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Crítica | Dois Irmãos

O carioca Luiz Fernando Carvalho tinha em mente um projeto artístico intitulado Quadrante. Esse projeto constituía do diretor adaptar- ao seu próprio estilo – quatro obras importantes da literatura brasileira. As primeiras séries que saíram do projeto foram A Pedra do Reino, adaptado da obra de Ariano Suassuna e Capitu, baseado em Dom Casmurro de Machado de Assis. Quando destaquei que Carvalho adaptava essas obras a sua maneira, não foi por acaso, pois o diretor tem um estilo muito forte ao qual há um mistura de pinturas barrocas, teatralidade e poesia lírica. Hoje é Dia de Maria, Afinal o Que Querem as Mulheres?, Suburbia e Lavoura Arcaica deixam bem claro o estilo estético do diretor ao contar essas histórias, que não são nada convencionais. Nem todos podem comprar o estilo de Carvalho, mas particularmente tenho encantamento pelo trabalho do diretor e a sua nova minissérie Dois Irmãos mostra que Luiz Fernando Carvalho é um artista autêntico.

Baseado no excelente livro de Milton Hatoum, os dois irmãos do titulo são os gêmeos Yaqub e Omar (Lorenzo Enrique/Matheus Abreu/Cauã Reymond), filhos de um casal de imigrantes libaneses que vivem em Manaus, na primeira metade do século XX. O que começa como uma rivalidade entre os gêmeos vai se tornando e um história de ódio, como se fossem Caim e Abel. Esse ódio vem crescendo por conta do amor incondicional e os mimos que a mãe, Zana (Gabriella Mustafá/Juliana Paes/Eliane Gardini), dá a Omar, que vai se tornando cada vez mais autodestrutivo, e do pouca intimidade do pai, Halim (Bruno Anacleto/Antonio Calloni/Antonio Fagundes), com os filhos. Os anos vão se passando e pouco a pouco vemos essa família se destruir por conta dos sentimentos dos seus membros.

Zana (Juliana Paes) mostrando o seu amor doentio pelo filho Omar.

O livro de Hatoum não tem uma narrativa muito fácil de adaptar, pois a linguagem dada por Nael (Irandhir Santos) é muito sutil, que fala mais do sentimentos dos personagens do que realmente da descrição física do que está acontecendo. Mas o que a roteirista Maria Camargo faz junto com Carvalho não é uma adaptação, no sentido literal da palavra. Como há um uso muito de grande offs durante as ações, fica a sensação que realmente estamos lendo um livro e que o diretor usa as imagens para ilustrar de maneira física o local, mas principalmente os sentimentos descritos do próprio narrador. O tom de voz dado por Irandhir Santos se mostra perfeito para o sentimento principal dessa história: melancolia. Além de usar de maneira muito inteligente linhas do livro durante as narrações. Carvalho usa essa estratégia em seus trabalhos baseados em obras literárias e o resultado fica impressionante, pois faz que o espectador tenha uma imersão maior do universo apresentado.

Outra característica do diretor que se mantém em Dois Irmãos é a alta qualidade do trabalho de seu elenco. Todos os atores cumprem muito bem os seus papeis e a maioria consegue criar várias dimensões para os personagens. Assim como em Moonlight, em que três atores vivem o mesmo personagem em épocas diferentes, há uma forte coerência na composição corporal dos atores. Em todas as fases de Zana vemos o mesmo tipo de sorriso e olhar, que falam muito sobre a personagem e até o tom de voz é muito parecido. O mesmo pode se dizer sobre os três atores que interpretam Halim, o espectador percebe que é o personagem por conta da composição dos atores. Antonio Calloni faz mais um trabalho muito competente como o jovem Halim, mostrando uma pessoa muito viva, mas que vai se tornando mais distante a cada momento e o veterano Antonio Fagundes dá o seu melhor trabalho em anos. Todos sabem a qualidade de Fagundes como ator, mas os seus últimos trabalhos foram muito repetitivos. Ele cria um Halim amargurado, que sente que poderia ter feito mais por sua família e o espectador vai criando uma relação forte pelo personagem.

Antonio Fagundes em seu melhor trabalho em anos.

Já Zana é a personagem que mais sofre durante a série, por conta do amor a Omar e da exigência a Yaqub, que só aumenta o ódio entre os dois. Eliane Giardini faz um bom trabalho na fase final, mas parece que é uma atuação narcisista. Há um excesso de gritos, gestos, caras e bocas, que não funcionam no momento mais forte da personagem. Nesse quesito Juliana Paes se sai melhor, por fazer uma atuação mais contida e que acaba criando nuances para Zana. Inclusive é um dos melhores trabalhos da carreira da atriz, que sempre achei esforçada, mas nunca teve um papel que realmente exigisse dela.

Mas o grande destaque na série é o trabalho de Cauã Reymond que está maravilhoso como os gêmeos. O caso do ator é o mesmo de Paes: esforçado, mas nunca me convenceu como ator. Em Dois Irmãos, ele se entregou de corpo e alma para Carvalho. A construção de Yaqub e Omar é muito bem feita. Já falei da coerência entre a composição física que cada ator tem para cada personagem, Reymond é que mais se destaca nesse quesito. Omar e Yaqub são opostos em tudo e ator usa isso ao seu favor. Enquanto o primeiro é bêbado, irritado, autodestrutivo e descuidado, o segundo é calmo, calculista, educado e com uma postura digna de um cavalheiro. As cenas em que foca na destruição física de Omar e que Yaqub demonstra todo o ódio que tem pelo irmão apena pelo olhar são fantásticas. Destaque para a última cena de Omar que é de arrepiar. É o trabalho mais completo da carreira de Cauã Reymond, que merece todos os elogios que está recebendo pela série.

O destrutivo Omar.

A direção de Luiz Fernando Carvalho está muito contida. As características do diretor estão presentes na série: a fotografia barroca; os cortes rápidos; ângulos estranhos; estilos de atuação mais teatral, etc… Mas de maneira mais contida que outros trabalhos, porque o texto não exige desses vícios do diretor. Ele dá um tom mais operático para a narrativa que deixa a sensação que estamos vendo uma tragédia se desenrolando e que ela ocorrerá de uma maneira que irá acabar com aquela família. Além do trabalho do elenco, Carvalho continua mostrando um bom senso estético, pois a série é muito bem filmada. Os planos são muito bem compostos e os movimentos de câmera são muito delicados, mas diria que é um dos trabalhos menos inspirados no sentido visual. Capitu, Hoje é Dia de Maria e até o insuportável Afinal o Que Querem as Mulheres? eram visualmente impressionantes, mostrando que o diretor tinha um conteúdo artístico muito forte, já não senti isso vendo Dois Irmãos. As cenas dentro da casa da família ficam repetitivas depois de um tempo com os mesmos movimentos de câmera e há um uso excessivo de flares (as luzes que batem diretamente na lente da câmera).

Infelizmente, não são os únicos defeitos da série. Durante a primeira fase, os atores falam com um sotaque árabe carregado e misturado com o regional, que acaba dificultando a compreensão dos diálogos. Isso ocorre nos primeiros episódios e atrapalha bastante o compreendimento em algumas cenas importantes. Outro problema está nos vizinhos da família, que eram pra ser o alívio cômico, mas acabam não funcionando por ser uma trama tão densa. Eles parecem ter vindo de outra série, inclusive no próprio visual. E a última reclamação é a escolha de Irandhir Santos como Nael. Se fosse apenas como o narrador seria compreensível, mas o pernambucano vive o personagem durante a primeira fase e mostra que é velho demais para o papel durante esse período. Há uma suspeita que ele seja filho de um dos irmãos e Santos consegue enganar no máximo como um irmão mais velho, já que visivelmente ele é mais velho que Cauã Reymond. Não que ele esteja ruim, ele interpreta muito bem os olhos e o tom para que encontrou para o narrador é ótimo, mas é um erro de casting que incomoda em certos momentos.

Por mais que a série tenha esses defeitos, Dois Irmãos valeu a espera. Embora ela aparenta ser lenta no início se conclui com primor, pois os dois últimos episódios são excelentes. O saldo final da série é positivo, por conta do ótimo texto e das ótimas atuações. É mais uma prova do grande talento de Luiz Fernando Carvalho, que sempre espero com ansiedade seu próximo trabalho.

Dois Irmãos (Idem, Brasil – 2015)
Direção: Luiz Fernando Carvalho

Roteiro: Maria Camargo
Elenco: Cauã Reymmond, Antonio Fagundes, Antonio Calloni, Juliana Paes, Eliane Giardini e Irandhir Santos.
Gênero: Drama

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Publicado por João Pedro Gibran

Formado em Rádio e TV e cinéfilo doente. Esse ser sonha em trabalhar com cena um dia. Tem Martin Scorsese e Akira Kurosawa como Deuses.

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