How to Get Away with Murder voltou para mais um ano de mistérios!

O TGIT (Thank God It’s Thursday!), compilado de series idealizadas por Shonda Rhimes e que é transmitido todas as quintas-feiras no canal ABC, atingiu sua completude nesta semana com a re-estreia do show protagonizado por Viola Davis, além das novas temporadas de Scandal e Grey’s Anatomy. E os fãs permaneceram vários meses se perguntando o que aconteceria depois do incrível season finale da última temporada, com a morte de um dos protagonistas e viradas nem um pouco previsíveis para os personagens principais, dispondo inúmeras novas regras para a organicidade das relações “amistosas” entre os remanescentes e premeditando um futuro um tanto quanto caótico.

E é exatamente isso o que acontece no primeiro episódio desta nova iteração. Intitulado I’m Going Away, o capítulo pode ter sido um pontapé morno para a série em geral, mas talvez tenha vindo em boa hora para preparar o público para possíveis sequências de tensão e angústia – próprias de sua identidade estético-narrativa. Aqui, tudo se restringe a um pequeno espaço de tempo, mais precisamente uma semana, entre a revelação de quem esteve por trás do assassinato de Wes (Alfred Enoch) e a descoberta da gravidez de Laurel (Karla Souza). E, ao contrário dos anos anteriores, a sensação de paz e equilíbrio vem carregado com um sentimento de perda e ruína, como se o reino de Annalise Keating (Davis) estivesse à beira do abismo – ou ainda em queda livre.

Afinal, a professora e advogada de defesa havia sido condenada pela morte de seu aluno, permanecendo presa durante semanas e até mesmo chegando a sofrer agressões físicas para provar sua inocência – a qual não sabíamos até a revelação final, considerando a personalidade complexa e contraditória da personagem. Após sua soltura e inocência, Annalise passa por um julgamento que a pré-conduz a terapias de reabilitação devido ao problema com bebida e logo depois viaja para a casa de sua mãe (interpretada pela sempre incrível Cicely Tyson) para resolver mais assuntos pendentes e tentar encontrar alguma ordem em sua vida. Entretanto, os problemas parecem ter apenas começado: afinal, Ophelia parece estar sofrendo de uma crescente demência, já apresentada sutilmente na temporada anterior – e seus sintomas cada vez mais frequentes colocam a protagonista em uma situação delicada.

Em determinada sequência, sua mãe profere a seguinte frase: “Todo dia alguém à sua volta morre”. Essa era a declaração que todos, incluindo os outros personagens da série e os telespectadores: creio que em alguma crítica da temporada anterior, falei sobre os pressentimentos de mau agouro atraídos por Annalise, que sempre culminam em alguma morte, abandono ou traição. Bom, esse parece ser o fardo da advogada, visto que toda vez que um âmbito de sua vida emerge em grande potencial, outro mergulha numa escuridão abismal e praticamente sem saída. Ora, por se configurar como alguém sedento pelo poder e disposta a qualquer coisa para atingir seus objetivos, ela acabou com seu relacionamento com o detetive Nate Lahey (Billy Brown), ocasionou pensamentos destrutivos em seus alunos e deixou um rastro de sangue pelos lugares onde passou.

E agora, sua resiliência, já quebrada inúmeras vezes, encontra mais um obstáculo ao se ver responsável pela única pessoa que se importava com ela, mas que agora está em um estado de decadência incontrolável e que mostra sinais avançados. Apesar de lutar contra seu diagnóstico veementemente, Ophelia não resiste às ilusões que sua mente cria, as quais vêm à tona pela presença tumultuada das duas filhas e das lembranças traumáticas de um passado que tirou a vida das pessoas que amava. A atmosfera angustiante aumenta com o embate entre Annalise e Mac (Roger Robinson) acerca do que é melhor para a velha mulher, a qual decide apenas observar o que está acontecendo antes de aceitar seu destino.

É claro que escolhas e sacrifícios não fazem parte apenas deste arco, mas se espalham para outros personagens – principalmente Laurel. Após perder os dois grandes amores de sua vida e descobrir sobre a criança que carrega (cujo pai ainda não foi revelado), a jovem decide, à prima vista, abortar. Sem maiores explicações, ela diz isso para o pai em um breve prólogo – e, diferente das saídas clichês e novelescas que normalmente acompanham esses momentos reveladores, Peter Nowalk se finca à aceitação e à resignação. Afinal, Laurel não é uma garotinha e pode responder pelos seus atos, principalmente se considerarmos todos os eventos que antecederam sua escolha – ela inclusive fala para os dois manterem segredo da mãe, cujos ideais religiosos iriam saturar a conturbada mente da menina ainda mais.

O ápice do episódio – que também não faz jus aos melhores momentos epifânicos da série – é durante um jantar entre os remanescentes do grupo conhecido como Keating 5 e Annalise. Aqui, mesmo com todo o drama clássico presente nas produções de Rhimes, temos uma importante acontecimento que dará o tom para a temporada e para o futuro de cada um dos personagens: a dissolução do grupo. A queda representada aqui não se restringe ao círculo intimista da professora, mas espalha-se como uma praga para aqueles ao seu redor. Em um ato de “altruísmo”, por falta de adjetivo melhor, ela entrega cartas de recomendação para cada um de seus alunos, deixando-os “ir embora” e encontrarem outro lugar para exercer a profissão que tanto lutaram para ter. O desfecho não poderia ser outro: decepções, frustrações e uma verborragia excessiva principalmente por parte de Michaela (Aja Naomi King), que colocara a mentora em um patamar quase endeusado e agora via as máscaras caindo bem à sua frente.

Jet Wilkinson assume a direção de I’m Going Away e, apesar de manter alguns maneirismos das temporadas anteriores – principalmente o incômodo visual com uma montagem picotada e uso supersaturado de campo e contracampo -, nota-se uma grande melhora do equilíbrio estético. O brilho fica um pouco desbotado devido à pequena evolução das storylines – e digo com grande pesar que o cliffhanger para o próximo episódio não é o dos melhores e deixa muito a desejar.

Em suma, a quarta temporada de How to Get Away with Murder não foi um incêndio como o das iterações anteriores, mas entrou como base para um explorável potencial, principalmente no tocante às tênues relações entre os personagens. Agora, só podemos esperar os próximos capítulos – e rezar para que a série reencontre seu tom frenético de sempre.

How to Get Away with Murder – 04×01: I’m Going Away (Idem, 2017 – EUA)

Criado por: Shonda Rhimes, Peter Nowalk
Direção: Jet Wilkinson
Roteiro: Peter Nowalk
Elenco: Viola Davis, Billy Brown, Jack Falahee, Aja Naomi King, Matt McGorry, Conrad Ricamora, Karla Souza, Alfred Enoch, Liza Weil, Charlie Weber
Emissora: ABC
Gênero: Drama criminal
Duração: 45 minutos