelde Chicago como duas das produções que marcaram época e são relembrados até hoje por fornecerem uma nova perspectiva à própria arte que evocam.

Logo, é uma grande surpresa quando recebemos o anúncio de que um musical pós-apocalíptico tragicômico trilharia seu caminho em direção às telonas, prometendo se entregar a algumas das tramas mais adoras pelo público em geral – o suis-generis zumbi, que rendeu inúmeros filmes cult e outros bastante trash, e o da “jornada epopeica” em que protagonistas descobrem seu lugar no mundo através do enfrentamento de obstáculos muito maiores do que imaginariam encontrar. E, bom, é justamente a isso que se propõe Anna e o Apocalipse, nova iteração do diretor John McPhail – uma entrada errônea, mas que deixa sua mensagem bastante clara.

A trama gira em torno da personagem-título, uma típica e angustiada adolescente que acaba entrando em uma briga com seu pai devido a uma viagem que deseja fazer para a Austrália – sofrendo uma represália quase instantânea que a deixa ainda mais irritada do que normalmente é. Anna (Ella Hunt) é a personificação exata da condição adolescente contemporânea, que se coloca em um círculo de monotonia em desinteresse, conseguindo prever basicamente todos os aspectos de sua vida – e, por essa mesma razão, querendo se afastar da bolha que conhece o mais rápido possível. Porém, seus planos mudam de modo drástico quando um vírus desconhecido começa a transformar todas as pessoas em mortos-vivos, propagando-se de forma incessante pelo pequeno vilarejo de Little Haven.

Apesar dos múltiplos deslizes, que poderiam ser previstos caso a construção da obra tivesse sido feita com um pouco mais de cautela, a história já começa de forma a predizer o que nos aguarda. Diferente de outras produções, esta aqui nos antecipa de modo bem claro que algo está para acontecer, quebrando a pseudo-surpresa propositalmente e criando um escopo que preza menos pelo suspense e mais pela irreverência. E é claro, à medida que a trama se desenrola, músicas despontam aqui e ali, refletindo de modo satírico as frustrações dos personagens principais – mesmo que isso não signifique nada em comparação ao que chegará em poucas horas.

O grande problema é que essa arquitetura não-ortodoxa não se mantém além do nível esperado. Os diálogos, por mais inesperados que sejam parecem vazios principalmente quando colocados lado a lado com os pífios e estranhos números musicais – que não merecem nem mesmo comparação com La La Land: Cantando EstaçõesÉ certo dizer que a grande ideia era realizar uma grande jornada sem escrúpulos por uma micro-sociedade tomada pelo inconveniente, afinal, os próprios protagonistas agem assim o tempo todo; porém, McPhail, em colaboração à dupla de roteiristas Alan McDonald e Ryan McHenry, força além do que as bases narrativas sustentam, quebrando a bizarra magia que pretende nos entregar o tempo todo.

É claro, alguns pontos são interessantes e merecem ser mencionados. Há uma sequência cantada por Hunt e por Malcolm Cumming, que dá vida ao melhor amigo de Anna, John, em que eles saúdam o novo dia e um novo começo, dançando alegremente pelas ruas enquanto, alheios ao cotidiano que lhes cercam, desviam da horda de zumbis que domina a vizinhança, despercebendo a iminente tragédia por completo. Isso é, até encontrarem um homem vestido de boneco de neve que foi contaminado e que é, eventualmente, dilacerado sem piedade por Anna.

Outro aspecto a ser levado em consideração é o fato do roteiro não se preocupar em poupar sacrifícios. Várias pessoas que não poderíamos imaginar acabam se tornando vítimas dos mortos-vivos ou então entregam sua vida para proteger aqueles que amam – o que de fato adiciona certa camada melodramática muito bem vida. Entretanto, esses poucos retornos à glória logo se perdem em meio a uma triste inconsistência que desiste de explorar um potencial condierável e transforma absolutamente tudo em uma monotonia sem fim. Nem mesmo a sequência em que o sádico diretor da escola, Sr. Savage (Paul Kaye), transforma-se em um psicótico ditador consegue salvar o filme.

McPhail também perde-se ao encabeçar o projeto e atirar para muito longe em relação às suas investidas anteriores. Tendo como seu última longa o drama Where Do We Go From Here?, que inclusive recebeu aclame da crítica especializada e levou para casa alguns prêmios, era de se esperar que o diretor nos entregasse algo no mesmo nível. Entretanto, a ideia de se deixar levar por uma edição frenética e enquadramentos quase imóveis se assimila a decisões amadoras demais para a habilidade que ele já apresentou ao público.

Se você está procurando por uma história bizarra além da conta, Anna e o Apocalipse é a pedida perfeita, porque, ao menos, ela irá te entretar por pouco mais de noventa minutos. Entretanto, não espere encontrar fusões de gênero geniais e um musical às avessas, como as pessoas podem pensar ao assistir ao trailer; afinal, a expectativa é a mãe de todas as decepções – e aqui, é provável que o baque seja maior que o imaginado.

Anna e o Apocalipse (Anna and the Apocalypse – EUA, 2018)

Direção: John McPhail
Roteiro: Alan McDonald, Ryan McHenry
Elenco: Ella Hunt, Malcolm Cumming, Paul Kaye, Sarah Swire, Christopher Leveaux, Marli Siu, Mark Benton
Gênero: Musical, Terror
Duração: 93 min.

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