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Em uma perspectiva generalizada, Desperate Housewives parece uma simples série de drama, porém felizmente é muito mais do que podemos lhe dar crédito. Iniciando com uma estrondosa primeira temporada perscrutada de mistérios, traições, intrigas e a boa e velha e comédia, o show criado por Marc Cherry tornou-se um dos vícios do início dos anos 2000 e consagrou-se ao longo dos anos, mesmo com alguns deslizes aqui e ali. E ainda que seu segundo ano tenha dado uma enfraquecida no quesito narrativo, contribuiu para que o público se apaixonasse pelas adoráveis donas de casa – que não se assemelham nada aos estereótipos construídos ao longo das décadas de 1950 e 1960: aqui, cada protagonista é tão complexa que às vezes chega a ser difícil acompanhá-las por meio dos storylines.

Porém mais do que isso, Desperate Housewives mergulha de forma sutil na psique mais sombria do ser humano, mostrando o quão longe alguém está disposto a ir para proteger sua família ou para manter seus segredos escondidos. E com um surpreendente season finale, a terceira temporada realmente insurge como uma das mais aguardadas pelos fãs e talvez uma das melhores de todo o panteão, ainda que os episódios finais mantenham-se em uma zona de conforto excessiva. De qualquer forma, Cherry recupera o brilho de originalidade de sua obra ao adicionar mais camadas tragicômicas – e personagens apaixonantemente odiáveis por diversas razões.

Para aqueles que não se recordam, Mike (James Denton) havia sido atropelado logo antes de encontrar Susan (Teri Hatcher) e pedi-la em casamento. Com o impacto, ele entrou em um profundo coma que durou seis meses e que, apesar de ter destroçado o coração de nossa querida protagonista, ela ficou cuidando dele todo esse tempo, crente de que, no momento em que acordasse, tudo voltaria ao normal. Entretanto, não é exatamente isso o que acontece: Susan acaba aceitando, a partir de um diagnóstico feito pelos médicos, que seu amor verdadeiro infelizmente não vai acordar. Logo, ela acaba criando laços de amizade que logo se transformam em algo a mais com o charmoso Ian Hainsworth (Dougray Scott), cuja esposa também está em coma – e justo quando as coisas começam a funcionar de novo, Mike acorda e é recepcionado por ninguém menos que a femme fatale Edie (Nicollette Sheridan).

E é óbvio que as coisas ficariam ainda mais complicadas: Edie aproveita uma brecha muito bem colocada no roteiro em que Mike, pelo qual também tinha desejos, perdeu a memória. Ela fala poucas e boas de Susan, chamando-a de mentirosa, e acaba cultivando um sentimento de desgosto dentro dela pela mulher que iria pedir em casamento. E é aí que não podemos deixar de ficar magoados com a situação e com um ódio crescente de Edie – mas nada que um futuro carma não ponha um fim nessa palhaçada toda.

O núcleo narrativo, porém, não é o único a roubar o foco: a história torna-se ainda mais complexa quando descobrimos que Orson (Kyle MacLachlan) foi quem atropelou Mike, colocando-o numa desgastante situação e aproveitando sua chegada a Wisteria Lane para conquistar Bree (Marcia Cross), que acabou de perder o marido, descobriu que atual namorado foi o responsável por destruir sua vida e mandou o filho para fora de casa, abandonando-o no meio da estrada. A priori, ele surge para aliviar um pouco do peso, mas seu tenebroso passado o impede de manter as coisas ocultas por tanto tempo.

Cherry e seu incrível time sempre tiveram a capacidade aplaudível de criar personagens cujos arcos são mais imprevisíveis do que podemos imaginar. Com Orson, isso não seria diferente: sua personalidade eloquente, seu cotidiano metódico como dentista e seu amor devoto por Bree na verdade funcionam como fachada para um trágico que envolveu sua amante, Monique Pollier, e sua impiedosa mãe, Gloria (Dixie Carter). A pegada aqui é extremamente tensa e, conforme descobrimos mais a fundo as sórdidas intenções de cada personagem, o escopo fica cada vez mais obscuro. É incrível e quase inacreditável acreditar que Wisteria seja palco de tantos plots como este – mas, na verdade, se tomarmos o nome do bairro suburbano, “Wisteria” faz relação com o vocábulo “histeria” (em seu sentido mais doentio possível).

Gabby (Eva Longoria) e Lynette (Felicity Huffman) não ficam atrás nessa miscelânea criativa. Gabby e Carlos (Ricardo Chavira) eventualmente se divorciam e, ainda que tentem permanecer amigos, a longa história que tiveram insiste em vir à tona. Enquanto isso, é Lynette quem rouba a nossa atenção apenas com suas falas ácidas e irônicas: ela talvez seja uma das mulheres mais fortes e complexas a habitarem o mundo televisivo e, na terceira temporada, protagoniza um arco de amadurecimento incrível: além de desistir de seu emprego como publicitária e entrar para a pizzaria que seu marido, Tom (Doug Savant), abriu, ela constantemente se vê lutando por poder, mesmo que isso coloque obstáculos no meio de seu casamento: Lynette encontra um modo de escape e vê isso se esvaindo como água por seus dedos – e logo depois deixa-se levar em uma das cenas mais comoventes de toda a série, a qual mostra sua resiliência ao mostrar vulnerabilidade.

A grande sacada da série é definitivamente não se deixar levar pelos convencionalismos do gênero. Cherry em nenhum momento faz questão de poupar sacrifícios em prol de cativar seu público, nem mesmo de inserir subtramas que nos levam para um lugar e, logo quando estávamos acostumados, mudam bruscamente de direção. A terceira temporada tem terreno fértil para desenterrar diversos segredos e adicionar temas complicados para serem tratados na televisão – incluindo as menções à pedofilia que nos remetem de imediato às inúmeras crianças que vivem naquela região dos subúrbios.

Entretanto, em meio a tantos acertos, a narrativa desanda nos episódios finais quando acrescenta algumas doses a mais de melodrama e transforma a série em uma pura novela. Seja com a relação aprofundada entre Carlos e Edie, seja com o vai-e-vem de Mike e Ian na vida de Susan, os últimos capítulos se arrastam até culminarem em mais um inesperado cliffhanger que nos prepara (ou não) para o próximo ano.

A mais nova entrada de Desperate Housewives felizmente é mais cuidadosa com o simples universo que criou, cuidando para que eventuais falhas sejam lapidadas. E mesmo com os obstáculos enfrentados pelo showrunner no tocante à conclusão da jornada dessas heroínas suburbanas, os pontos positivos falam bem mais alto e reiteram nossa crescente e contínua paixão por essa série.

Desperate Housewives – 3ª Temporada (Idem, EUA – 2006)

Criado por: Marc Cherry
Direção: Charles McDougall, Larry Shaw, Arlene Sanford, Jeff Melman, Fred Gerber, John David Coles, David Grossman
Roteiro: Marc Cherry, Oliver Goldstick, Tom Spezialy, Alexandra Cunningham, Tracey Stern, John Pardee, Kevin Murphy, Jenna Bans, Patty Lin, David Schulner, Chris Black, Bob Daily
Elenco: Teri Hatcher, Marcia Cross, Eva Longoria, Felicity Huffman, Brenda Young, Nicollette Sheridan, Kyle MacLachlan, Doug Savant, Ricardo Chavira, Andrea Bowen,  Dougray Scott
Emissora: ABC
Episódios: 23
Gênero: Drama, Comédia, Mistério
Duração: 45 min. aprox.

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