Dora, a Aventureira é uma famosa série do canal Nickelodeon que não apenas tornou-se uma das favoritas do público infantil, mas também ganhou reconhecimento por sua didática forma de ensinar as crianças a se relacionar com as outras pessoas – e a sair de sua bolha social. Na verdade, a produção introduziu uma das primeiras personagens latinas da televisão e aproveitou a constantemente expansiva e antológica narrativa da protagonista-titular para criar diversas empreitadas. Mas o que acontece quando se resolve colocá-la numa versão live-action para o cinema?

Bom, sabemos que o diretor James Bobin não tem uma filmografia tão extensa – e sua última investida cinematográfica, Alice Através do Espelho, foi um fracasso completo. Logo, pegar para si um material essencialmente ingênuo e inocente e transformá-lo em uma competente jornada coming-of-age não seria um trabalho fácil. Felizmente, o resultado final é surpreendente e, salvo alguns excessos escalafobéticos aqui e ali, Dora e a Cidade Perdida tem grandes chances de encantar não apenas seu público-alvo, mas também a parcela mais adulta devido ao seu mítico charme e às constantes quebras de expectativa.

A história gira em torno da personagem homônima, interpretada aqui por Isabela Merced (anteriormente conhecida como Isabela Moner). Dora é uma jovem garota com grande espírito aventureiro que nunca teve contato com a cidade grande, morando com seus pais no meio da selva peruana. Quando criança, Dora e seu primo Diego (Jeff Wahlberg) imaginam as mais insanas brincadeiras na floresta e juram nunca mais se afastar; porém, as coisas mudam quando Diego tem que voltar para sua casa, deixando-a sozinha. Mas Dora não permanece “abandonada” por muito tempo, visto que é mandada para estudar em Los Angeles dez anos depois, percebendo um pouco tarde demais que seu primo e as pessoas daquele exacerbado cenário urbano são muito diferentes do que imaginava – ou do que conhecia.

Se a nossa heroína se apresenta como puramente ingênua, então ela está vendendo bem o que deseja: na verdade, é-nos mostrado pouco depois que, apesar de Dora estar inserida numa bolha de empatia constante e respeito por toda e qualquer pessoa, ela é inteligente, sagaz e dotada de uma capacidade para enfrentar perigos como ninguém. Não é surpresa que ela esteja sendo perseguida por caçadores de recompensas e descobre que seus pais, em uma viagem para descobrir a lendária civilização de Parapata, estão em grande perigo. O resultado é certeiro e propositalmente previsível desde o começo: cabe à jovem sair em uma missão de resgate para garantir que ninguém se machuque e que o mapa para a cidade perdida não caia nas mãos erradas.

Logo de cara, percebe-se o apreço de Bobin em mergulhar numa zona de conforto que basicamente não exige muito de suas habilidades fílmicas; a obra passa longe de ser uma construção amadora ou panfletária, mas nos passa uma fluida sensação evolutiva, que se inicia numa atmosfera branda e caminha para os sombrios perigos que se escondem nas florestas sul-americanas. Como estamos lidando com uma narrativa destinada a um olhar pueril, é de se esperar que o diretor e sua equipe criativa se valha de algumas redundâncias, incluindo uma fotografia mais saturada nos momentos de epifania, enquanto rende-se à presença da escuridão ou da névoa em situações complicadas. Porém, nenhum desses premeditados artifícios pesa no resultado final, visto que cada uma de suas partes bem pensadas contribuem para um todo orgânico e relativamente ousado dentro de suas limitações.

Ao longa dessa jornada, Dora é acompanhada de “fiéis” amigos – incluindo um incrédulo e irritante Diego – e um antigo colaborador de seus pais, Alejandro (Eugenio Derbez), que consegue resgatá-los das mãos dos vilões e promete ajudá-los. Eventualmente (mas não tão previsível assim), Alejandro insurge como principal elemento da reviravolta do roteiro, fingindo ser um aliado quando, na verdade, buscava apenas alguém singelo o bastante para não duvidar de sua boa índole; aqui, percebemos o amadurecimento de Dora ao perceber que foi enganada e que pode ter colocado tudo a perder.

Em momentos pontuais, a produção se dispersa em inexplicáveis e desnecessárias investidas cênicas: no primeiro ato, as menções ao didatismo e à metalinguagem da série animada são engraçadas, ainda mais por representarem um reflexo da mentalidade da protagonista. Porém, essas alusões repetem-se numa constância cansativa, drenando o envolvimento do público com a história em prol de talvez encantar uma pequena parte da audiência com suas mirabolantes encenações. A estruturação principal, todavia, não fica prejudicada com tal fragmentação, mantendo-se sólida durante a introdução e a conclusão – e até mesmo o divertido casal formado por Eva Longoria e Michael Peña trazem momentos de descontração para as telonas com diálogos inesperados e cômicos.

Dora e a Cidade Perdida é o que podemos chamar de comodismo cinematográfico, mas não no sentido negativo da palavra: o filme nos transmite uma sensação de completude e divertimento deliciosamente construídos e remexem numa saudosa infância. No final das contas, Merced é quem acaba nos roubando mais a atenção devido ao seu charme e à sua performance impecável como uma das exploradoras mais famosas do mundo.

Dora e a Cidade Perdida (Dora and the Lost City of Gold – EUA, 2019)

Direção: James Bobin
Roteiro: Matthew Robinson, Nicholas Stoller
Elenco: Isabela Merced, Benicio Del Toro, Eva Longoria, Michael Peña, Joey Vieira, Pia Miller, Jeff Wahlberg, Adriana Barraza, Eugenio Derbez
Duração: 102 min.