Fazia tempo em que o sopro da palavra FINALMENTE era compartilhada tão popularmente entre tantos fãs e fiéis espectadores como foi com esse tão ansiado e sonhado retorno do fenômeno que é Game of Thrones para o que é agora sua última temporada, e as expectativas nunca estiveram tão altas e tão sensíveis à dividir opiniões. Bom, escuso dizer que isso já se vinha percorrendo desde a sétima temporada que já havia intensificado o número de críticas reclamatórias para a série e o rumo que a história estava agora tomando e o destino de seus personagens em direção ao seu aguardado final.

Óbvio que então ambos os criadores David Benioff e D.B. Weiss tiveram um bom espaço de tempo de quase dois anos de produção para ouvir as críticas de seus fãs e tentarem construir a base final das Crônicas de Gelo e Fogo no intuito de tentar reunir novamente a esperança com todo o seu público, de que o melhor da série ainda há de chegar agora em sua reta final. Ao mesmo tempo em que tentam fazer o que Game of Thrones sempre fez de melhor, surpreender e distorcer quaisquer expectativas que o espectador possa ter, mesmo que estejam trabalhando agora com as dicas e descrições dadas por George R.R. Martin sobre o destino de cada personagem já que todo o seu material literário já tenha sido utilizado.

Tudo isso já parcialmente dependia do quanto esse primeiro episódio da última temporada viria a agradar os diferentes meios. Por uma perspectiva crítica, temos aqui um dos mais bem produzidos episódios da série (se não o mais, pelo menos por agora), já mostrando de cara o massivo nível de produção que a série conquistou após anos de sucesso e se refletindo no que pode ser nessa temporada o seu maior tamanho em escala até hoje.

Um pequeno espetáculo diga-se de passagem, coisa que o veterano da série, David Nutter, o mesmo responsável por dirigir o casamento vermelho em The Rains of Castamere (03 × 09) e a morte de Jon Snow em Mother’s Mercy (05 × 10) assume o cargo e fica responsável pela maioria dos episódios dessa temporada, e se ele for repetir o mesmo nível dado aqui nos dois episódios que lhe resta, então só temos a aguardar talvez a temporada mais cinematográfica de Game of Thrones. Que mostra assumir de vez essa verdadeira personalidade técnica de um filme, seja no ótimo upgrade que a Intro inicial da série mudou para um mapa mais dinâmico e imersivo do que já tínhamos visto antes por sete anos, ou apenas tome todos os cinco minutos iniciais do episódio como exemplo disso, e que conseguem passar muito bem a sensação de estarmos assistindo à um filme.

A escala, a trilha sonora, a montagem, todos elementos dignos de um blockbuster cinematográfico de altíssimo orçamento. E com Nutter mostrando saber muito bem brincar com a subjetividade do que a câmera mostra e revela em cena, logo na cena inicial mostrando o que a primeira vista parece ser um jovem garoto fugindo nessa aldeia desolada e fria, que logo te faz pensar na possível presença dos mortos à caminho, mas que logo revela o garoto apenas correndo para acompanhar a chegada de um exército em marcha que logo você sabe que são os Imaculados de Daenerys.

Antecipando muito bem a chegada grandiosa dos personagens em cena, com a câmera bem no meio da marcha dos soldados e com a tomada demorando um bom espaço de segundos bem calculados até apresentar Daenerys e Jon com esse ângulo baixo intensificando o efeito de grandeza da chegada de ambo. E antes disso, a introdução sem palavras de outros personagens como Arya no meio da multidão e Sansa na muralha quando os dragões passam voando. Tudo passando a sensação de uma devida reintrodução desse mundo e de seus personagens após tanto tempo de espera, e a curiosidade do garoto sendo a perfeita representação da curiosidade e expectativas do público, e como se fossem também essa última introdução heroica digna para esses personagens tão amados.

Até sobrando espaço para o espetáculo visual como quando vemos o grande vôo com os dragões com Daenerys e Jon, que não só estão mais perfeitos do que nunca visualmente e com um CGI pomposo e credível, como agora a câmera consegue passar muito mais tempo ao lado dos enormes filhos de Daenerys em seus voos épicos, com direito à câmera conseguir acompanhar os voos rasantes por montanhas e lagos, passando a perfeita sensação de estarmos montados nas costas dos dragões juntos dos personagens. Uma escala digna de Senhor dos Anéis novamente cobrindo a televisão. Algo que só deixa a antecipação para a grande batalha(s) porvir aumentar ainda mais. Mas como a Cersei bem diz, é um tanto frustrante saber que não vamos ver os elefantes do exército da Companhia Dourada, talvez fosse chegar a ser O Retorno do Rei demais.

Já em uma perspectiva de público, bom se você já esperava mortes polêmicas, um grande confronto com os caminhantes brancos e seu exército logo de cara, e que largassem de mão e atenção o romance começado entre Daeneryse Jon na temporada passada, então podem ir indo para os seus cantos fazerem os textões revoltosos e os memes zombatórios pois têm-se um aqui um episódio bem “morno”, mas já colocando muita lenha a ser queimada em altas chamas nos próximos episódios (e sim às metáforas com fogo aqui serão inevitáveis).

Mas de certo que os fãs não deveriam ser tão mimados assim ao ponto de vir julgarem o primeiro episódio de uma temporada apenas por não terem recebido nada do que esperavam ou terem visto algo surpreendente e fora do comum. Pois, basicamente tudo que vemos desenrolar em Winterfell (o episódio e local) é estabelecer a fundação desse novo arco da história e criar a antecipação do que ainda está porvir. E podem reclamar de construção e desenvolvimento o quanto quiserem em Game of Thrones, mas até mesmo na sétima temporada vimos um texto sendo bem coeso e os conflitos, embora ligeiros, entregues deforma natural com o decorrer dos episódios. E esse primeiro episódio da oitava temporada não é diferente!

Mesmo que de início comece-se fazendo um belo paralelo com o primeiro episódio da série, com a chegada da figura do rei (Daenerys) e sua corte (Jon, Tyrion, e cia), e sua recepção já indicando uma inevitável tensão e possível criação de conflito entre os aliados, mas não perdendo nenhum tempo em logo trazer a tona o real problema quando Bran corta a troca de indiretas entre Sansa e Daenerys após se conhecerem e avisa sobre a queda da muralha e o avanço do Rei da Noite e seu exército, e todos os acontecimentos que desencadeiam os preparos para a grande batalha.

Levantando também algumas revelações pendentes sobre os personagens que no passado iriam demorar pelo menos três episódios para uma mínima frase ser dita, enquanto aqui já são literalmente jogados na cara, seja tanto a grande revelação à Jon sobre seu sangue Targaryen assim como o destino de outros como de Yara Greyjoy, irmã de Theon, que havia sido capturada por Euron no início da sétima temporada e que não perdem tempo em resgatá-la e fazer suas despedidas rápidas (mas eficiente) com Theon com ele decidido a voltar para Winterfell e ajudar os aliados e honrar esse seu arco de redenção para com os Starks.

No meio disso, ainda encontramos as usuais criações de intrigas que virou marca registrada de Game of Thrones, só substitui-se as intrigas políticas do passado entre os reinos, e criam-se agora intrigas de tensão entre os aliados na grande guerra. Porém coisas que com certeza passam um certo ar de obviedade que tudo irá se resolver no final, mesmo que perdendo um aliado off-screen por covardia e um outro por morte, também off-screen, pelo Rei da Noite, mas tudo tendo que ser agilizado.

Talvez o que mais agrade nesse episódio sejam as tão aguardadas reuniões entre os personagens que não se viam em anos (ou temporadas) e que não desaponta em deixar aquele quentinho no coração ou um possível receio. Seja entre Jon e Arya que desperta um bom apelo emocional entre os dois irmãos, ao mesmo tempo em que sutilmente indicam o lado de Sansa que Arya toma sobre as decisões de Jon jurar lealdade à Daenerys e ter rendido sua coroa de Rei a ela. Ou a entre Sansa e Tyrion que consegue bater um sentimento de nostalgia, ainda mais depois de termos acompanhado todo o sofrimento pelos qual ambos passaram e que agora se mostram em cargos altos, amadurecidos e relativamente mudados. Com Sansa jogando uma fria verdade sobre como Tyrion se revelou um verdadeiro ignorante por ter confiado na palavra de Cersei de que ela mandaria mesmo o exército para auxiliar no Norte.

Como também o reencontro de Arya com “O Cão” Clegane e Gendry, de um lado mantendo esse toque bem agridoce entre o gigante e a jovem, de um lado o Cão escondendo o carinho que sente pela garota com o seu ar sempre charmoso ar de durão frio de sempre, e Arya lutando com a sua raiva ainda latente por ele ao mesmo tempo que sabe que ele lhe salvou a vida mais de uma vez. Enquanto com Gendry você claramente nota uma possível tensão sexual entre os dois velhos “conhecidos”.

Mas nenhum conseguiu nos deixar tão intrigados com o seu potencial “conflito”, e que serviu como um perfeito cliffhanger para o próximo episódio, que foi o reencontro de Jaime e Bran que o pacientemente aguardava na entrada de Winterfell, e que novamente remete um forte paralelo com o primeiro episódio da série onde ambos os personagens se conheceram exatamente no final daquele episódio e que cuja ação de Jaime selou o trágico destino do jovem e de todos os Starks para até então. Você com certeza não vê novela de qualidade narrativa assim como Game of Thrones!

Sem falar de como algumas novas nuances de caracterizações em alguns dos personagens começam a ser reveladas e que já deixam um gostinho de quero mais do que está por vir em seus arcos individuais. Como Bronn recebendo uma proposta de Cersei deque ele estaria encarregado de executar ambos os irmãos Lannister caso eles sobrevivessem e retornassem da guerra no Norte, levantando um forte questionamento sobre onde está a honra dele, nos seus próprios interesses de fortuna e titulo, ou com os dois homens com quem nutriu uma relação de interesses e talvez verdadeira amizade.

Mas principalmente Daenerys, que apesar de suas sempre boas intenções e ideais, está cega pelo poder que tem e que aos poucos está sendo capaz de ver as consequências de seus atos depois da revelação sobre a execução que ela realizou de ambos pai e filho Tarlys e que conta à Sam. Enquanto Jon, mesmo que continue não agradando aos espectadores com esse romance sendo criado entre ele e Daenerys, até essa relação começa a dar indícios de uma potencial intriga a ser criada graças à tão aguardada revelação que Sam já guardava desde a sétima temporada, e de sobra fazendo alguns pontos bem válidos sobre o estado das coisas e dos cargos que Jon e Daenerys estão assumindo agora nessa fase da guerra.

Jon tá longe de sequer poder se chamar de herói perfeito, mas sempre mostrou puxar ao “pai” no quesito honra acima de tudo e de todos, e sacrificou o impensável pelo bem dos outros diversas vezes ao longo da série. Ao ponto de até rapidamente perder a coroa que lhe foi dada de Rei do Norte pensando na salvação de seu povo. Ou como o próprio Sam indaga muito bem, se ele fez isso por amor ao seu povo ou por amor a Daenerys. Não obstante, ele pode mesmo ter rendido para a salvação de todos, mas Sam novamente indaga se Daenerys faria o mesmo.

E de sobra temos John Bradley entregando facilmente o que é a melhor atuação desse episódio. Sua dupla reação para a revelação de Daenerys sobre a morte de seu pai e irmão consegue te deixar sufocado com os mesmos sentimentos mistos que Sam está passando. Por um lado a frustração de ter perdido o pai sem nunca ter conseguido fazer as pazes com ele em vida, e a morte do irmão que amava plenamente e que o fizeram assumir um estado de raiva e revolta que não tínhamos visto antes no personagem.

Sam pode ter dito todas essas palavras com um fronte de raiva e tristeza pelo que Daenerys fez a sua família, mas não deixam de soar como uma fria verdade sobre a situação que os personagens se encontram nesse momento. Qual a legitimidade do cada cargo de cada um, e levantando a inevitável pergunta, qual deles se torna o mais digno de assumir o Trono de Ferro no fim de tudo? E depois então da polêmica revelação sobre a linhagem de sangue Targaryen que Jon carrega, a relação tão “romantizada” entre Jon e Daenerys corre o risco de sofrer uma eventual grave mudança.

Então não, se controlem pois Game of Thrones está longe de ter caído ainda na mesmice clichê e promete ter algumas surpresas guardadas ainda para entregar nessa reta final. Com muita coisa acontecendo e sendo explorada só em cinqüenta minutos de duração, então imagine nos próximos episódios com a durações de um longa metragem e dignas novamente de um verdadeiro evento cinematográfico. Vamos aguardar para ver agora se a história fará jus à esse titulo épico.

Game of Thrones – 08×01: Winterfell (Idem, EUA – 2019)

Criado por: D.B. Weiss e David Benioff, baseado na obra de George R.R. Martin
Direção: David Nutter
Roteiro: Dave Hill
Elenco: Kit Harington, Emilia Clarke, Peter Dinklage, Maisie Williams, Sophie Turner, Lena Headey, Liam Cunningham, John Bradley, Alfie Allen, Isaac Hempstead Wright, Nikolaj Coster-Waldau, Conleth Hill, Rory McCann, Joe Dempsie, Iain Glen, Pilou Asbæk, Richard Dormer, Gemma Whelan, Gwendoline Christie, Nathalie Emmanuel, Jacob Anderson, Daniel Portman
Emissora: HBO
Gênero: Aventura, Drama
Duração: 57 min