E enfim a épica saga de Game of Thrones chegou ao fim.

É um fato dizer que a série criada por David Benioff e D.B. Weiss alcançou um patamar aplaudível ao longo de sete temporadas, fornecendo uma perspectiva única para a televisão contemporânea e para a história de ficção fantástica – ainda mais considerando o incrível material original que veio das habilidosas mãos de George R.R. Martin. Qual foi nossa decepção quando o oitavo e último ano dessa aventura, recheada de reviravoltas e de arcos incríveis, encontrou um obstáculo aparentemente intransponível: como terminar a história? Bom, em seis episódios que seguiram os passos de longas-metragens, os showrunners e roteiristas realmente tinham bastante material com que trabalhar, visando à construção de resoluções aprazíveis, coesas e longe do maniqueísmo narrativo da luta do bem contra o mal.

Porém, foi com infelicidade que os capítulos-chave do show se confinaram a uma triste zona de conforto, jogando fora tudo o que haviam nos entregado até então: as sequências de batalha transcreveram-se das páginas do roteiro em imagens incompreensíveis; fortes personagens, como Cersei Lannister (Lena Headey), cederam às ruínas de seu próprio reino de caos de modo patético e convencional; mas nada se compara ao trágico fim, em uma percepção nem um pouco enaltecedora, que o series finale trilhou em The Iron Throne, culminando em um desfecho ridículo a ponto de insurgir como um dos, senão a pior entrada de toda a série.

Considerando que Daenerys Targaryen (Emilia Clarke) fez um estrondo literal na semana passada – e, numa colocação simplificada, configurou-se como a única a salvar-se de um desespero estético de seus próprios criadores -, era natural esperarmos com ansiedade quais seriam seus próximos passos. Afinal, a quebradora de correntes mostrou suas verdadeiras facetas, cultivadas desde o primeiro momento que apareceu na série: ergueu seu império sob fogo e sangue e, em uma nova era para Westeros, está pronta para assumir o único monumento que permaneceu em pé em Porto Real – o Trono de Ferro. Entretanto, não é surpresa que sua atitude psicótica e maquiavélica tenha desagradado diversas pessoas, incluído seu braço direito e conselheiro Tyrion (Peter Dinklage) e o amante-descoberto-sobrinho Jon Snow (Kit Harrington) que, em uma última tentativa, compactuam para destruí-la de uma vez por todas.

É difícil encontrar algum momento em que as coisas começaram a dar errado, não para os personagens em si, e sim para o rumo que a narrativa tomou. Os crescentes deslizes despontam desde o primeiro episódio da série e fundiram-se em uma mortal bola de neve; a falta de cuidado e de preparo para o último ano de Game of Thrones foi o principal vilão da história e reflete o motivo pelo qual personas tão densas encontraram seu fim num lugar raso. Daenerys é uma delas, sendo assassinada por Jon Snow em uma sequência artificial e apressada, cuja única centelha é carregada pela pedante trilha sonora – encontramos mais competência emocional com Drogon, o último dos dragões vivos de Khaleesi, ao envolvê-la em suas garras e levá-la para bem longe.

Mas nem isso é o suficiente para causa comoção no público: algumas escolhas de roteiro podem parecer soberbas quando discutidas na mesa de criação, mas perdem seu brilho quando traduzidas para as telas; é basicamente isso o que acontece quando a gigantesca criatura queima o Trono, talvez impedindo que outrem se sente lá, visto que sua mãe, que lutou o tempo todo para conquistar o lhe era direito, está morta. De qualquer forma, a sutileza é varrida para debaixo do tapete e cede espaço a um frenesi convulsivo que mal pode esperar pelos créditos finais.

São poucos os momentos que se salvam da atmosfera fabulesca que se arrasta pela iteração – e tais momentos são imperceptíveis aos olhos menos treinados, com exceção de um. Percebemos a tentativa de recuperar o mínimo de glória por parte do diretor de fotografia Jonathan Freeman, no plongée absoluto em que Tyrion encontra seus irmãos mortos sob os escombros da Fortaleza Vermelha, ou quando Drogon e Daenerys unem-se em um só (claro, a simbologia é explícita demais, mas pelo menos funciona), conforme a Rainha caminha imponente para discursar com seus fiéis súditos. Porém, a forçada trama volta a se perder e não dá indícios de melhora, alcançando o fundo do poço quando, numa tentativa de reconstruir as mazelas de anos a fio, coroam Bran (Isaac Hempstead Wright) como o novo governante supremo de Westeros.

Os outros personagens são descartados sem se pensar duas vezes: Arya (Maisie Williams), que já havia perdido sua força há duas semanas, fecha-se numa jornada de autodescobrimento para o oeste sem mais nem menos; Sansa (Sophie Turner), ainda que nos tenha arrancado um suspiro de orgulho ao tornar-se Rainha do Norte, também não adiciona muita coisa à história; e Jon Snow, após sacrificar sua amada por um bem maior, transforma-se naquilo que sempre repudiou e é condenado a passar o resto de seus dias com os selvagens para além da Muralha. Ou seja: os plots de vingança nunca se concretizam, cada um vai para seu lado e, quando menos percebemos, o black-out entrega um dos piores finais seriados da história da televisão.

O series finale de Game of Thrones destrói uma incrível obra que ruminou durante anos a convergência de incríveis tramas para um único desfecho: uma corrida contra o tempo que parece uma tortura e um suplício para encontrarmos paz. Quase nada funciona, e praticamente tudo desagrada. Talvez esse seja o motivo por Martin ter esperado o fim para lançar seu próximo livro.

Game of Thrones – 08×06: The Iron Throne (Idem, EUA – 2019)

Criado por: D.B. Weiss e David Benioff, baseado na obra de George R.R. Martin
Direção: D.B. Weiss, David Benioff
Roteiro: D.B. Weiss, David Benioff
Elenco: Kit Harington, Emilia Clarke, Peter Dinklage, Maisie Williams, Sophie Turner, Lena Headey, Liam Cunningham, John Bradley, Alfie Allen, Isaac Hempstead Wright, Nikolaj Coster-Waldau, Conleth Hill, Rory McCann, Joe Dempsie, Iain Glen, Pilou Asbæk, Richard Dormer, Gemma Whelan, Gwendoline Christie, Nathalie Emmanuel, Jacob Anderson, Daniel Portman, Carice van Houten
Emissora: HBO
Gênero: Aventura, Drama
Duração: 80 min