Ao longo da extensa história da esfera cinematográfica, diversos filmes encontraram espaço de sobra para se voltarem às explorações dos dramas familiares – ou seja, de narrativas que se conectassem mais com o cotidiano do público do que fantasiosas investidas ou ações inexplicavelmente majestosas. A ideia de conexão entre obra audiovisual e audiência, entretanto, ganhou palanque extremo nas últimas décadas e, assim como tantos outros gêneros, caiu nas ruínas da saturação e deu ares de um infeliz cansaço artístico que, caso não lapidado, continuaria a nos entregar a mesma coisa.

De qualquer forma, é sempre interessante analisar de que modo os cineastas e suas extensas equipes pretendem nos engolfar em verdades que não aceitamos, mas que estão presentes constantemente nas nossas vidas – seja através de um cronológico e expansivo coming-of-age (Boyhood – Da Infância à Juventude), ou então a partir de uma perspectiva pueril que se vê no centro de uma transformação traumática (Ponte para Terabítia, Sete Minutos Depois da Meia-Noite), ou até mesmo embebida pela gritante contradição entre duas viscerais famílias (Deus da Carnificina). E foi de modo chocante e emocionante que o diretor Noah Baumbach se valeu de todos esses aspectos supracitados para dar vida à História de um Casamento – cujo título pode nos guiar em um caminho conhecido, mas perscrutado por reviravoltas que se nutrem do âmago da frustração humana.

A trama gira em torno de Nicole (Scarlett Johansson), uma ex-atriz de cinema que agora trabalha em teatros independentes, e Charlie (Adam Driver), seu marido e diretor dramatúrgico. O filme se inicia com dois breves solilóquios em que os dois protagonistas falam sobre o que mais gostam de seus parceiros, enaltecendo suas personalidades altivas e seu senso de imperfeição que muitas vezes é ofuscada pelas exaustivas tentativas de alcançar a divina construção. Na verdade, essa mescla de qualidades e defeitos que sempre retorna aos nossos pensamentos quando nos prestamos a analisar alguém muito próximo a nós, é a estrutura principal sobre a qual irá se trilhar o caminho para o catártico finale – em sua versão mais sutil possível.

Ainda que tudo esteja às mil maravilhas, tudo não passa de aparência: afinal, Nicole e Charlie estão à beira de um divórcio, arquitetado primeiramente pela desistência da personagem de Johansson em continuar em uma mentira belamente contada. Não demora muito, inclusive, para que ela caia em si e perceba que seu casamento já não existe há muito tempo, ainda mais pelo egocêntrico egoísmo de Charlie que o impede de ver que sempre dominou o relacionamento e nunca deu abertura para que outras pessoas expressassem o que desejavam – quanto mais discordar de algo que já está decidido.

Baumbach, que também fica a encargo do roteiro, não apenas bebe de outras icônicas produções pelas quais ficou responsável (como A Lula e a Baleia e Frances Ha), como imprime uma sólida perspectiva do que insurge em meio a um profundo estudo antropológico. Aqui, as barreiras etárias que normalmente separam a sabedoria inerente dos mais velhos e o purismo inocente dos mais jovens deixam de existir em prol de aglutinar em uma pungente fusão cada uma das personas trazidas às telonas. Nem mesmo Nicole e Charlie, que carregam um certo “quê” de solenidade, estão livres de se renderem a certos momentos do primitivismo comportamental mais propositalmente ridículo – a sequência em que tentam resolver as coisas entre si e então trocam ataques vergonhosos que, na verdade, não têm a menor coerência.

É essa vergonha não-premeditada que inclusive antecipa a calmaria: em poucos minutos em que o casal tentaria ter uma conversa civilizada, o pacífico diálogo dá lugar a uma guerra explosiva que traz o pior de cada um à tona; ambos colocam para fora todos os sapos que foram obrigados a engolir e, depois de tangenciarem um agonizante ilogismo, recobram a consciência e caminham para o que podemos encarar como um final feliz às avessas: eles permanecem separados, mas nunca deixaram de amar um ao outro; entretanto, funcionam melhor como pessoas independentes, cuja visão profissional e pessoal diverge ao ponto de criar atritos complexos.

O diretor também abre espaço para teorizar acerca de outros temas importantes para o enredo e que são traduzidas do cotidiano para o cinema com atenção máxima: depois que contratam seus respectivos advogados (interpretados com perfeição por Laura Dern e Ray Liotta), tudo não passa de formalidades e tentativas quase idióticas de racionalizar algo que vai muito além de segmentos congruentes e que deveria ser discutido apenas pelos participantes desse complicado (e caro) aspecto de suas vidas. E, como se não bastasse, essa preocupação narrativa se estende também para as realizações estéticas, pinceladas com uma crescente melancolia que eventualmente se volta para uma inebriante letargia e uma compreensão de que tudo aquilo é inevitável.

História de um Casamento é um dos melhores filmes do ano e, sem querer me valer de favoritismos cênicos, uma das grandes surpresas da década. O grande ponto da produção é ir para além das costumeiras resoluções de melodramas familiares – ora, até mesmo as convecções cômicas são deturpadas com um fundo da mais ardente verdade. E essa preocupação em se afastar de tudo o que conhecemos sem cair em arquiteturas inverossímeis é analisada de tal forma que é impossível não derramar uma lágrima com a história.

História de um Casamento (Marriage Story – Estados Unidos, 2019)

Direção: Noah Baumbach
Roteiro: Noah Baumbach
Elenco: Scarlett Johansson, Adam Driver, Laura Dern, Ray Liotta, Merritt Wever, Julie Hagerty, Alan Alda
Duração: 136 min.