Gene Stupnitsky pode não ser um nome muito conhecido na indústria contemporânea, mas seu filme Professora Sem Classe deve ter feito alguns fãs quando marcou o retorno de Cameron Diaz para as telonas. Claro que a comédia escrachada não se tornou uma obra-prima do cinema, mas também não prometeu entregar uma narrativa despretensiosa e ao menos envolvente, falhando em praticamente todos os aspectos. Felizmente, Stupnitsky retornou a ganhar nossa atenção com o lançamento de seu novo projeto, a ácida comédia coming-of-age Bons Meninos – liderado por um elenco que consegue extrair de um roteiro aparentemente bobo alguns momentos de puro divertimento, além de brincar com os saturados gêneros do espectro hollywoodiano.

Assinando a trama ao lado de Lee Eisenberg em mais uma colaboração, a história principal gira em torno de três meninos que passam pelas mudanças da pré-adolescência para a juventude e que, ao mesmo, adentram em um novo escopo de seu colégio, no qual cada uma das crianças acredita com força que as coisas mudarão irreversivelmente. Aqui, Max (Jacob Tremblay), Lucas (Keith L. Williams) e Thor (Brady Noon) fazem parte de um grupo da sexta série que se envolve nas aventuras mais inesperadas possíveis, incluindo comprar um novo drone que acabou destruído por um ônibus escolar, fugir de adolescentes que querem suas pílulas de ecstasy de volta e chegar a tempo para um dos eventos mais aguardados do ano: uma festa do beijo planejada por Soren (Izaac Wang), um do garotos mais populares da escola.

A princípio, a obra parece similar a qualquer outra aventura tragicômica infantil dos últimos dez anos, mas Eisenberg, supervisionado pela habilidosa capacidade criativa do produtor Seth Rogen, faz questão de incrementar os arcos com elementos propositalmente controversos e que refletem o crescente amadurecimento pelo qual os protagonistas passam. É baseando-se nisso que o trio de atores-mirins se transforma em uma máquina de palavras de baixo calão enquanto lutam para conseguir seu espaço em um dos lugares mais conturbados de todos: a escola. E é interessante perceber de que forma o diretor e o roteirista canalizam suas forças para investir em certos temas como bullying, autoaceitação e descoberta.

Entregando muito mais do que sua premissa promete, os personagens são delineados de uma forma complexa e adoravelmente apaixonante, nos tragando para dentro de uma atmosfera competente e que, no final das contas, constrói um mundo aprazível e que corresponde aos jovens da geração millenial. O anfigúrico mote ganha ainda mais palanque quando percebemos que a peça fílmica não se leva a sério, mas faz com que as personas infantes se levem: de fato, Max, Lucas e Thor possuem um cotidiano religiosamente voltado para que se tornem popular e se assemelhem aos seus colegas – inclusive no tocante a relacionamentos. Não é surpresa que o personagem de Tremblay tenha em mente uma vontade muito específica: se declarar para a garota que gosta e, caso tudo dê certo, começar a namorá-la.

Mas isso não é tudo: o trio em questão é embebido em uma subtrama à la Os Goonies, porém com um tratamento especial e bem mais sarcástico do que poderíamos imaginar. Eventualmente, eles desejam aprender como beijar e acabam por flagrar duas jovens moças que acabaram de adquirir drogas – no caso, estimulantes sexuais -, e acabam por “roubar” o frasco com as pílulas, se recusando a devolvê-las com um discurso protetivo de nos arrancar risadas. E o que poderia parecer apenas um floreio desnecessário, na verdade, é de extrema importância para a construção do último ato (sem sombra de dúvida, o mais irreverente de todos e que emula diversos convencionalismos da indústria cinematográfica sem ceder às pretensões catárticas).

Como já era de se esperar, as relações de amizade verdadeira entre eles alcança um nível de dificuldade que os coloca em diferentes caminhos, apenas para juntá-los em um último esforço. Aqui, Stupnitsky utiliza diversas referências das dramédias familiares (qualquer uma que você consiga pensar, de verdade) e imprime uma contraditória atmosfera dramática que tem o efeito contrário para os espectadores – provavelmente algo a que o diretor almejava.

Nada disso seria possível sem as performances dignas do elenco que se apresenta. Tremblay, recém-aclamado por sua entrega emocionante em O Quarto de Jack ao lado de Brie Larson, cresce exponencialmente sem perder a inocência de sua personalidade, enquanto Noon é o egocêntrico do time que nada mais é movido por um desejo reprimido de se tornar um cantor. Porém, é Williams quem rouba nossas atenções com seu timing cômico perfeito e uma atuação que transcende a idade que tem.

Bons Meninos é um grande acerto deste ano e, ainda que carregue consigo certos equívocos estéticos e narrativos, cumpre seu trabalho de explorar a transição da infância para a adolescência sem se respaldar no brilho de outras obras. O resultado final é bastante positivo – e uma boa entrada para a breve filmografia de Gene Stupnitsky.

Bons Meninos (Good Boys – EUA, 2019)

Direção: Gene Stupnitsky
Roteiro: Gene Stupnitsky, Lee Eisenberg
Elenco: Jacob Tremblay, Keith L. Williams, Brady Noon, Molly Gordon, Midori Francis, Izaac Wang, Millie Davis, Josh Caras
Duração: 89 min.