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Black Mirror tornou-se uma das séries mais envolventes e agonizantes da televisão contemporânea desde sua estreia em 2011. A obra, criada pela deturpada mente de Charlie Brooker, imediatamente cativou o público por analisar de modo extremamente pessimista os corolários do uso da tecnologia inescrupulosa e de que forma os meios que deveriam facilitar nossas vidas poderiam piorá-la. Entretanto, é notável que a chocante qualidade do show foi decaindo gradativamente – com exceção do inesperado ápice com White Christmas – até culminar em uma medíocre temporada. E, de forma até mesmo extra-narrativa, é possível até mesmo dizer que a plataforma Netflix acabou sucateando histórias necessárias ao transformá-las no mais do mesmo.

O novo ano, que chegou hoje, 05, ao serviço de streaming, é muito mais breve que as temporadas anteriores, tentando se reconectar com as glórias de um passado não muito distante. Porém, logo nos primeiros minutos é notável perceber como a brevidade não consegue esconder os múltiplos defeitos e as saídas formulaicas que o showrunner e roteirista emprega para causar o mínimo de surpresa no público. A iteração abre com o episódio intitulado Striking Vipers e nos traz dois rostos bastante familiares do cosmos televisivo: aqui, a trama principal gira em torno de um casal que se conhece desde os tempos da faculdade e que, anos mais tarde acabaram cedendo às rotinas complicadas do casamento.

À prima vista, Anthony Mackie e Nicole Beharie (interpretando Danny e Theo, respectivamente) trazem uma química interessante para as telinhas, ela dando vida a uma mãe e esposa que sacrificou diversas coisas, como mesma cita na transição do segundo para o terceiro ato, para dar ao homem que lhe conquistou a melhor vida possível; ele, ao contrário, sente-se preso em um ciclo sem fim que agora lidera apenas para uma aguardada morte. Porém, o pessimista cenário logo parece mudar quando ele se reconecta com um antigo amigo, Karl (Yahya Abdul-Mateen II) que acaba lhe dando um nostálgico, porém remasterizado presente para relembrar os velhos tempos. É aqui que o cenário da “família perfeita” ganha ainda mais uma complexidade – ou ao menos tenta cultivar algo para fora dos convencionalismos cênicos.

Nesta quinta investida da memorável série, Brooker deseja investir em um lado mais humano; porém, não faz isso com esmero o suficiente para impedir que os capítulos se transformem em um amontoado de deus ex machina e resoluções melodramáticas que, no final das contas, respaldam um infeliz tom novelesco para a obra. Não necessariamente faz-se preciso uma tragédia grega em toda sua pomposidade – afinal, Hang the DJ e San Junipero não caminham para um sórdido fim como seus conterrâneos; mas nem mesmo a tecnologia, premissa que rege a atmosfera quase distópica em questão, ganha força. Os aparatos utilizados pelos personagens são apenas um respaldo para um estranho enlace romântico entre Karl e Danny, que nutrem de um sentimento novo e inesperado quando encarnam dois personagens em realidade virtual. Nada mais importa – e a apressada resolução também não ajuda muito na coerência estrutural da história.

Miley Cyrus também dá as caras na iteração que fecha a temporada, mas nem mesmo sua rebelde personalidade consegue salvá-la de um insuportável fracasso. Em Rachel, Jack and Ashley Too, Cyrus é realmente a que consegue prover um pouco de profundidade a personagens unidimensionais ao lado de Susan Pourfar. A trama se divide em dois paralelos e, como é de esperar, une-se no confronto final entre o bem e o mal, focando em uma jovem cantora chamada Ashley O (Cyrus) que vê sua saúde mental declinar ao ser controlada pela impetuosa tia Catherine (Pourfar). Numa outra perspectiva, uma garota sem muitos amigos aproveita o lançamento da boneca movida a A.I. Ashley Too para se desinibir e tentar ganhar a atenção da escola ao menos por um momento.

É fato dizer que o capítulo em si ganha pontos por trazer de volta as ácidas e explícitas críticas de investidas anteriores, mas logo perde-se no meio do caminho ao arquitetar uma epopeia alucinada, sem qualquer ritmo ou fluidez entre os acontecimentos – que eventualmente se aglutinam em uma massa amorfa incompreensível. De qualquer forma, a principal virada da narrativa, em que Ashley O é colocada em um coma químico pelas pessoas em que confiava, arranca alguns suspiros de apreensão que, mais uma vez, são consumidos pela causalidade inexplicável das construções conclusivas. Em outras palavras, o ápice catártico tão aguardado nunca dá as caras e nos deixa num entediante presente suspenso.

A única entrada que realmente supera nossas expectativas é a única que não deveria: em Smithereens, cuja tradução para o português já nos dá uma pista do que esperar (“pedacinhos”), Brooker e seu time criativo retoma a tensão atmosférica de clássicos como National Anthem e coloca em uma realidade extremamente próxima à nossa. Um homem conturbado por traumas passados que insistem em assombrá-lo acaba por sequestrar um dos funcionários da empresa-título apenas para entrar em contato com seu fundador. Andrew Scott, que dá vida ao protagonista Christopher, carrega o peso dramático em suas costas e cuida, respaldado por um competente roteiro, para que cada uma de suas ações seja meticulosamente executada, culminando num final chocante de tão propositalmente idiota que é.

Apesar do pouco brilho, a quinta temporada de Black Mirror está longe de ser satisfatória. Os episódios reduzem-se ao mais do mesmo e preferem se erguer a partir de elementos fragmentários demais para nos causar comoção; em suma, a sensação de melodrama é muito mais forte que qualquer outro e, tristemente, volta a representar o cansaço iminente de uma outrora ótima antologia.

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