Black Mirror é uma das séries mais complexas dos últimos anos e talvez seja uma das produções mais originais e angustiantes a chegarem na Netflix. A produção traz ao público uma visão distópica acerca das evoluções tecnológicas, mostrando os corolários da dependência constante dos aparatos a priori facilitadores. É claro que, desde sua primeira temporada, colocar os personagens e os espectadores como reféns de algo incontrolável e mórbido foi uma ideia interessante e colocou o nome de Charlie Brooker em um patamar bastante considerável – os episódios, inclusive, funcionam como belíssimos médias ou longas-metragens em que não podemos fazer nada além de aceitar o que está por vir.

É inegável dizer que a qualidade da série decaiu consideravelmente conforme as narrativas tentavam encontrar uma complexidade maior, mas não se firmaram como memoráveis, por assim dizer. Se o show encontrou ápices magníficos até mesmo na conjuntura televisiva contemporânea com White Christmas, The Entire History of You e Nosedive, encontrou barreiras inegáveis com a quarta temporada, em tramas com premissas interessantes, mas que falhavam em construir algo com o potencial merecido. Entre U.S.S. Callister e Crocodile, Brooker precisava se reencontrar em meios a possibilidades infinitas – e talvez essa tenha sido sua ideia ao lançar um filme interativo e que desse o poder da escolha para os inúmeros fãs. Foi partindo dessa ideia que Bandersnatch surgiu e, ainda que suas intenções tenham sido as melhores, não podemos negar que a história em si não é envolvente o bastante para ser relembrado alguns meses no futuro.

O especial se assemelharia bastante àquele protagonizado por Jon Hamm, mas com um diferencial que já foi tentado antes na literatura e inclusive na televisão. Colocando-nos como centro das escolhas dos protagonistas, somos os responsáveis por guiar os acontecimentos em uma certa direção, e o final é fruto das nossas escolhas, por mais impossíveis e irreais que elas pareçam. Se Steven Soderbergh criou algo parecido com Mosaic, em que podíamos escolher por qual perspectiva assistiríamos aos episódios, o showrunner de Black Mirror realmente tentou superá-lo com investidas originais e que tangenciavam os incríveis romances infinitos em que o próprio leitor fazia seu percurso através da jornada. É claro, há uma estrutura por trás de tudo isso, com os holofotes voltados para o jovem Stefan (Fionn Whitehead), um programador amador que tem como ambição tornar-se um designer de games único.

Para isso, Stefan vai até a empresa dirigida por Colin Ritman (Will Poulter), que alcançou um sucesso ao lançar diversos jogos com qualidade impecável – e isso tudo ambientado em 1984. Já aqui, David Slade, que insurge como diretor do projeto, e Brooker encontram um espaço para fazerem alusões a outros episódios da antologia, incluindo Metal Head e Nosedive (estilizados como Metl Hedd e Nohzdyve, respectivamente). As referências são claras e já começam a cultivar um sentimento nostálgico para conosco, e é isso que também auxilia a construção do relacionamento profissional e conturbado entre Stefan e Colin. Mohan (Asim Chaudhry), o patrocinador principal da companhia, tenta contratá-lo – e é aqui que as escolhas principais começam a despontar, visto que a audiência pode fazer o protagonista negar ou aceitar a proposta.

Independente de qual seja sua escolha, Bandersnatch procurar nos colocar em um determinado ciclo narrativo e aproveita o espaço para fazer algumas entradas próprias do estilo da série, como reflexões intimistas e antropológicas. Primeiramente, precisamos entender que o jogo-título na verdade existiu como projeto, mas nunca foi lançado; quanto ao autor do livro homônimo, Jerome F. Davies, este foi criado para propósitos únicos de respaldar o complexo cosmos em questão. Entretanto, mesmo que não tenha existido, ele carrega consigo um trágico backstory, no qual criou um romance interativo e, entrando num surto psicótico, decapitou sua própria esposa. De acordo com o mockumentary também feito especialmente para o longa-metragem, ele começou a duvidar se suas escolhas eram regidas por si mesmo ou controladas por uma força maior, visto que, na certeza de que realidades paralelas existem, aquilo que não decidimos ganha forma e vice-versa, negando o princípio básico de livre-arbítrio.

Conforme os eventos se desenrolam, Stefan começa a perceber que seus impulsos involuntários também podem ser fruto de algo que desconhece. Em determinado momento, talvez inerente ao prosseguimento do conjunto fílmico, ele olha para cima e pergunta para alguém invisível (no caso nós) o que desejamos. É aí que a interação público-personagem se torna mais divertida e profunda, visto que estamos em uma realidade totalmente diferente, observando enquanto um determinismo compulsório coloca o nosso herói em uma crise existencialista complicada que o leva (ou será que nós o levamos?) a cometer as maiores atrocidades.

O grande problema é que, se tirarmos esse projeto interativo, não sobra muita coisa. Pegando a trama em si, os diálogos e as subtramas se movem em dependência do que escolhemos e da estrutura técnica. Em diversos momentos, as falas dos coadjuvantes nos induzem a repensar sobre nossas escolhas, dizendo por exemplo, “vou lhe perguntar mais uma vez” ou “você não deveria apressá-lo”. Mesmo que encontremos um beco sem saída ou um final considerável, é sempre possível retornar para determinado momento e trilhar um outro caminho – mas, como dito antes, a base criativa não é uma das melhores e, consequentemente, sua execução deixa a desejar.

Talvez Brooker não consiga encontrar a diferença básica entre um filme e um jogo; porém, não podemos tirar mérito de sua tentativa de trazer algo novo para as telas, que, em teoria, nunca foi concretizado materialmente. A atuação do elenco, com a rara exceção de Poulter e Whitehead, que encontram uma humanização mais palpável, move-se com predeterminações robóticas e mecânicas que poderia funcionar, mas insurge como um elemento estranho que teria melhor aproveitamento se observado com mais cautela. Alguns dos finais entram em conflito com os arcos dramáticos, mergulhando em um absurdo tão grande que chega a ser desnecessariamente cômico.

De qualquer modo, Bandersnatch fez muito barulho por nada. A falta de independência entre dois elementos cruciais para a realização de uma boa obra audiovisual é o principal deslize. Entretanto, não posso ser hipócrita ao ponto de dizer que, na primeira meia hora, o projeto é uma diversão inusitada.

Black Mirror: Bandersnatch (Idem – EUA, 2018)

Direção: David Slade
Roteiro: Charlie Brooker
Elenco: Fionn Whitehead, Will Poulter, Craig Parkinson, Alice Loew, Asim Chaudhry
Gênero: Drama
Duração: 90 min.