Assim como os dramas familiares, filmes sobre golpes nunca estiveram longe de ganhar um espaço especial na esfera cinematográfica: apenas nos últimos anos, obras como Trapaça, O Lobo de Wall Street e O Último Golpe exploraram o suis-generis de forma interessante, mascarando o que o público realmente entendia por golpistas e criando um afeto desconstruído entre espectador e personagem. E é claro 2019 não ficaria de fora de nos entregar uma dessas obras do gênero, convidando-nos não apenas para o aterrador mundo dos stripclubs, mas também abrindo as portas para o que apenas podemos entender como a maior surpresa do ano.

Comandado por Lorene Scafaria, essa tragédia dos dias atuais é apenas travestida com uma breve camada de comédia antes de realmente mergulhar no que pretende: criando uma narrativa muito mais profunda do que imaginaríamos, o longa gira em torno de Destiny (Constance Wu), uma jovem que acabou de começar o emprego em uma das danceterias mais famosas de Nova York e percebe que está longe de se equiparar às outras garotas que disputam entre si a atenção dos milionários excêntricos de Wall Street. Isso é, até ela cruzar caminho com a matrona Ramona Veja (Jennifer Lopez), que é a principal atração da casa há vários anos e ainda tem a capacidade de deixar qualquer um boquiaberto – mesmo dentro de uma cultura extremamente machista e que preza pela efêmera juventude da mulher.

Destiny, então, procura Ramona e lhe pede conselhos – e imediatamente as duas desenvolvem entre si uma relação de mãe e filha que se desenrola até o final do filme. E é claro que nós compraríamos o argumento fabulesco do prospecto “final feliz” se Scafaria não resolvesse destrinchar a trama em duas linhas temporais diferentes. Enquanto tudo parece perfeito na primeira parte do complexo pano de fundo, descobrimos que ambas as personagens tiveram uma brusca ruptura que culminou em uma separação chocante (bem como algumas prisões que são premeditadas desde o princípio pela tensa presença de Julia Stiles como a jornalista Elizabeth).

Se a diretora já havia entregue uma degustação de suas habilidades em Procura-se Um Amigo para o Fim do Mundo, definitivamente ela parece muito mais confortável ao explorar a complicada vida das strippers de Manhattan e fornecer uma perspectiva mais humanizada de mulheres que batalham pela independência. De fato, a obra é um hino feminista que, conforme diz a personagem de Wu, “não deseja propagar estigmas” sobre essas personas. Entretanto, no final das contas, estamos diante de um delicioso tour-de-force liderado por um elenco incrível cujas delineações refletem até onde o desejo por emancipação social pode nos levar.

Eventualmente, as strippers do clube em questão são forçadas a procurar outros lugares devido à crise da bolsa de valores de 2008 que destruiu os executivos de Wall Street (dessa forma, destruindo seus principais clientes e sua fonte de renda). Após se afastarem por alguns anos, Ramona e Destiny se reencontram, mas dessa vez com um plano quase impossível em mente: usar e abusar da boa vontade de homens solteiros ou sem escrúpulos para se divertirem depois de um estressante dia – e aproveitar essas brechas para drenar todo o seu dinheiro. Afinal, essa sempre foi a ideia de Ramona, cuja construção funciona como uma espécie de matriarca, uma empoderada mulher que não para por nada até conseguir o que deseja. E é a partir daí que as coisas começam a ganhar ritmo e fica bastante interessantes.

Wu certamente nos chama a atenção ao se afastar de seus papéis interessantes, como a inocente garota nova-iorquina da dramédia Podres de Ricos, mas é J-Lo que se apropria dos holofotes no melhor papel de sua carreira. Considerando as tantas comédias românticas das quais participou, é revigorante ver sua mudança performática nas telonas: aqui, Lopez se livra de suas amarras pré-concebidas e encarna com uma fluidez aplaudível as múltiplas facetas de Ramona, explorando-as ao longo do filme e estampando-a tanto como heroína quanto como vilã. Não podemos deixar de sentir certo ressentimento depois de descobrirmos que sua ganância colocou tudo a perder, mas as sequências finais e seu arco de quase redenção tangenciam a perfeição artística.

É claro que o longa em si não está isento de alguns problemas. Scafaria, que também fica a encargo do roteiro, acaba investindo esforços em excessivos arcos dramáticos, perdendo a mão em momentos pontuais no tocante ao protagonismo e a essência primordial de suas personagens: a priori, pensamos que as rappers Cardi B e Lizzo terão uma importância maior, mas elas logo são substituídas pelas novatas femme fatales encarnadas por Keke Palmer e Lili Reinhart; como se não bastasse, até mesmo essas duas caem no esquecimento em prol de transferir as seções de causa e consequência para Ramona e Destiny.

Felizmente, grande parte das sequências é calculada com exímia precisão e posta em locais de distinta compreensão. Talvez uma das melhores cenas insurja no feriado natalino organizado por Ramona e que reúne suas meninas, refletindo sua condição da figura maternal central da produção; em uma belíssima contraposição, temos a melancolia do último ato e a paradoxal sobriedade das arquiteturas em que Destiny e as outras percebem que estão a um passo de serem descobertas.

As Golpistas é, sem sombra de dúvida, a maior surpresa do ano – e talvez nem esteja me referindo à narrativa, mas sim à ilustre presença de Jennifer Lopez na atuação de sua carreira inteira. Se a atriz e cantora sofria num demérito constante, esse filme prova sua versatilidade e sua capacidade de nos encantar do começo ao fim.

As Golpistas (Hustlers– EUA, 2019)

Direção: Lorene Scafaria
Roteiro: Lorene Scafaria, baseado no artigo de Jessica Pressler
Elenco: Constance Wu, Jennifer Lopez, Lizzo, Cardi B, Lili Reinhart, Keke Palmer, Julia Stiles
Duração: 110 min.