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Foram dois anos de espera, mas Big Little Lies finalmente voltou para a HBO.

A série baseada no romance homônimo de Liane Moriarty tornou-se um fenômeno quanto estreou na emissora em 2017, levando para casa diversos prêmios e consagrando David E. Kelley como um dos grandes storytellers da televisão contemporânea. A obra funcionou como um rip-off elevado a um patamar bastante diferente de Desperate Housewives, abandonando a comédia irreverente e abrindo espaço para uma mistura perfeita de drama familiar e suspense, adicionando pitadas de um mistério deliciosamente macabro de se resolver. Agora, o público retorna à cidadezinha litorânea de Monterey para descobrir que certos segredos não conseguem ficar enterrados por muito tempo.

Para aqueles que não se recordam, no último season finale, Perry Wright (Alexander Skarsgard) sofreu as consequências de seu constante abuso para com a mulher, Celeste (Nicole Kidman), sendo empurrado do alto de uma escada e brutalmente morto. A partir daí, as cinco mulheres protagonistas dessa arrepiante e aplaudível sequência uniram-se para defender umas às outras e conseguiram impedir a si mesmas de serem presas. E é claro que cada uma delas achou que o pior tinha passado – isso é, até a chegada da intrigante figura de Mary Louise (Meryl Streep), mãe de Perry, à vizinhança, podendo colocar em risco tudo o que esconderam até agora.

O episódio de reestreia, intitulado What Have They Done?, explora justamente os corolários de uma omissão ensurdecedora e agonizante, expressada das mais diversas formas pelas protagonistas. Aqui, o roteiro abre espaço para fornecer de modo conciso, porém impactante, momento de glória para cada uma das personagens principais: Celeste se levanta todas as noites sofrendo com pesadelos que remontam os momentos finais de seu ex-marido e como ela agradece em quietude que ele não está mais presente para lhe torturar; Bonnie (Zoë Kravitz), mergulha em uma culpa que a consome mais que as outras, colocando-a em um arco depressivo que fala cada vez mais alto – ainda mais levando em conta que ela foi a responsável por empurrar Perry.

A personalidade retraída de Celeste e o reflexo martirizante de Bonnie entram em um belíssimo contraste com Madeleine (Reese Witherspoon) e Jane (Shailene Woodley), as quais também vão de encontro uma com a outra. Madeleine é a “mãe perfeita” que não aceita não como resposta e faria de tudo para proteger quem ama; seu ego radiante e comunicativo por vezes chama olhares indesejados e a colocam numa posição de intrometida – materializada pelos ácidos diálogos de Mary Louise em seu primeiro encontro. Jane, por sua vez, parece aliviada em se ver livre de um homem que a estuprou vários anos atrás, não entendendo como a amiga pode estar processando o que realmente aconteceu.

A única que talvez não tenha ganhado o espaço merecido mais uma vez é Renata (Laura Dern), a suposta antagonista da trama cujos traços de femme fatale logo se transformam em uma aprazível e compreensiva dona de casa e empreendedora. A personagem em questão tem pouquíssimos momentos no centro dos holofotes e, considerando que arrancou uma performance memorável de Dern, merece mais delineamento nos próximos capítulos.

É interessante ver como Jean-Marc Vallée, diretor do primeiro ciclo da série, deixou seu legado em mãos competentes e foi emulado em praticamente cada uma das cenas. Andrea Arnold não pensa duas vezes em criar uma dimensão surrealista e onírica para as fortes mulheres dessa trama, valendo-se até mesmo de arquiteturas fragmentadas para causar um estranho e funcional dinamismo dentro da obra. A bruta e perceptível edição é um artifício colocado com a máxima cautela, pensada milimetricamente para permitir que os telespectadores sejam jogados sem piedade de um lado para o outro em arcos que são muito mais profundos do que realmente parecem.

Através de angústias interiores e revelações sentimentais, é Streep quem rouba nossa atenção em sua versatilidade como atriz. Ao encarnar Mary Louise, ela busca referências de uma mãe traumatizada pela morte precoce do filho, não pensando duas vezes em fazer duas análises sobre cada um dos habitantes da pequena Monterey. As falas dotadas de ironia e de uma amedrontadora percepção do que realmente está acontecendo refletem uma construção fria, calculista, que não pensaria duas vezes antes de vingar o seu protegido – independente de tinha ciência ou não das atrocidades que cometia com sua esposa. Também não é à toa que a presença de Mary aumente a expressividade da melancólica paleta de cores, atenuada apenas em pontuais momentos.

Big Little Lies retorna com força e promete nos entregar mais uma impecável temporada, talvez abrindo margens para uma terceira temporada, quem sabe? É um fato dizer que a série não requisitava uma continuação; porém, visto que Moriarty e Kelley resolveram abrir o jogo, que consigam nos surpreender mais uma vez – e façam bom uso de uma envolvente narrativa e de um elenco que oferece muito mais do que pensamos em pedir.

 

Big Little Lies  – 02×01: What Have They Done? (Idem, 2019 – EUA)

Criado por: David E. Kelley
Direção: Andrea Arnold
Roteiro: David E. Kelly, baseado no romance de Liane Moriarty
Elenco: Reese Witherspoon, Shailene Woodley, Nicole Kidman, Laura Dern, Zoë Kravitz, Meryl Streep, Kathryn Newton, Sarah Sokolovic, Crystal Fox, Alexander Skarsgard
Emissora: HBO
Gênero: Drama, Mistério
Duração: 60 minutos

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