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Crítica | Big Little Lies – 1×05: Once Bitten

Big Little Lies é uma daquelas séries em que você definitivamente não sabe o que esperar. Desde sua concepção literária, assinada por Liane Moriarty, até a adaptação para a televisão, realizada por Jean-Marc Vallée, toda a estrutura narrativa aponta para diferentes lugares, mas sempre consegue convergir momentos completamente opostos para uma virada espetacular e emocionante.

No quinto capítulo da minissérie da HBO, intitulado Once Bitten, explora as extremidades da psique humana, encarnadas pelas três protagonistas: Madeline (Reese Witherspoon), Celeste (Nicole Kidman) e Jane (Shailene Woodley). Nestas novas narrativas, já é possível traçar uma linha comparativa entre como as personalidades destoantes dessas personagens entram num nível de aprofundamento essencial para a compreensão de suas atitudes, de sua história – e de como tudo isso é capaz de afetar eventos no futuro.

O roteiro de David E. Kelley talvez nunca tenha estado em sua maior lapidação. Cada uma das beiradas a mais dos outros episódios encontra uma finalização; nada sobra, nada falta. A consistência perfeita e o equilíbrio harmônico entre as três histórias têm a capacidade mútua de criar três linhas narrativas cujos picos se unem através de uma montagem incrível e de tirar o fôlego. De forma resumida, enquanto Madeline lida com um coração dividido e sua constante necessidade de ter controle absoluto, Celeste embarca ainda mais numa autoavaliação de seu relacionamento abusivo, e Jane decide abandonar sua personalidade reclusa e traumatizada para agir com as próprias mãos.

Mais uma vez – um recurso estilístico que outrora indicava um afastamento da identidade da série, mas que agora faz parte de sua estrutura -, o mistério do baile de máscaras é deixado de lado. Não por completo, visto que as cenas dos segundos finais já nos dão algumas dicas de quem não morreu; entretanto, o foco volta-se para as personagens principais e como todas englobam um círculo quase hermeticamente fechado de apoio e solidariedade. Talvez a palavra empatia nunca tenha sido tão bem utilizada em um produto audiovisual como este.

É interessante observar como alguns temas-base próprios de uma trama novelesca são utilizados aqui. Madeline, como já dito, está com seus sentimentos confusos tanto pelo marido, Ed (Adam Scott), quanto pelo diretor de teatro que lhe ajudou na arquitetura da peça Avenue Q, Joseph (Santiago Cabrera). Entretanto, as coisas são mais complexas do que aparentem: sabemos da personalidade impetuosa e decidida da personagem interpretada por Witherspoon, mas a cada novo capítulo, essa sua segurança dá margem a imposições e acontecimentos sociais que implicam em sua estabilidade emocional. Ela quer demonstrar que seu casamento e sua família perfeita superam a felicidade do ex-marido, Nathan (James Tupper); porém, a cada nova virada, parece perder uma das preciosas cordas com as que controla as marionetes – incluindo o marido, a filha, e agora o casamento.

Tudo se torna ainda mais visceral quando revisitamos Celeste. Como já sabemos, ela sofre diariamente as agressões do marido (interpretado por Alexander Skarsgard), e ambos visitam semanalmente – ao menos em teoria – uma terapeuta de casais, tentando deixar para trás a toxidade de seu casamento e tornar-se o que eram antes do nascimento dos gêmeos. A análise realizada tanto por Moriarty no romance quanto por Kelley na adaptação televisiva sobre a dualidade entre ódio e amor é soberba: afinal, temos plena consciência de que a vítima é Celeste, mas ela diz para si mesma que o trata da mesma maneira agressiva. As discussões violentas, carregadas de impulsos físicos e psicológicos, parecem excitá-los e sempre acabam na pura crueza do sexo animal: eles não sentem, apenas agem como se fossem duas criaturas movidas por instintos primitivos.

Apesar disso tudo, a sequência fragmentada no consultório da terapeuta entra como elemento de epifania de Celeste, a qual se culpa pela transformação de seu relacionamento em um banquete de deslizes. Logo após ser lida de cabo a rabo por uma “invasiva” profissional, ela decide pegar os filhos na escola e encontrar o marido no aeroporto, como forma de mostrar que ainda está lá. Talvez sua amizade com Madeline e sua volta ao círculo profissional tenha impactado em suas atitudes – incluindo um desejo de ter controle sobre algum aspecto de sua vida.

É inegável, todavia, que o foco de Once Bitten repousa sobre Jane. Após descobrir que Renata (Laura Dern), em um acesso essencialmente explosivo, pedir uma reunião com o diretor da escola para falar sobre o provável relacionamento destrutivo entre Amabella e Ziggy, a personagem interpretada por Woodley decide fazer justiça com as próprias mãos. Sua backstory, assim como a das outras protagonistas, também é marcada pelo trauma e por segredos que pouco a pouco são revelados. Sabemos que ela foi estuprada quando mais jovem e que, desde então, sua vida entrou em queda livre – sendo resgatada diariamente pela personalidade única do filho e por suas novas amizades (que se mostram mais verdadeiras a cada dia).

Após ser publicamente humilhada e sua família ser tachada de louca, ela decide adotar uma postura mais rígida e ir atrás de seu agressor. E numa sequência exasperadamente angustiante, construída em cima de cortes bruscos e foreshadowings muito bem colocados, bem como a dramaticidade exacerbada do silêncio – que se faz cada vez mais presente em Big Little Lies – vemos o ódio tomar conta de Jane ao finalmente encontrá-lo. Mas, como já é de se esperar, ela não o mata, saindo do consultório com exasperação e voltando para casa, até ser parada pela polícia local.

Um dos aspectos que mais merece ovação neste episódio é, sem dúvida, o incrível trabalho de design de som. Aliado à montagem metafórica – cuja simbologia se afasta dos mementos de outras produções e reside sobre as próprias personagens -, cada uma das sequências irreverentes e fora da cronologia à qual estamos habituados tem uma função específica. Em uma delas, por exemplo, a terapeuta conversa com Celeste sobre um plano que devem armar caso seu marido volte a agredi-la; segundos depois, num corte seco e preciso, somos transportados ao carro de Jane, vendo-a conferir as balas do revólver antes de guardá-lo.

Big Little Lies se aproxima do seu fim. Entregando o que pode ter sido seu melhor episódio, a série não nos desapontou em nenhum momento desde o episódio piloto. Agora, é guerra ou paz. As linhas foram traçadas – e esperamos ansiosamente para ver quem será o primeiro a cruzá-las.

Big Little Lies – 1×05: Once Bitten (Idem, 2017, Estados Unidos)

Criado por: David E. Kelley
Baseado em: Pequenas Grandes Mentiras, de Liane Moriarty.
Direção: Jean-Marc Vallée
Roteiro: David E. Kelley

Elenco: Reese Witherspoon, Nicole Kidman, Shailene Woodley, Alexander Skarsgard, Adam Scott, Zoe Kravitz, James Tupper, Jeffrey Nordling, Laura Dern
Gênero: Drama, Mistério
Duração: 55 min.

Confira AQUI o guia de episódios da temporada.

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Publicado por Thiago Nolla

Thiago Nolla faz um pouco de tudo: é ator, escritor, dançarino e faz audiovisual por ter uma paixão indescritível pela arte. É um inveterado fã de contos de fadas e histórias de suspense e tem como maiores inspirações a estética expressionista de Fritz Lang e a narrativa dinâmica de Aaron Sorkin. Um de seus maiores sonhos é interpretar o Gênio da Lâmpada de Aladdin no musical da Broadway.

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