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Guillermo del Toro sempre encantou a todos com os visuais de suas obras. Resgatando elementos da ficção fantástica e do expressionismo alemão – concedendo-lhes um toque pessoal e sombrio -, longas-metragens como O Labirinto do FaunoHellboyCírculo de Fogo encantaram públicos de todas as idades, ainda que, em alguns casos, a narrativa deixe a desejar e não orne com a majestosidade de sua concepção. Em seu último trabalho, por exemplo, intitulado A Colina Escarlate, tivemos uma direção muito segura, mas completamente linear e sem quaisquer indícios de metáforas – aproximando-se muito do mundo infantil e negando sua própria essência macabra.

Em Caçadores de Trolls (Trollhunters, no original), a primeira animação original do serviço de streaming Netflix e a primeira aventura do cineasta no mundo seriado, somos apresentados a um mundo completamente diferente do que estamos acostumados a ver nos longas-metragens do diretor. Aqui, descobrimos uma sociedade sobrenatural vivendo sob a monótona cidade de Arcadia, a qual é povoada por dezenas espécies de trolls, dos mais altos aos minúsculos, dos mais perigosos aos mais sociáveis.

Em contraposição às sutis saídas para retratar os arcos de busca e salvação da personagem em Labirinto do Fauno, por exemplo, a série se finca basicamente na jornada do herói descrita primeiramente pelo escritor Joseph Campbell. E em tratando-se das etapas narradas em seu livro e esta história ser essencialmente mitológica, podemos imaginar o plot principal: um simples e jovem garoto, aqui intitulado Jim Lake Jr. (Anton Yelchin) é chamado por forças inefáveis e muito maiores que quaisquer outras que tenha conhecido e embarca numa aventura sem volta, buscando concluir sua missão e arcar com as consequências de seus atos e responsabilidades.

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De forma um pouco mais descritiva, Jim na verdade é escolhido por um amuleto próprio da cultura troll, tornando-se o defensor de uma raça de criaturas com a qual não tem nenhum vínculo, contrariando todas as leis universais que impediam os dois mundos colidirem entre si. E ele não está sozinho nessa viagem, como nos ditam as regras: o garoto é ajudado por dois guardiões que têm profundo conhecimento dos trolls, Blinky (Kelsey Grammer) e Aaarrrgghh!!! (Fred Tatasciore – e sim, este é seu real nome), cuja química em cena é deliciosa, cada qual entrando em nuances entre dramas pessoais e humor pessoal. Além destes dois, Jim é ajudado por seu melhor amigo, Toby (Charlie Sexton), o arquétipo do escape cômico, e Claire (Lexi Medrano), emergindo como a encarnação do cérebro do grupo.

Sua tarefa é, em teoria, simples: atender aos chamados dos necessitados – que variam entre salvá-los da destruição iminente e livrá-los de uma infestação de gnomos – e impedir que as forças das trevas se alastrem mais uma vez. Neste caso, como toda boa narrativa fantástica, nosso herói não poderia encontrar motivação sem forças inimigas, e aqui elas são encarnadas por uma subraça chamada Gumm Gumms, liderada pelo intangível Draal, banido para o limbo das Dimensões Escuras e representado neste plano material por Bular (dublado originalmente pelo incrivelmente assustador Ron Perlman).

Mas suas responsabilidades não acabam por aí; além de seu posto como guerreiro, ele ainda deve lidar com sua vida escolar, a qual é constantemente permeada por valentões e por professores que dizem ser o que não são, e com a vida familiar e seu incrivelmente explorado relacionamento com a mãe, Barbara (Amy Landecker).

Resultado de imagem para trollhunters scenesO maior mérito da série divide-se em dois aspectos: o primeiro no tocante à narrativa. Diversas produções audiovisuais recorrem à jornada do herói para transgredi-la e fornecer um novo ponto de vista para o público. Até mesmo obras cuja mensagem não está diretamente ligada a esta estética milenas abusam de certos tópicos para criarem seus personagens. Algumas delas funcionam, mas a maioria acaba caindo nas saídas formulaicas para suas criações, mantendo-se no âmbito maniqueísta de que o herói deve ser consagrado e louvado e o vilão deve ser punido com o banimento ou com a morte. Em Kubo e as Cordas Mágicas, o antagonista entra num arco de redenção e afasta-se deste clichê, mas em Caçadores de Trolls a punição acaba funcionando melhor. Sentimos como se estivéssemos encarnando personagens de jogos de RPG, e cada escolha contribui para a exploração de tramas e subtramas.

O segundo refere-se aos visuais: cada troll aqui representado é transparente. Seus arcos tridimensionais e suas personalidades destoantes são refletidas através de suas concepções, incluindo detalhes físicos, traços emocionais, cor da pele, entre outros. A vibrante paleta de cores ajuda a endossar a versatilidade e a diversidade destas criaturas, principalmente pela presença de tons complementares e harmônicos, reforçando inclusive a ideia de convergência de diferenças.

A escolha do elenco também deu-se a dedo. Yelchin, encarnando um de seus últimos personagens antes do trágico acidente que culminou em seu falecimento, traz toda a doçura de sua voz para um adolescente de quinze anos cuja personalidade mais introspectiva deve dar lugar a uma postura heroica que faça jus a um trabalho pelo qual não pediu. Em alguns momentos, alguns diálogos se mostram muito autoexplicativos – e o silêncio seria melhor utilizado para exprimir o tom certeiro ao público -, mas no geral sua forte presença contrasta de forma quase mágica com o personagem de Perlman. Dois seres de mundos completamente opostos travando uma batalha coreografa com maestria entre a luz e a sombra, o caos e a paz.

Caçadores de Trolls veio como uma surpresa: afinal, os visuais de del Toro costumam ficar ofuscados por uma pobre e nada atraente narrativa, como visto em algumas de suas produções. Mas aqui, tudo harmoniza sem precedentes, tornando a primeira série animada da Netflix uma obra a ser admirada com muito cuidado – e até uma aula sobre conceitos de personagens e história.

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