Spoilers!

Novamente, mais um episódio é marcado por uma polêmica. Mas mais uma vez testemunhamos outra parte fantástica de Game of Thrones. Está difícil conter a ansiedade para a parte final desta temporada.

Esta penúltima parte marca o retorno de um querido diretor do seriado: Alan Taylor. E a diferença da condução do episódio é bastante perceptível. A começar pelo plano inicial, um travelling sobre a mesa com o formato de Westeros na sala de estratégias de Pedra do Dragão. Enquanto vaga rumo ao Norte do mapa, corta para o núcleo de Jon Snow e companhia Além da Muralha. A mensagem é clara: o destino daquele mundo depende do sucesso da missão de Jon em capturar um zumbi dos Outros.

Tornando a jornada épica, Taylor opta por planos abertos enormes e majestosos garantindo não somente muito valor de produção pelas belas paisagens, mas também inserindo a vulnerabilidade do grupo diante a natureza. Os Outros são uma representação um tanto extrema da natureza que castiga os homens, logo, a escolha de preservar uma característica linguística vinda do western é mais que bem-vinda.

Vemos que o diretor é muito mais interessado em simbologias do que os outros colegas dessa temporada, além de garantir maior senso cinematográfico até então. Cada cena é um novo festival de mestre de Taylor mostrando como o aprendizado garantido pelos últimos filmes em Hollywood foi valioso.

Sabendo que o final do episódio é muito denso e dramático, começamos Beyond the Wall em tom leve e muitas vezes cômico. Diversos diálogos ásperos e ácidos surgem com Gendry (que não consegue se misturar no grupo ao reclamar do passado). Porém, os que mais se destacam contam histórias mais criativas. Temos o melhor de todos envolvendo Tormund e Sandor Clegane trocando farpas naquela “gentileza” inerente aos personagens e também conversando sobre Brienne. Outros bons diálogos marcam conversas de Jon com Jorah e Beric Dondarrion.

Mas o diretor e os roteiristas sabem que essa amenidade não pode durar por muito tempo. Na primeira nevasca, há uma grandiosa luta contra um urso polar zumbi que fere Thoros significativamente. O sacerdote do deus do fogo protege Clegane que por sua vez fica completamente petrificado pelo medo das chamas que incendeiam o urso. Não há muita reflexão sobre isso durante o episódio. Os personagens já parecem estar acostumados com os defeitos e virtudes de cada um, sem a necessidade de enrolarem discutindo uns com os outros.

São homens duros e frios preocupados apenas em conquistar o objetivo da missão. Mortes já eram esperadas. A solenidade dos olhares frios e pouco gentis deixam isso claro – Taylor se preocupa em montar esses planos de reação na decupagem. O roteiro também consegue conectar a visão de Clegane na fogueira, como vista no primeiro episódio, com a topografia da locação, mantendo uma coesão para esse arco.

Novamente, demonstra domínio cênico mais apurado, em outro momento importante da jornada, o som é utilizado para guiar os heróis acima de uma pedreira onde estão um pequeno grupo de zumbis liderados por um White Walker. Uma breve emboscada é preparada com Jon conseguindo enfim capturar um zumbi. Pela comoção causada, novamente o som é utilizado para indicar perigo.

É particularmente interessante o uso dos efeitos sonoros para introduzir diferentes sequências. Na primeira, o som acaba virando uma vantagem para Jon conseguir emboscar o grupo de mortos-vivos. Já aqui, o barulho grave que mimetiza uma avalanche marca a iminência de um perigo e força inimagináveis que trucidará o grupo. Mandar Gendry de volta para Atalaialeste para pedir ajuda a Daenerys demonstra maior capacidade de planejamento de Jon, um último sinal de maturidade do personagem nesse episódio. (Mais adiante, no fim do episódio, novamente o som é usado para chamar a atenção dos personagens anunciando o retorno de Jon Snow).

Com todos fugindo dos zumbis e acabando encurralados em uma ilha de pedra de um lago quase congelado impedindo a travessia dos mortos. Com esse arco pausado em um clima de angustia não muito bem ornamentado pelo diretor, os outros núcleos surgem.

O mais rico, sem dúvidas, nesse episódio foi o de Winterfell. Arya finalmente confronta Sansa através de um diálogo bem elaborado relembrando bons momentos com Ned Stark. Trazer de volta a memória honrada do pai para depois chamar Sansa de traidora e covarde é um bom jogo para desestabilizar a irmã.

É também bastante interessante notar a sensibilidade da direção de Alan Taylor para esta cena em particular. Vemos as duas personagens ocupando o lugar do pai na varanda que costumava observar os filhos no primeiro episódio do seriado. Mas o diretor vai além. Ao movimentar as personagens e removê-las do canto sagrado, enquanto a discussão se intensifica, tudo fica bastante interessante.

Sutilmente, Taylor posiciona Sansa em frente a diversas gaiolas ao fundo, totalmente desfocadas. Já Arya fica em frente a alguns corpos de animais abatidos. A simbologia pode passar despercebida pelo teor forte da conversa, mas a imagem reforça o discurso de ambas personagens que remoem o passado. Sansa, que passou boa parte da série completamente aprisionada e indefesa, tem as gaiolas ao fundo. Já Arya, cuja jornada só envolveu sangue, morte e tragédia, tem os bichos abatidos e esfolados ao fundo.

O diretor as faz trocar de posição para finalizar o discurso e mesmo assim a metáfora funciona. Arya conseguiu ferir a irmã com suas ameaças enquanto Sansa passa a pensar em como conter sua irmã. Brilhante. De resto, a evolução do conflito desenrola bem, avançando com o ritmo certo. Mindinho sugere usar Brienne para matar Arya, mas Sansa acaba enviando a guerreira para representa-la em uma reunião com Cersei em Porto Real. Depois, Sansa descobre o ofício de mestre assassina que a irmã porta, utilizando diversas faces, podendo viver todas as vidas que quiser. Esse recurso é novamente bem exposto em um bom diálogo entre Sansa e Arya encaminhando o conflito entre elas para o derradeiro fim.

Em Pedra do Rei, com poucas cenas, temos um breve diálogo com Daenerys e Tyrion no qual o anão a confronta e provoca a todo o momento. Primeiro com a paixão velada de Dany a Jon e depois sobre a necessidade da rainha amadurecer e não agir tão impulsivamente, além de comentar sobre a impossibilidade de Daenerys ter herdeiros de sangue. Obviamente que essa conversa aborrece a rainha. Mas é interessante notar como o episódio é redondo por trazer esses tópicos sobre maternidade e amadurecimento antes do choque do clímax.

Quando o corvo chega, Daenerys parte imediatamente para além da Muralha para salvar Jon e o grupo. Novamente, não escuta os conselhos de Tyrion para não tomar uma atitude tão insana que pode tirar a sua vida. Aqui, é belo ver os dragões despertando e seguindo a mãe para onde quer que ela fosse.

De volta ao núcleo principal, o diretor reconquista a inspiração para encenar grandes momentos. Aqui, Thoros já está morto e a possibilidade de ressurreição de personagens no seriado se encerra. O principal deles marca o início do caos com Clegane atirando pedras a um zumbi em especial. Errando o segundo arremesso, os zumbis e os Outros percebem que o lago está congelado novamente permitindo a travessia.

Então começa toda a sequência de luta, bem progredida até os momentos derradeiros de uma derrota inevitável. Taylor consegue fazer que tudo seja bem pontuado em ritmo correto mesmo que não seja um diretor particularmente excepcional para gravar ação – nessa temporada, Matt Shakman ainda é o melhor.

Com o ápice do perigo, já com alguns personagens secundários sendo trucidados pelos zumbis, novamente temos aquele respiro que tinha comentado na análise do episódio 4 quanto Jaime contempla o caos e a derrota. Aqui é o uso é praticamente o mesmo. Jon observa os esforços dos companheiros enquanto os zumbis avançam até ser surpreendido pela vinda de Dany com os três dragões. Como se trata de algo receita de bolo, impossível o diretor errar nisto. É eficiente e bastante belo que torna a chegada da rainha realmente fenomenal – a trilha musical de Djawadi brilha aqui.

Ao mesmo tempo que Taylor marca o ponto mais alto do episódio, alguns tropeços prejudicam a experiência final. Antes de tudo, gostaria de esclarecer um ponto para os leitores que vem acompanhando as análises dessa temporada. Como disse em diversos episódios, eu gosto da montagem cheia de elipses que pedem mesmo mais da suspensão de descrença do espectador do que anteriormente. É óbvio que nunca o corvo teria chegado de Atalaialeste a Pedra do Dragão em questão de um dia e muito menos Daenerys chegaria a tempo para salvar o grupo, mas, sinceramente, esses elementos não são pertinentes para mim e não chegam a afetar a minha crença na encenação. O senso de urgência é preservado e nós sentimos isso. A experiência de assistir a uma cena enervante como essa é fenomenal assim como o êxtase em ver Dany chegar salvando o grupo.

Eu prefiro mil vezes ver um filme que me propicie emoções e me una com o elemento cinematográfico, mesmo que para isso ele comprometa sua lógica de “deslocamento”. Ou gostariam de ver um filme chato que seja completamente racional? Essas coisas acontecem em obras audiovisuais, são convenções da linguagem. Outro motivo pelo qual não critico essas elipses da 7ª temporada é que se eu fizesse isso, seria um hipócrita completo. Não escrevia análises de Game of Thrones na época, mas eu simplesmente achava um porre o ritmo arrastado da 5ª e 6ª temporadas cheias de episódios com núcleos de viagem insossos.

Justamente o ponto que eu mais criticava foi sanado aqui, mesmo que tenha originado outras arestas estranhas, abandonando coerência, mas potencializando a narrativa e a emoção. Logo, me encontro satisfeito com esses corvos e dragões supersônicos.

Retomando a análise, é sim irritante ver Jon prejudicar todo o grupo por uma imprudência completa acreditando que conseguiria ceifar o Rei da Noite naquele instante. Atrasando a viagem de volta, provê o tempo para que o inimigo mate Viserion.

Eu imaginava que já estava calejado com Game of Thrones, mas como estava enganado. A brutalidade da morte de Viserion me fez tremer, ficar em choque e depois completamente entristecido. É algo inexplicável ainda mais por conta de ser um personagem digital, mas ver aquela catarata de sangue enquanto o dragão perdia toda sua graciosidade enquanto despencava dos ares foi algo que mexeu comigo. Acompanhar o seriado desde 2011, ter visto o nascimento e o crescimento dessas criaturas ao longo de sete anos foi algo especial e isso certamente colaborou para potencializar o choque.

Portanto, a morte do dragão foi uma das mais impactantes até agora para mim. É um tanto desesperador notar que o dragão não conhecia perigos até então, era uma criatura relativamente inocente e mesmo não sendo a favorita de Daenerys, serviu sua mãe até o último instante possível. Essa questão da inocência das criaturas é refletida também pela reação de Drogon que parece não compreender que seu irmão morreu. Até mesmo, posteriormente, na Muralha, ele fica rugindo como se o chamasse de volta. Até então, essas criaturas nunca tinham conhecido dor e sofrimento. A partir disso, fica claro que o verdadeiro nascimento dos dragões, em seus primeiros choros de existência, acontece aqui em Westeros. Tudo isso realmente consegue nos tirar da indiferença.

Aí que está então a graça de assistir a um episódio como esse. Os personagens finalmente percebem que agiram impulsivamente e que foram imaturos e, portanto, foram punidos com a morte de um de seus aliados mais fortes. Jon, ainda assim, percebendo seu erro, tenta redimir se sacrificando para ganhar tempo para Daenerys fugir. Novamente, uma atitude impensada.

Daenerys foge com alguma dificuldade – detalhe para o plano mostrando Drogon alçando voo enquanto diversos zumbis caem no chão pela força do vento gerado pelo bater das asas. Por essa decisão consideravelmente estupida dos roteiristas, ganhamos arestas toscas que não combinam com Game of Thrones.

Jon cai no lago junto com diversos zumbis e ainda assim consegue escapar, mas como está ferido não tem chances de sobreviver. Porém, tio Benjen é usado como deus ex machina novamente para salvar o sobrinho. O reencontro é tão banal e bizarro que trai muito da motivação de Jon em ter partido para além da Muralha no passado. Benjen morre (de novo) e não há o menor impacto emocional nisso.

Rhaegal também desaparece no meio da batalha e não volta a ser visto mesmo na Muralha onde o grupo e Daenerys aguardam pelo retorno improvável de um dragão. Porém, há essa poesia no retorno de Jon. Um Targaryen volta, enquanto Viserion se foi – o filho que foi batizado em memória de seu irmão Viserys, uma perda que marca profundamente Daenerys. Jon volta, mas só é desperto no navio a caminho de Pedra do Dragão. Ele finalmente assume Dany como sua rainha e pede perdão pela imaturidade. Aqui, fica bem claro como o núcleo romântico está consolidado.

E novamente a direção de Taylor faz a diferença. Agora, na verdade, através do escopo bem intimista da decupagem e também pela iluminação muito acertada. Durante a conversa, várias vezes o plano detalhe das mãos dadas dos dois é retomado. O espectador mais atento verá algo muito bacana. A luz que bate na mão de Dany é quente, levemente avermelhada representando o fogo dos Targaryen. Já Jon recebe uma penumbra pouco iluminada, de tons frios azulados – o frio dos Stark e do Inverno. A união mais poderosa de Westeros e uma repetição do amor entre Lyanna e Rhaegar – na versão incestuosa agora.

O episódio termina em outro excelente cliffhanger mesmo que não tenha a menor lógica. É estabelecido pelo próprio seriado que os zumbis não conseguem nadar, mas mesmo assim alguns conseguem amarrar Viserion com correntes gigantes (outro elemento surreal) enquanto ele estava submerso. Não era simplesmente mais fácil encenar a queda de Viserion em qualquer lugar senão outro do que o lago? O impacto emocional ainda seria preservado e não prejudicaria tanto essa lógica do seriado.

Mesmo assim, o acontecimento é importante. O Rei da Noite ressuscita o dragão recém-falecido. Agora Viserion está do lado deles equilibrando consideravelmente os dois lados da vindoura batalha final. Agora é um dragão de gelo. Entenda a importância desse acontecimento aqui!

Falta apenas uma semana para nos despedirmos novamente de Game of Thrones. E mesmo que a temporada tenha acumulado certos problemas de coerência interna, eu não duvido nada que todos ficaremos com saudades. Se esperar apenas uma semana para vermos o final da temporada já é difícil, imagine esperar mais de um ano pelo último retorno de Game of Thrones.

Game of Thrones – 07×06: Beyond the Wall (EUA, 2017)

Criado por: D.B. Weiss e David Benioff, baseado na obra de George R.R. Martin
Direção: Alan Taylor
Roteiro: D.B. Weiss e David Benioff
Elenco: Peter Dinklage, Emilia Clarke, Lena Headey, Nikolaj Coster-Waldau, Sophie Turner, Maisie Williams, Kit Harington, Aidan Gillen, Gwendoline Christie, John Bradley, Jim Broadent, Liam Cunningham, Isaac Hempstead Wright, Nathalie Emmanuel, Conleth Hills, Rory McCann, Pilou Asbæk, Carice Van Houten
Emissora: HBO
Gênero: Aventura, Drama
Duração: 71 min