Depois de um conturbado episódio da semana passada, Game of Thrones percebeu que precisava rapidamente aparar algumas arestas e lapidar diversos problemas técnicos e narrativos – incluindo a crescente sensação novelesca que a oitava temporada nos entregou desde seu princípio. Com exceção do segundo capítulo, que configurou-se como um dos mais singelos de toda a série, a construção excessivamente melodramática roubou o foco do que realmente importava, afastando-se até mesmo das identidades originais dessa épica jornada em busca do Trono de Ferro. Nesta semana, porém, é notável observar que The Last Of The Starks, como ficou conhecida a nova iteração retomou algumas das glórias anteriores, ainda que tenha cedido a alguns convencionalismos que, considerando o impacto que tal produção causou na televisão contemporânea, não deveria nem ao menos dar um suspiro de existência.

É natural que, após a longa Batalha de Winterfell, os sobreviventes tirem um tempo para entrar em luto, dando adeus para seus companheiros de guerra antes de celebrarem a vitória. É a partir daí que o diretor David Nutter encontra sua voz, retomando principalmente a memorável cena em que Daenerys (Emilia Clarke) se debruça sobre o cadáver de Jorah (Iain Glen) e percebe a grande perda que teve. Esse sentimento desolador retorna com força e permeia o primeiro ato em questão apenas para se perder em meio à iminente luta final que se aproxima. Ora, é claro que Nutter, em colaboração com uma competente equipe criativa, poderia ter previsto alguns deslizes mais amadores, por assim dizer – incluindo de que forma essa atmosfera precária é engolfada por uma tensão que nem ao menos se dá ao trabalho de ser construída aos passos.

Em outras palavras, o momento sucessor à queima dos cadáveres pode até carregar consigo reminiscências do que cada um dos guerreiros presenciou na batalha, mas prefere jogar tudo para debaixo do tapete em prol de colocá-los em uma breve subtrama de “relaxamento” – com exceção, é claro, de storylines que se mantém dentro de um barril de pólvora prestes a explodir. Não me levem a mal, as cenas da taverna dentro do castelo são muito bem coreografadas, mas parecem retiradas de uma cronologia qualquer e aglutinadas dentro de um novo escopo. Daenerys e Jon (Kit Harrington), entretanto, travam embates que perpassam e ultrapassam os sentimentos que sentem um pelo outro, ainda mais levando em consideração as revelações feitas algumas semanas atrás: mesmo assim, a Rainha dos Dragões recusa-se a se submeter a um herdeiro que apareceu do nada e sutilmente ameaça Jon das trágicas consequências que acometerão Westeros caso os segredos caiam na boca dos súditos.

Apesar dos urgentes avisos, Jon acaba contando para sua família. Eventualmente, era de esperar que o personagem abraçasse sua honra de não manter segredos com Sansa (Sophie Turner), Arya (Maisie Williams) e Bran (Isaac Hempstead Wright) – e as coisas tornam-se mais claras quando nos relembramos do impactante e preconizador título do capítulo. A partir disso, o roteiro de David Benioff e D.B. Weiss abre espaço para um efeito dominó que nunca realmente ganha a força necessária, mas rouba foco de momentos importantes como o primeiro confronto entre Daenerys e Cersei (Lena Headey). De qualquer forma, é interessante e preciso dar os devidos créditos aos roteiristas e showrunners por ao menos arriscarem alguma coisa em vez de observar de longe o circo pegando fogo.

Todavia, é inegável dizer que os respaldos ultra-dramáticos falem com mais força; poucos personagens conseguem realmente recuperar o ritmo do episódio – e aqui abro espaço para falar do mutável arco de Tyrion (Peter Dinklage), cuja fidelidade se divide mais uma vez em duas, materializando-se na forma de Sansa, outrora sua esposa, e também na de Daenerys, sua majestade e senhora. De qualquer forma, o anão carrega o episódio nas costas e mostra-se propositalmente cansado em um último esforço de convencer a irmã a se render; a ideia aqui é evitar derramamento de sangue desnecessário, mas o tiro sai pela culatra e Cersei, demonstrando um ínfimo momento de fragilidade, logo abandona seu lado humanizado e ordena que um de seus lacaios mais perigosos, Montanha, decepe a cabeça de Missandei (Nathalie Emmanuel), um dos braços direitos de Khaleesi.

De fato, Benioff e Weiss já provaram ao público que não é necessário muita cerimônia quando o assunto é sacrifício. Proferindo suas últimas palavras com um sonoro “Dracarys”, Missandei torna-se uma mártir e, eventualmente, o estopim necessário para que a batalha entre dois polos tão distintos iniciasse. Muitos podem se perguntar o porquê de Cersei, aproveitando seu óbvio momento de poder num intangível patamar, ter acabado com o único obstáculo que ainda se opunha entre ela e o Trono. Mas poucos se recordam de que a personagem encarnada por Headey não trabalha assim: a impiedosa e cruel monarca não quer que os conflitos simplesmente deixem de existir com um meneio de cabeça ou um estalar de dedos. Cersei é inteligente e egocêntrica demais para que isso aconteça – e a guerra acontecerá a seu bel-prazer. Não é surpresa, pois, que com um número quase insignificante de falas, a aplaudível atriz mantenha sua pose e roube toda a atenção para si.

Brienne (Gwendoline Christie) também perde sua força – e já a vem perdendo desde a iteração anterior. A poderosa guerreira, que protagonizou uma das cenas mais singelas de toda a série em A Knight of the Seven Kingdoms, cede a sofríveis fórmulas no tocante a Jaime (Nikolaj Coster-Waldau), sentindo-se desnecessariamente culpada por ele “abandoná-la” e viajar para Porto Real para fazer sabe-se lá o quê em relação à sua irmã. Aqui, Coster-Waldau também mergulha em um trágico arco de se aceitar como o abominável e horrendo monstro que se construiu durante todas essas temporadas – mas cremos que ele possui algo escondido em sua manga como elemento surpresa.

Game of Thrones se recupera com seu mais novo episódios, mas volta a não perceber pequenos erros que se amontoam em uma complexa e paradoxal bola de neve. Entre perdas de ritmo e resoluções apressadas demais, o show caminha para mais uma grandiosa batalha que não tem a opção de ser ruim ou mal finalizada.

Game of Thrones – 08×04: The Last Of The Starks (Idem, EUA – 2019)

Criado por: D.B. Weiss e David Benioff, baseado na obra de George R.R. Martin
Direção: David Nutter
Roteiro: D.B. Weiss, David Benioff
Elenco: Kit Harington, Emilia Clarke, Peter Dinklage, Maisie Williams, Sophie Turner, Lena Headey, Liam Cunningham, John Bradley, Alfie Allen, Isaac Hempstead Wright, Nikolaj Coster-Waldau, Conleth Hill, Rory McCann, Joe Dempsie, Iain Glen, Pilou Asbæk, Richard Dormer, Gemma Whelan, Gwendoline Christie, Nathalie Emmanuel, Jacob Anderson, Daniel Portman, Carice van Houten
Emissora: HBO
Gênero: Aventura, Drama
Duração: 78 min