Falta apenas uma semana para que Big Little Lies chegue a mais um season finale – e as coisas estão esquentando cada vez mais.

Na verdade, o sexto episódio marca uma clara ruptura entre o misterioso drama que se cultivou nos capítulos anteriores e até mesmo na temporada de estreia, preferindo arquitetar uma atmosfera à la How to Get Away with Murder ou outros thrillers de tribunal que tanto caem no gosto popular. Afinal, as cartas já foram dadas e agora caminhamos em direção ao clímax de um complexo jogo no qual as duas únicas apostadoras restantes são Celeste (Nicole Kidman) e Mary Louise (Meryl Streep), e, nesse conturbado miolo familiar, as outras protagonistas podem ceder seu espaço a um bem maior ao mesmo tempo que continuam a ser pontos-chave para o vindouro desfecho.

Andrea Arnold já se mostrou extremamente competente e com uma química inigualável como diretora da nova iteração ao lado de David E. Kelley assinando o roteiro. E, enquanto o grupo das fortes mulheres se manteve unido até agora, elas foram obrigadas a se separar para continuar a lutar e proteger umas às outras. É justamente aqui que Kidman se entregar de corpo e alma a mais uma chocante performance, apenas nos dando a impressão de ser uma dona de casa indefensável – ao menos até os quarenta e cinco minutos do segundo tempo. Entretanto, a atriz faz um ótimo uso de suas fluidas nuances e transforma Celeste numa arma a ser temida.

Já ficou bastante claro que Streep se tornou o principal foco da temporada, constatação que não vem com surpresa, considerando que ela é, sem dúvida alguma, a maior performer de sua geração. Em The Bad Mother, como ficou conhecido o sexto episódio, ela alcança um patamar incrível, ainda que não surpreendente, ao nos fazer odiar sua persona mais do que antes: Mary Louise é uma pessoa agressiva e inescrupulosa em sua cândida e contraditória personalidade, deixando isso bem claro ao se resignar em um inexpressivo e agonizante cinismo. Aliás, Streep é agraciada com pouco mais de três falas apenas para nos envolver em um sutil retorcer de boca e um enojado revirar de olhos contra sua “inimiga” por assim dizer.

De fato, as duas são as forças-motrizes da temporada e já fizeram questão de mostrar isso mais de uma vez. É claro que tal narrativa é causa e consequência do assassinato de Perry (Alexander Skarsgard); porém, Arnold e Kelley encontraram sua independência e deram voz a algo que poderia ceder a uma forçosa submissão – e mais: conseguiram-na de uma forma inesperada cujos deslizes foram premeditados e cuidadosamente lapidados para que mantivessem a originalidade e a astúcia da iteração original. Indo além, conforme nos aproximamos do finale, o ritmo se mantém em um delicioso dinamismo e não se apressa para amarrar as pontas soltas, explicando os últimos momentos deste capítulo.

O cenário litorâneo quase não aparece. Em vez disso, somos transportados junto ao elenco principal para um claustrofóbico tribunal, em que as perguntas do advogado de acusação de Mary Louise, interpretado com maestria pelo veterano Denis O’Hare, nos dão vontade de gritar. Como sempre, a oscilação exaustiva entre impotência e poder controla as personas como marionetes, regendo uma agressiva coreografia que pode acabar em tragédia. Nem mesmo por isso Arnold abre mão da famosa estética inaugurada por Jean-Marc Vallée: ainda que dê uma recuada em prol de explorar a trama principal, a brusca e quase cubista edição aparece com força, contribuindo para auxiliar em algumas revelações e desenrolar outros arcos secundários.

Bonnie (Zoë Kravitz) divide os holofotes com a dupla supracitada ao finalmente enfrentar seus demônios na iminência da morte da mãe (Crystal Fox). Ao vomitar tudo que estava preso em sua garganta, Bonnie lê um emotivo discurso e fala sobre todas as mágoas de sua infância além de revelar que foi responsável por empurrar Perry da escada. Mesmo que não saibamos os corolários dessa confissão, ela sai de sua destrutiva apatia e parece voltar a si mesma, talvez afastando-se dos pensamentos de se entregar para a polícia, descarregar um inquietante peso de seus ombros e colocar em risco a integridade de suas “cúmplices” – mas, de novo, ela não quer isso para ninguém, nem mesmo para Madeleine (Reese Witherspoon), e por isso guardou o segredo a sete chaves.

Big Little Lies nunca deixou de estar no topo como uma das melhores séries da atualidade; mas, nesta semana, nos levou num cauteloso tour-de-force que terminou em um gancho inesperado, demonstrando a força – ou até mesmo a ingenuidade – de Celeste, e de como ela fará de tudo para manter a guarda de seus filhos e varrer para debaixo da cama um passado marcado por traumas físicos e psicológicos. Afinal, os fantasmas de nossos piores medos sempre podem voltar a nos assombrar, e ela está determinada a mandá-los de volta para o túmulo.

Big Little Lies  – 02×06: The Bad Mother (Idem, 2019 – EUA)

Criado por: David E. Kelley
Direção: Andrea Arnold
Roteiro: David E. Kelly, baseado no romance de Liane Moriarty
Elenco: Reese Witherspoon, Shailene Woodley, Nicole Kidman, Laura Dern, Zoë Kravitz, Meryl Streep, Kathryn Newton, Sarah Sokolovic, Crystal Fox, Alexander Skarsgard
Emissora: HBO
Gênero: Drama, Mistério
Duração: 50 minutos

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