A HBO vem investindo em diversas produções de grande calibre nos últimos anos e, no geral, a emissora entregou competentes narrativas que automaticamente caíram no gosto popular e tornaram-se sucesso de audiência e de crítica. Em 2011, por exemplo, tivemos a estreia do épico Game of Thrones, que chegou ao fim ainda neste ano e quebrou recordes de público e de premiações, levando para casa diversas estatuetas do Globo de Ouro e do Emmy Awards; Big Little Lies, baseado no romance homônimo de Liana Moriarty, repaginou o formato dos dramas familiares de modo surpreendente e ganhou aclame universal de todos que ousassem conhecer os mistérios da litorânea cidade de Monteray; e Zendaya protagonizou a sexy e irreverente Euphoria alguns meses atrás, reafirmando suas incríveis habilidades artísticas e roubando a cena do começo ao fim.

Agora, é a vez de retornamos para os fantasiosos mundos com o lançamento de His Dark Materials. A obra de ficção, ambientada em um mundo familiar (mas nem tanto) ao nosso, é baseado na trilogia Fronteiras do Universo de Philip Pullman, que já havia recebido uma medíocre adaptação para as telonas ainda em 2007. De fato, Chris Weltz falhou em capturar a magia narrativa dos livros originais, ainda que tenha demonstrado bastante apreço pelas investidas artísticas, principalmente na belíssima composição cênica – e, mesmo assim, a majestosa estética não foi o bastante para impedir que o longa-metragem se rendesse a um conto mnemônico demais para nos contar algo novo.

Jack Thorne resolveu tomar as rédeas desse novo projeto e, no geral, deu vida a uma interessante história que ainda não atingiu seu potencial completo. É claro que, levando em conta que a série nos mostrou apenas seu o episódio piloto, é natural que o ritmo dos acontecimentos permaneça recuado até explodir em suas aguardadas catarses e respectivos clímaces. De qualquer forma, Thorne e Tom Hooper, que comanda a direção do primeiro capítulo, mesclam drama, ação e uma pitada de comédia para nos apresentar aos personagens principais – falhando em aspectos primordiais para garantir que o público se envolvesse do começo ao fim.

Em suma, “Lyra’s Jordan”, como ficou intitulada a iteração inicial, não é ruim em nenhum momento: a trama principal premedita o destino de uma jovem garota intitulada Lyra Belacqua (Dafne Keen) a algo muito maior do que qualquer um pode imaginar – e que pode colocar em xeque a dominância política e religiosa do grupo conhecido como o Magistério. Logo de cara, o prólogo nos introduz a um cenário caótico, manchado por máquinas perigosas e assustadoras que levam um perturbado Asriel Belacqua (James McAvoy) a deixar sua sobrinha aos cuidados da Jordan College, em Oxford, sendo educada da melhor maneira possível enquanto é resguardada dos que lhe querem fazer mal.

Como preâmbulo, o começo da obra funciona de forma impecável: percebemos as diferenças de personalidade que isolam Lyra e seu melhor amigo, Roger (Lewin Lloyd), em dois extremos bastante complexos e inebriantes, dentro de suas limitações – afinal, não podemos ter todas as respostas de uma vez só. Enquanto a esfera que engloba os dois personagens-mirins é propositalmente repetitiva, por assim dizer, temos outra perspectiva mais dura e mais amadurecida que envolve Asriel e o fato de ser taxado como herege por pesquisar acerca de uma misteriosa substância intitulada poeira (ou Partículas de Rusakov, como explanadas nos escritos de Pullman) e no multiverso que existe em paralelo àquele que vive. Tentando desconstruir a imagem imperialista do Magistério, ele é quase envenenado por seus colegas de profissão.

Assim como a trilogia original, percebe-se que Thorne trabalha arduamente para que a mitologia ganhe expressiva voz dentro do escopo seriado. Porém, é inegável dizer que os elementos fantasiosos e sobrenaturais são traduzidos de modo cru e impalpável demais, deixando de lado algumas explicações que não necessariamente precisariam estar explícitas, e sim escondidas com sutileza: temos os daemons, espíritos humanos reencarnados em formas animais que têm a habilidade de se transformar em outros até amadurecerem; temos a poeira, temida por parte dos humanos (mas sem motivação aparente); há, também, um grupo antagonista conhecido por Gobbles, um equivalente de bicho-papão da nossa cultura que faz parte de uma fábula cujo objetivo é assustar crianças – isso é, até que elas começam a desaparecer misteriosamente.

O problema é que tais partes separadas falam mais alto que o todo; quando justapostas em uma mesma linha narrativa, vê-se que nem o charme afetado de Hooper, nem as delineações pragmáticas de Thorne são o bastante para privar o episódio de deslizar mais do que deveria. De qualquer forma, His Dark Materials demonstra ter um delicioso potencial que pode e deve ser explorado ao seu máximo nas próximas semanas. Ou ao menos é isso que esperamos.

His Dark Materials  – 01×01: Lyra’s Jordan (Idem, 2019 – EUA)

Criado por: Jack Thorne
Direção: Tom Hooper
Roteiro: Jack Thorne
Elenco: Dafne Keen, Ruth Wilson, James McAvoy, Clarke Peters, Lin-Manuel Miranda, Lewin Lloyd
Emissora: HBO
Gênero: Drama, Aventura, Fantasia
Duração: 56 minutos