A indústria do entretenimento sempre teve muito apreço a histórias sobrenaturais, principalmente àquelas ambientadas em futuros pós-apocalípticos em que o restante da população humana está submetido apenas ao prospecto de sobrevivência. Isso talvez revele nossa necessidade de observar a tragédia narrativa, de contar e de ouvir peripécias que tratam de elementos caóticos em sua natureza mais pura. Desde sempre, longas-metragens como Guerra Mundial Z e A Noite dos Mortos-Vivos carregam consigo uma habilidade incrível de nos conquistar – e até mesmo franquias datadas como Resident Evil ainda funciona dentro de sua esfera guilty pleasure.

Nas últimas décadas, entretanto, os cineastas optaram por uma investida mais irreverente, buscando uma rebeldia cênica e elementos menos engessados para filmes e séries televisivas: foi dessa maneira que obras como Todo Mundo Quase Morto e Zumbilândia vieram à tona e buscaram revitalizar um gênero saturado e que muito dificilmente saía de suas fórmulas vazias. Ora, até mesmo Anna e o Apocalipse representou um considerável afastamento dos dramas distópicos, aglutinando esforços musicais para uma tensa atmosfera. Agora, chegou a hora da Netflix se render a tais delineações, lançando sua mais nova série original intitulada Daybreak.

A produção, em um escopo geral, é coesa o bastante para nos prender até o season finale, aproveitando o espaço que tem para tentar se reinventar a cada episódio. De fato, a gigante do streaming se vale bastante da quebra da quarta parede, uma especificidade bastante utilizada nos últimos anos por diversos realizadores, para mostrar que o anárquico cenário é bem mais descontraído do que poderíamos imaginar: aqui, a trama principal é, a priori, narrada por Josh Wheeler (Colin Ford), um dos sobreviventes da bomba atômica que devastou a cidade de Glendale. Logo de cara, descobrimos que apenas as crianças e os adolescentes conseguiram escapar da tragédia em questão, enquanto os adultos se transformaram em ghoulies – criaturas mentalmente limitadas que se alimentam de carne humana e que não conseguem pronunciar mais que duas sentenças diferentes. Envoltos pelo puro caos, os jovens acabaram de dividindo em facções e retornaram aos princípios primitivos de organização, mergulhados numa constante batalha pela dominância.

Os dois primeiros capítulos da saga movem-se em um ritmo desbalanceado demais para nos cativar – talvez o motivo pelo qual grande parte dos espectadores abandonou a obra em poucos minutos. Na verdade, a conversação metalinguística promovida por Josh apenas revela como ele tem uma personalidade fraca demais para se tornar profundo ou agradável, tangenciando os convencionalismos do “complexo de herói” que a cada sequência se tornam mais óbvios: Josh vive não em função de si mesmo, mas sim em função de resgatar Sam Dean (Sophie Simnett), a garota pela qual se apaixonou no colégio e com quem teve um breve relacionamento (e isso é tão monótono quanto suas motivações e ambições).

A série recupera o ritmo pouco antes de chegar à sua metade, quando a perspectiva das iterações troca de narrador: é possível perceber como o criador Aron Eli Coleite tem apreço pelos múltiplos focos narrativos, deixando claro de forma prática que o apocalipse não influencia exclusivamente um dos personagens, e sim todos. Muito mais que Josh, a quase psicótica Angelica (Alyvia Alyn Lind), uma menina supergênio com uma leve tendência em atear fogo a qualquer coisa que encontre pela frente, toma as rédeas e conta sua versão dos fatos – incluindo o fato de que se sentia constantemente abandonada pelo árduo trabalho da mãe e foi obrigada a amadurecer para não depender de mais ninguém; ao lado dela, temos o ex-valentão Wesley (Austin Crute) que abandonou sua antiga personalidade e se transformou em um ronin em busca de redenção (levando como máxima os filmes de kung-fu pelos quais se apaixonara quando criança).

Se Lind e Crute já nos roubam a atenção com performances envolventes e hilárias em diversos aspectos, é Krysta Rodriguez quem se apropria dos holofotes no papel da Srta. Crumble. A antiga professora da escola de biologia na verdade ganhou esse cruel “apelido” após desabar em sala de aula, vindo a se tornar uma poderosa aliada dos jovens que sobreviveram após se transformar em uma ghoulie. Todavia, diferente dos outros adultos, Crumble é dotada de uma capacidade cognitiva muito superior e, mesmo atormentada por uma patologia esquizofrênica, tem habilidades imprescindíveis (e um tanto quanto perigosas quando confrontadas com sua visceral fome) para ajudar os protagonistas a alcançarem seus respectivos objetivos.

A equipe técnica, por mais que construa sólidos arcos narrativos e reviravoltas estilísticas interessantes e críveis, usa com certos excessos um panorama nostálgico demais. É claro que um toque de familiaridade é sempre bem-vindo mas, quando restrito à necessidade de se conectar de alguma forma com o público, tira um pouco do brilho da produção; é basicamente isso que acontece com a série: além de um protagonista ofuscado por completo pelos outros personagens, o visual antes e depois da detonação da bomba é previsível, bem como a reconciliação de personas separadas, o obrigatório e problemático enlace romântico e a batalha final.

São as competentes performances que permitem o show continuar – e até mesmo os antagonistas carregam consigo uma posição de destaque maior que os supostos “mocinho”: Turbo (Cody Kearsley), lidando com sentimentos conflituosos em relação a Wesley e ao seu controverso desejo de nunca perder, é um tóxico ditador que sofre pela ausência de uma figura paternal em sua vida desde sempre; Michael Burr (Matthew Broderick), por sua vez, é o ex-diretor da escola que desistiu de se importar com as crianças e agora as usa para benefício próprio – e tem uma ânsia mortal de fazer de Glendale um lugar ótimo de novo (uma metáfora óbvia, porém deliciosamente incisiva).

Daybreak pode até ser prosaico quando comparado com outras investidas seriadas e cinematográficas dos últimos anos, mas não podemos deixar de pensar se é essa obstinada nostalgia o motivo da obra conseguir nos envolver. Eventualmente, a nova produção da Netflix é aprazível e divertida, funcionando dentro daquilo que se propõe – ainda que esperemos que o próximo ciclo traga um pouco mais de singularidade.

Daybreak – 1ª Temporada (Idem, EUA – 2019)

Criado por: Aron Eli Coleite
Direção: Michael Patrick Jann, Brad Peyton, Sherwin Shilati, Kate Herron, Mark Tonderai
Roteiro: Aron Eli Coleite, Ira Madison III, Brad Peyton, Brian Ralph, Calaya Michelle Stallworth, Emily Fox, Jenn Kao, Andrew Black
Elenco: Colin Ford, Alyvia Alyn Lind, Sophie Simnett, Austin Crute, Cody Kearsley, Jeanté Godlock, Krysta Rodriguez, Matthew Broderick, Gregory Kasyan
Episódios: 10
Gênero: Drama, Comédia, Ficção Científica
Duração: 50 minutos aprox.