Para os cinéfilos de plantão, Janelle Monáe é conhecida por participar de dramas como Moonlight: Sob a Luz do LuarEstrelas Além do Tempo. Entretanto, a atriz também possui um background considerável na esfera fonográfica, sendo detentora de uma breve, porém extremamente aclamada discografia que começou ainda em 2010. E cinco anos depois do lançamento de seu último álbum, The Electric Lady, Monáe retorna com mais uma obra-prima que une em um mesmo escopo popfunksoulR&B e tantos outros gêneros que se mesclam e são guiados pela marcante e oscilatória voz da mezzosoprano. Não é surpresa que sua nova investida tenha sido recebida com aceitação imediata da crítica e do público: afinal, este é, favoritismos de lado, a melhor produção musical do ano passado.

Dirty Computer, como ficou conhecida a entrada em questão, não é apenas um CD; é, antes de tudo, um ato político e conceitual que se constrói sem remorso com diversas críticas sociais (e alguns tapas na cara). Monáe explora com toda sua carga artística temas como sexualidade, racismo e autoaceitação, deflagrados em catorze faixas que começam e terminam em um piscar de olhos. Ao reclamar para si a importância histórica do R&B e de gêneros e suis-generissemelhantes, a cantora revela a influência que Prince teve em sua insurgência como artista – e mostra, sem qualquer presunção, que está pronta para carregar um título que lhe pertence por direito.

O álbum abre com a breve e melódica faixa epônima, realizada ao lado de Brian Wilson, e já dá uma pista do que podemos esperar: uma nostálgica jornada em meio a construções de solilóquio declamatório, uma ou outra delineação amorosa e diálogos tão ácidos que farão os ouvintes se arrepiarem com tamanha ousadia. Não é surpresa que os graves vocais da lead singer sejam acompanhados por um coro afro-americano muito bem utilizado e um baixo sintético que preconiza a bateria elétrica de modo perfeito. Essa preparação se concretiza com a chegada de “Crazy, Classic, Life”, segunda faixa que já abre com o potente discurso de Martin Luther King Jr. antes de divagar acerca do controverso sonho americano.

A base dessa arquitetura passa longe de quaisquer fórmulas que tenhamos visto na indústria fonográfica. A exceções, na verdade, são referências claras e muito bem-vindas que se contentam com seu espaço emulativo, felizmente não tomando conta da liberdade expressiva de Janelle. Com isso, a artista parece criar uma tese de representatividade e empoderamento que vai para além de rótulos, e que não pensa duas vezes em ser bastante clara quanto à mensagem: versos como “jovem, negra, selvagem e livre”, da música supracitada, e “nós vamos começar uma revolta da vagina” (da belíssima e elucidativa “Django Jane”) são bastante comuns e, se acabam por chocar os fãs, então alcançam seu objetivo com esplendoroso sucesso.

Mesmo nas faixas mais animadas, o álbum não abre mão de sua identidade. Monáe se reencontra com o neo-soul em “Screwed”, numa parceria incrivelmente harmonizada ao lado de Zoë Kravitz que é liderada pelas enérgicas notas da guitarra, e com o que considero ser a melhor canção da obra: “Make Me Feel”. Podemos pensar que aqui, o fusion e o pop minimalista fale mais alto, mas a utilização híbrida de diversos instrumentos impede que a iteração se restrinja a gêneros específicos e caminhe para uma épica e dançante rendição que explode e recua nos momentos certos. E mais: de forma alusiva e diabolicamente sedutora, a singeraproveita o espaço para declamar sobre sua bissexualidade do modo mais divertido possível.

Janelle também opta por acrescentar elementos de suas raízes africanas com “I Got That Juice”. O prólogo já revela sua clara descendência e, junto com batuques envolventes, fala abertamente sobre sexo com metáforas originais e hilárias que não se perdem em saturações ou algo do tipo. Logo depois, somos apresentados a uma belíssima balada desconstruída movida pelo melhor do R&B“I Like That” explora as atenuações e alcances de Monáe e nutre de certas referências de outra grande obra-prima (Lemonade, de Beyoncé).

As inspirações se expandem também para outras tracks, como “Stevie’s Dream”, que automaticamente puxa certos elementos sonoros da banda Eagles. Porém, com habilidade notável e invejável, a cantora não deixa que o breve interlúdio se renda às ruínas do simulacro, mas presta homenagem a Stevie Wonder antes de se deixar levar pelo proposital tom dark do baixo em “So Afraid”, na qual seus medos e inseguranças são revestidos com um prospecto de esperança antes de culminar na epopeica conclusão “Americans” – retomando até mesmo o coro da primeira faixa e dando vida a uma circular narrativa.

Janelle Monáe retorna à sua conhecida excelência musical com um terceiro álbum de estúdio simplesmente perfeito. Dirty Computer é uma ode ao seu próprio cotidiano e também serve como um aplaudível discurso militante que, certamente, servirá de inspiração para seus conterrâneos e para produções futuras (ou assim esperamos).

Nota por faixa:

  • Dirty Computer (feat. Brian Wilson) – 4,5/5
  • Crazy, Classic, Life – 5/5
  • Take a Byte – 5/5
  • Jane’s Dream – 5/5
  • Screwed (feat. Zoë Kravitz) – 5/5
  • Django Jane – 4,5/5
  • Pynk (feat. Grimes) – 4,5/5
  • Make Me Feel – 5/5
  • I Got the Juice (feat. Pharrell Williams) – 5/5
  • I Like That – 4,5/5
  • Don’t Judge Me – 5/5
  • Stevie’s Dream – 4,5/5
  • So Afraid – 4,5/5
  • Americans – 5/5

Dirty Computer (Idem, EUA – 2018)

Label: Wondaland, Bad Boy, Republic
Lead: Janelle Monáe
Composição: Janelle Monáe, Nathaneal Irvin III, Charles Joseph II, Benjamin Hudson, Mcildowie, Rico Wade, Patrick L. Brown, Ray Murray
Gênero: R&B, Neo-soul, Pop, Hip-Hop, Funk
Faixas: 14
Duração: 49 min.