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Game of Thrones tornou-se um dos shows mais assistidos e aclamados da história da televisão – e não é à toa. Desde 2011, quando primeiro estreou na HBO, a série baseada nos escritos de George R.R. Martin revolucionou a maneira de romantizar (no sentido mais geral da palavra) narrativas medievais ao mesmo tempo que corroborou com temas tão importantes para a compreensão da sociedade em que vivemos. E é claro que isso não seria possível sem mentes tão brilhantes por trás – frisando, obviamente, os nomes de D.B. Weiss e David Benioff, responsáveis por essa incrível adaptação. Agora, após ter estreado com um linear, porém impactante episódio, a obra caminha para sua épica conclusão, entregando-nos nesta última semana uma pérola mimética que já prenuncia o adeus de Winterfell.

Já começo o texto dizendo que o público não deve esperar, ao menos nesse capítulo, a sanguinolência e a rebeldia próprias de iterações predecessoras. Para compreender e absorver a paixão com a qual a nova temporada foi delineada, precisamos nos recordar de que o oitavo ano é sensivelmente catártico – e tal ideia é refletida com força pelas habilidosas mãos do diretor David Nutter, que não pensa duas vezes antes de colocar sua bagagem artística nesta quase instantânea uma hora. Tanto o público quanto as fortalezas de Winterfell estão se preparando para um fabuloso ultimatum, uma batalha que mudará o curso do universo que conhecemos num piscar de olhos.

Logo, espera-se que A Knight of the Seven Kingdoms forneça algo de obscuro, de angustiante e de chocante para os espectadores, carregando o surpreendente cliffhanger da semana passada. A história, agora, foca em seus determinados núcleos, mas reverencia à incrível química performática de dois personagens: o primeiro deles, Jaime (Nikolaj Coster-Waldau), mergulha num compulsório arco de redenção, enfrentando demônios e fantasmas que o guiaram através dos longos anos de inverno até o ápice de seu perdão. Além de reencontrar Bran (Isaac Hempstead), ele se dirige para a presença de Sansa (Sophie Turner) e de Daenerys (Emilia Clarke), jurando fidelidade e mostrando o quão arrependido está de ter confiado na impiedosa irmã, Cersei (Lena Headey).

Conhecendo a mente de Martin, não podemos acreditar com absoluta certeza em nada do que tais personas dizem. A premissa que os move é esconder uma carta nas mangas – a qual já foi provada de diversas maneiras, desde as mais inesperadas até as mais cruéis. Porém, é praticamente impossível não sentir uma pontada de compaixão pela última tentativa de Jaime em se redimir, em fazer o que é certo. É de se esperar que Daenerys não acredite logo de começo – pelo menos não até a intervenção de Brienne (Gwendoline Christie), que nutre de suas ressalvas, mas deixa bem claro que Jaime é um homem de honra e que inclusive a ajudou a sobreviver.

Aliás, é nesse momento que o entrelace entre os dois personagens ganha uma nova camada. Brienne e Jaime roubam os holofotes em sequências declarativas sutis e mágicas, trazendo à tona momentos emocionantes de vulnerabilidade. Em cada uma das microssequências que protagonizam, a expressão de luta esvaece para dar lugar a uma despedida entre duas construções extremamente complexas. Seja no campo de treinamento aos arredores do castelo, seja à frente da fogueira tomando um último gole de vinho antes de caminharem para a morte. Christie e Coster-Waldau compartilham de uma expressividade de nos tirar o fôlego, dilacerando-nos o coração conforme aceitam o destino que lhes foi escrito.

E mesmo com essas cenas, é uma em específico que resume a jornada da dupla através da série: em uma conversa com os outros cavaleiros de Winterfell, que reúnem-se dentro de uma desconstruída Távola Redonda, por assim dizer, Brienne mantém sua pose enquanto lamenta não poder ser consagrada Cavaleira devido à tradição; em um último ato de bondade e até mesmo de gratidão por tudo o que a guerreira fez a ele, Jaime levanta-se e utiliza sua própria nomenclatura real para transformá-la no que sempre quis, culminando em uma representação de modéstia e felicidade concentrada no sorriso de Brienne – cuja alegoria pode até entrar como reafirmação de sua esperada ruína na batalha contra o Exército da Noite.

A narrativa não é a única a ganhar voz aqui. Como supracitado, Nutter faz bom uso de referências clássicas para cultivar-nos o sentimento de agonia. A crescente impaciência dos espectadores se dá pela proposital lentidão com a qual o episódio se move – e não pense que os últimos diálogos dos nossos queridos personagens principais insurgem para “encher linguiça”. Não há prolixidade envolvida dentro do capítulo, e sim um tratamento humanizador cujo respaldo faz clara alusão à trilogia Senhor dos Anéis, mais precisamente nos momentos que antecedem a memorável batalha do Abismo de Helm. O belo uso da desinência luminosa e a presença de uma canção minimamente reconfortante contribuem para essa sensação perturbadora – e já nos dão o tom dos próximos eventos.

Faz-se necessário dizer que outros personagens também recebem seu momento de glória e abrem margens para subtramas a serem exploradas num futuro bem próximo. Sansa enfrenta Daenerys ao defender o Norte e deixar bem claro que sua família e seu reino não se submeterão a outrem, colocando em xeque o desejo megalômano de Khaleesi em se sentar no Trono de Ferro como a “rainha suprema”; Arya (Maisie Williams) entrega-se para o prazer carnal, resolvendo pensar em si mesma antes de partir para a luta e causando um certo alvoroço nos mais despreparados; e Tyrion (Peter Dinklage) começa a se sentir inutilizado ao perceber que, seguindo as ordens de sua senhora, permanecerá no último lugar que gostaria de ficar: nos bastidores.

Game of Thrones entrega um dos melhores episódio de todo o seu fantástico panteão, unindo em um só lugar diversas investidas estéticas que resultam numa carta de amor e de despedida para os fãs e para si mesma. Agora, o barril de pólvora está prestes a explodir – e é melhor que já nos preparemos para dar adeus a alguns de nossos bravos guerreiros.

Game of Thrones – 08×02: A Knight of the Seven Kingdoms (Idem, EUA – 2019)

Criado por: D.B. Weiss e David Benioff, baseado na obra de George R.R. Martin
Direção: David Nutter
Roteiro: Bryan Cogman
Elenco: Kit Harington, Emilia Clarke, Peter Dinklage, Maisie Williams, Sophie Turner, Lena Headey, Liam Cunningham, John Bradley, Alfie Allen, Isaac Hempstead Wright, Nikolaj Coster-Waldau, Conleth Hill, Rory McCann, Joe Dempsie, Iain Glen, Pilou Asbæk, Richard Dormer, Gemma Whelan, Gwendoline Christie, Nathalie Emmanuel, Jacob Anderson, Daniel Portman
Emissora: HBO
Gênero: Aventura, Drama
Duração: 58 min

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