Se há algo que David E. Kelley já provou para os amantes de um bom drama que sabe como tirar suspiros de puro ódio até dos telespectadores mais céticos. Não é à toa que sua obra-prima Big Little Lies, mesmo entregando uma inesperada temporada, permanece como uma das grandes séries da televisão contemporânea e alcança um patamar invejável dois anos depois de sua estreia. E, às vésperas de mais um season finale – talvez a conclusão da série, visto que nenhuma terceira temporada foi confirmada pela HBO -, as coisas tornam-se mais e mais tensas, cultivando um sentimento de puro rancor e ódio no tocante a certas personagens que, definitivamente, vieram para ver o circo pegar fogo.

Para aqueles que duvidavam da capacidade de Kelley em superar a si mesmo, o quinto episódio do novo ciclo talvez seja um dos principais que prova sua incrível capacidade narrativa. A princípio, é natural que duvidemos do retorno da atmosfera original; porém, a transição de Jean-Marc Vallée para Andrea Arnold na cadeira de direção não poderia ter sido feita de maneira mais fluida, retomando as glórias de seu predecessor ao mesmo tempo que imprimir uma veracidade estética única e pessoal. Se pararmos para pensar, as reminiscências de Vallée permanecem como estrutura dos novos capítulos, mas abrem um espaço considerável para que Arnold encontre sua voz e nos surpreenda iteração após iteração.

E, considerando que os laços conturbados entre as protagonistas da série tornam-se cada vez mais estreitos, é quase óbvio pensarmos que o roteiro comece a optar por alguns vieses menos pacifistas e mais chocantes – e mais brando deles, por assim dizer, ganha força com a personagem de Zoë Kravitz. A jovem Bonnie parece toda semana se afundar mais numa pesada consciência ao manter em segredo o assassinato de Perry (Alexander Skarsgard) e se afastar gradativamente de todos a seu redor, representando um perigo em potencial. Até mesmo sua mãe, Elizabeth (Crystal Fox), que agora luta para sair de um derrame, percebe que as coisas estão muito diferentes.

O interessante é que, mesmo com a adição de novos nomes, as tramas principais não cedem às ruínas da saturação cênica. As escolhas imagéticas, incluindo a conhecida edição fragmentada e a diluição cronológica dos arcos, servem como reiteração da acidez e da crueza com a qual as personas são tratadas. As construções aparentemente maniqueístas e exploradas ao máximo pela primeira temporada são destruídas sem misericórdia em prol de competentes reviravoltas – e, por essa razão, ninguém é o que parece ser. Elizabeth, por exemplo, nos dá a sensação de uma mãe superprotetora e presente, mas os flashes de um passado distante revelam a atroz verdade.

Ainda que essa fatia roube um pouco da nossa atenção, é o pano de fundo regido por Meryl Streep e Nicole Kidman que comanda o espetáculo. O tóxico relacionamento entre Mary Louise e Celeste já vinha se fundando em novas camadas desde a iteração anterior – e é aqui que o enlace passivo-agressivo beira o insuportável. Mary Louise já mostrou que fará de tudo para conseguir a guarda de Josh e Max e se vingar por convicções que mostram, de algum jeito, que seu filho foi morto: é bem fácil perceber que ela deseja substituir Perry de alguma forma e, como Celeste se mostra como o alvo mais fácil, suas armas estão totalmente apontadas para a acuada dona de casa. Mas, como já mencionado ali em cima, nem tudo se revela de uma vez: Celeste parte de uma renegada composição que mostrou, na última temporada, mais forte do que poderíamos imaginar, e ela não pensará duas vezes antes de lutar ela guarda dos gêmeos.

Por enquanto, a mesa está posta e as regras estão dadas; o duo se enfrenta de igual para igual e, conforme dita a música, o cenário ganhará algumas cores mais sombrias quando ficarem uma de frente para a outra no tribunal. Mary Louise, em sua sórdida doçura, tenta cada vez mais atingir sua nêmeses e todos que a rodeiam – partindo até mesmo para uma histérica Renata (Laura Dern), que já tem que aguentar seus próprios problemas e uma falência causada pelo irresponsável marido. Aliás, essa beleza contraditória de Renata ganha mais força quando traçamos um paralelo de seu outrora status de excelência e seu retorno à estaca zero, acrescentando alguns elementos deliciosos e infelizes para a não mais pacata Monterey.

Big Little Lies continua fazendo o que sabe de melhor – nos deixando à beira de um colapso nervoso, gritando silenciosamente para a televisão em um acesso de impotência agonizante. É quase impossível não torcer para que as principais antagonistas do segundo ano pereçam ou deem adeus aos seus malignos planos, ainda que as nossas “heroínas” também não sejam flores que se cheirem. Agora, falta pouco para um estupendo e aguardado season finale, e as expectativas não poderiam estar mais altas.

Big Little Lies  – 02×04: Kill Me (Idem, 2019 – EUA)

Criado por: David E. Kelley
Direção: Andrea Arnold
Roteiro: David E. Kelly, baseado no romance de Liane Moriarty
Elenco: Reese Witherspoon, Shailene Woodley, Nicole Kidman, Laura Dern, Zoë Kravitz, Meryl Streep, Kathryn Newton, Sarah Sokolovic, Crystal Fox, Alexander Skarsgard
Emissora: HBO
Gênero: Drama, Mistério
Duração: 45 minutos