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Dizem que um bom suspense nos tira mais horas de sono que o mais puro horror. E bom, James Wan está aí para provar que a máxima é verdade, construindo, ao lado de bons discípulos, narrativas de tirar o fôlego e que nos deixam vidrados na tela do começo ao fim. Até mesmo M. Night Shyamalan, em seus dias de glória, consegue transformar o gênero em algo nunca antes visto, arquitetando tramas que fogem ao convencionalismo e encontram uma resolução magnífica – com algumas exceções é claro. Logo, quando Susanne Bier anunciou que se aventuraria nesse meio com adaptação do thriller Caixa de Pássaros, assinado por Josh Malerman, grande parte dos fãs que já se familiarizara com o cosmos distorcido do autor ficou bastante animada. Afinal, o romance recebeu uma ótima recepção da crítica e carregava consigo uma mistura incrível de diversas vertentes literárias.

Entretanto, Bier, ainda que tenha levado para casa um Oscar por seu trabalho como roteirista, além de ter sido indicada ao Globo de Ouro e ao Emmy, parece não estar em boa maré dentro da indústria cinematográfica. Seus últimos projetos traçaram uma decrescente linha de qualidade, e aqui cito o relativamente interessante Tudo o que Perdemos, protagonizado por Halle Berry, e o péssimo Serena, uma releitura vazia do livro homônimo que caiu no esquecimento. Em sua tentativa de redenção, a cineasta cai na mesma ruína ao prometer mais do que entrega: através de um trabalho preguiçoso e formulaico, são poucas as coisas que se salvam de mais um fracasso encomendado pela Netflix, além de desonrar uma obra tão delicada quanto a assinada por Malerman.

A narrativa se respalda claramente numa mistura entre ficção fantástica, sci-fi e suspense – ou ao menos uma tentativa de mesclar os três. Em um cenário pós-apocalíptico, que já nos é apresentado em um breve prólogo, a protagonista Malorie (Sandra Bullock), uma artista plástica que está aguardando a chegada de seu primeiro filho, presencia uma série de suicídios terríveis, motivados por algo incompreensível e invisível. As coisas definitivamente saem do controle quando sua irmã, Jessica (Sarah Paulson), no trajeto de volta para sua casa, é acometida pela cruel força e de joga na frente de um caminhão, deixando-a desnorteada e sozinha até se resgatada por um homem, o qual consegue abrigá-la na casa mais próxima.

Se analisarmos bem o escopo ao qual somos apresentados logo de cara, é muito fácil traçar paralelos com duas obras totalmente diferentes entre si: O Nevoeiro, de Stephen King, e Fim dos Tempos, de Shyamalan. Ainda que aquele tenha ganhado uma adaptação interessante para as telonas em 2004, é um fato dizer que este representa uma triste mancha na carreira do cineasta – e parece ter sido o mais apropriado, na visão de Bier, transformando seu filme em um desastre total. As forças místicas e ocultas atacam os mais desprevenidos – ou seja, aqueles que recusam-se a se manter nas sombras e encaram o mundo lá fora. Para tanto, Malorie e seus companheiros criam uma espécie de fortificação, selada por papéis de jornal e janelas trancadas, impedindo que as supostas criaturas consigam atingi-la.

Porém, parece que a narrativa de estagna nesse ponto. Mesmo com uma sequência interessante em que Bullock e Paulson desviam da histeria coletiva e, eventualmente, encontram o princípio de suas ruínas, a direção de Bier torna-se sem vida, optando por algo dentro dos padrões em vez de um simples indício de originalidade – e nem mesmo o clássico campo-contracampo funciona com a precisão que deveria. O roteiro de Eric Heisserer, responsável por nos apresentar à obra-prima A Chegada no ano passado, não ajuda em absolutamente nenhum aspecto. Pelo contrário, os tristes diálogos drenam as tentativas de deixar a atmosfera tensa e angustiante, parecendo forças os atores a regurgitar as palavras.

De qualquer forma, Bullock consegue se manter em forma até o fim do segundo ato, no qual mais uma vez prova que cria mágica mesmo com os mais pífios papéis. Entretanto, ela não aguenta manter-se um nível acima do que lhe é entregue, cedendo a falas sem sentido, explicações mal formuladas e uma atuação vergonhosa. Em determinado momento, Malorie, tendo seu filho e cuidando da recém-nascida sem nome de Olympia (Danielle Macdonald), também levada ao suicídio, encontra um espaço para criar uma “família” ao lado de um dos únicos sobreviventes de um trágico massacre, Tom (Trevante Rhodes). Ao escapar, deixando seu par romântico para trás, ela se vê em uma perigosa jornada num caudaloso rio para salvar as crianças e tentar salvar a si mesma. Tais sequências são construídas com uma falta de esmero tão grande que chega a ser doloroso ouvi-la repetir palavras vazias e vencidas nas próprias metáforas.

Bier não apenas falha em sua própria função, como destrói quaisquer simbologias mais profundas que o romance trouxe alguns anos atrás. Temas como depressão e confiança são travestidos com um suspense amargurado, que na verdade nem mesmo chega a se realizar, mantendo-se em um melodrama excessivo e cansativo. Até mesmo o título original é esquecido; é claro, Malorie carrega consigo uma caixa de pássaros, libertando-os assim que chegam ao abrigo. E o que isso deveria realmente representar? Que ela e as crianças finalmente estão seguras e podem crescer em paz em um microcosmos protegido das criaturas? Porque caso essa seja a grande “lição de moral”, sinto lhes dizer que não funcionou muito bem.

Às Cegas pode não ser pretensioso, diferente de diversas produções lançadas neste ano, mas em nada adiciona para o gênero do suspense ou para alguma coisa, no geral. Além de uma conturbada técnica cinematográfica e um risível roteiro, nem Bullock se salva de ser engolida por essa bomba de fim de ano.

Às Cegas (Bird Box – EUA, 2018)

Direção: Susanne Bier
Roteiro: Eric Heisserer, baseando no romance de Josh Malerman
Elenco: Sandra Bullock, Rosa Salazar, Sarah Paulson, Tom Hollander, John Malkovich, Trevante Rhodes, BD Wong, Danielle Macdonald
Gênero: Drama, Suspense
Duração: 124 min.

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