Em 2004, o mundo abria as portas para uma pequena vizinhança localizada no fictício bairro de Fairview: Wisteria Lane. E oito anos depois de desvendar os segredos mais obscuros e conhecer pessoas muito mais conturbadas do que poderíamos imaginar, Marc Cherry nos convida para uma última volta com a oitava e conclusiva temporada de um dos dramas mais quentes da ABC – e que certamente vai deixar saudades. Como é de se esperar, Cherry, que já nos chocou diversas vezes com arcos narrativos surpreendentes, não pensa duas vezes antes de se valer de todos os artifícios narrativos já utilizados para nos entregar mais uma iteração competente, sedutora e que certamente nos fará chorar em diversos momentos.

No season finale passado, o público se aventurou na cobertura do assassinato de Alejandro Perez (Tony Plana), que tentou abusar novamente de sua enteada Gabby (Eva Longoria) e foi impedido com o golpe que Carlos (Ricardo Chavira) lhe desferiu na cabeça. E, levando em conta que o homicídio culposo foi realizado numa festiva celebração, nossas protagonistas esperaram o tempo certo para retirar o corpo do formoso casarão e levá-lo para ser enterrado no meio de uma densa floresta. Mas, diferente do que podiam imaginar, as nossas queridas donas de casa não esperavam que as consequências de tal crime insurgiriam com força descomunal a ponto de separá-las de uma vez por todas.

Como sempre, Bree (Marcia Cross) ficou responsável pelo condenável plano e garantiu que nenhuma delas abriria a boca quanto a esse novo segredo que compartilhavam – mas as promessas são muito mais fáceis quando permanecem na teoria. Não demora muito até que Susan (Teri Hatcher) e Lynette (Felicity Huffman) comecem a ceder a uma necessidade incontestável de contar o que aconteceu, ainda que sejam repreendidas pelas outras. As coisas saem ainda mais do controle quando Bree termina o relacionamento com o detetive Chuck Vance (Jonathan Cake), desencadeando uma complicada negação de que foi chutado e levando-o a arquitetar um plano de vingança cujo principal objetivo é fazer da vida de sua ex-namorada um inferno.

Após ser abandonada por suas amigas e render-se aos “pecados da carne” que outrora tanto abominava, ela acaba se reunindo com o ex-marido Orson (Kyle MacLachlan) que a salva de uma possível tentativa de estupro e a leva para casa – onde também constrói um terrível plano. De fato, Bree termina a temporada no auge de sua carreira, tornando-se vereadora da câmara republicana dos Estados Unidos, mas descobre ao longo do caminho que não as pessoas em que confiava na verdade são tão podres quanto aquelas que lhe passaram a perna. Não é surpresa que o tour-de-force de Bree Hodge seja uma das principais tramas que move a iteração, encontrando espaço o suficiente para explorar temas como rancor e perdão – preconizando a volta da amizade das quatro personagens principais.

Ainda que a persona de Cross ganhe foco relativamente maior, Cherry e seu incrível time criativo não se esquece das outras mulheres de Wisteria Lane, fornecendo a cada uma delas um caminho diferenciado até as amarras finais. Gabby continua lidando com o fantasma de Alejandro e com o fato de seu marido estar enlouquecendo pela culpa que carrega; Lynette volta a enfrentar o ciúme descontrolado de Tom (Doug Savant) em continuar sua carreira como publicitária; e Susan, apesar de ter retornado para seu lar após recuperar dinheiro o suficiente, demonstra desde o princípio que algo está um pouco fora do comum – e talvez o fato de Mike (James Denton) ter se envolvido com perigosos nomes da máfia local tenha algo a ver com isso.

Cherry não se preocupa em fazer os sacrifícios necessários para dar continuidade ao último respiro de sua obra, e isso talvez seja pelo fato da vida não ser um conto de fadas cujo final é feliz. Susan observa impotente Mike deixá-la, sendo assassinado na frente de sua casa, e logo depois toma a decisão de viver com sua filha Julie (Andrea Bowen) em Nova York, onde poderá cuidar do neto recém-nascido. E, conforme adentramos na microtrama de Renée (Vanessa Williams), na qual celebra seu casamento, uma outra personagem também dá adeus a seus amigos e parte desta para uma melhor. São essas pequenas sutilezas narrativas e minuciosamente elaboradas que adicionam uma complexidade deliciosa e diabólica ao seriado – e que será uma das coisas que mais sentiremos falta.

Desperate Housewives passou por poucas e boas em seus oito anos de existência, e conseguiu arquitetar um último ano aprazível e nostálgico o suficiente para nos deixar com um gostinho de quero mais. Claro, Wisteria Lane sempre estará lá para aqueles que quiserem encontra-la; e, como Brenda Young lindamente narrou nesta imensa aventura, nunca se sabe quem poderemos encontrar em nossa próxima visita.

Desperate Housewives – 8ª Temporada (Idem, EUA – 2011)

Criado por: Marc Cherry
Direção: Charles McDougall, Larry Shaw, Arlene Sanford, Jeff Melman, Fred Gerber, John David Coles, David Grossman
Roteiro: Marc Cherry, Oliver Goldstick, Tom Spezialy, Alexandra Cunningham, Tracey Stern, John Pardee, Kevin Murphy, Jenna Bans, Patty Lin, David Schulner, Chris Black, Bob Daily
Elenco: Teri Hatcher, Marcia Cross, Eva Longoria, Felicity Huffman, Brenda Young, Doug Savant, Ricardo Chavira, Andrea Bowen, James Denton, Kathryn Joosten, Vanessa Williams, Kyle MacLachlan, Jonathan Cake
Emissora: ABC
Episódios: 23
Gênero: Drama, Comédia, Mistério
Duração: 45 min. aprox.