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Crítica | How to Get Away with Murder – 04×03: It’s for the Greater Good

Não há satisfação maior do que ver uma de suas séries favoritas finalmente aprender com os erros do passado e investir em seu incrível potencial. E é exatamente o que está acontecendo a cada novo episódio de How to Get Away with Murder, um dos show mais viciantes da ABC que parece estar recuperando o fator principal que permitiu que os fãs se apaixonassem por uma sólida e bem pensada narrativa.

É inegável dizer que a nova temporada da série começou com um pé esquerdo, mas fico muito feliz em dizer que a atmosfera morna era apenas uma preparação para eventos tão emocionantes quanto os do ano de estreia. A combinação de elementos criativos cada vez mais parece encontrar um equilíbrio – entretanto, preciso dissertar sobre a volta de alguns maneirismos próprios da série que até podem não incomodar certa parte do público, mas que definitivamente tiram um pouco desse bruto brilho.

Vamos por partes: o terceiro episódio, intitulado It’s for the Greater Good já nos indica uma possível sequência de acontecimentos pela sua chamada. “É por um bem maior” é a frase que define todos os valores expressos pela mente um tanto quanto psicótica – quando o assunto é competitividade e segurança no mundo jurídico – de Annalise Keating (Viola Davis), cuja principal fraqueza é a impotência. Entretanto, a personagem parece não se lembrar que fez inúmeros inimigos com o passar dos anos por seguir tão firmemente sua ideologia laboral. Até mesmo seus alunos e seus colegas de trabalho parecem repudiar seu trabalho, mesmo que sejam forçados a concordar que estão lidando com alguém muito inteligente, sagaz e que fará de tudo para atingir seus objetivos.

O capítulo é essencialmente sobre isso: Annalise em seu melhor. Usando e abusando de sua capacidade de associar conceitos à prima vista opostos e intransponíveis entre si, além de combinar sua grande persuasão e sua impetuosa personalidade, ela tenta recuperar a reputação outrora perdida no meio jurídico pelas múltiplas acusações que, por mais que não sejam verdadeiras, mancharam seu histórico na visão dos colegas de trabalho e de seus superiores. Aqui, ela tenta se afastar cada vez mais de seu passado ao manter sua constância nas consultas com o misterioso Dr. Isaac (Jimmy Smits), seu psiquiatra, além de buscar uma sutil redenção no escritório de Virginia Cross (Marianne Jean-Baptiste), advogada responsável por atender e cuidar dos inúmeros casos dos menos favorecidos – já nessa primeira sequência, adquirimos informações valiosas para o entendimento dos eventos subsequentes: o Departamento Público de Justiça sofre com a falta de verba para seus funcionários, além de não ter um número suficiente de advogados que consigam analisar situação a situação com a minúcia necessária.

Toda a trama principal entra como uma metáfora para a vida de Annalise – uma vida pautada em erros. É claro, seus acertos, ultimamente, mostram-se pendem mais na balança, mas não podemos negar que os julgamentos e conclusões precipitadas, bem como planos arquitetados de última hora colocaram todos à sua volta em perigo, dando inclusive um ponto final a uma figura muito próxima – Wes (Alfred Enoch), que morreu em meados da terceira temporada. Neste episódio, a vítima emerge no rosto de Ben Carter (Rene Moran), condenado por ter cometido o assassinato de sua esposa ao jogá-la do décimo andar, deixando para trás sua jovem filha. De acordo com a juíza, ele teve um acesso de raiva, fruto de seu tempo numa gangue, e a empurrou após terem uma discussão acerca da criança.

Pela primeira vez, a advogada de defesa não desconfia de uma possível falha no sistema – ou não quer acreditar nisso. Talvez porque sua experiência com a cliente passada, Jasmine Bromelle (L. Scott Caldwell) mostrou de que modo os chefões por trás da “cega justiça” não se inclinam para as necessidades dos menos afortunados – e tudo ainda chega em outro nível quando descobre que ela morreu de overdose, encontrada em um beco com traços de ingestão de heroína. Sua queda é bem notável, e ela parece perder as esperanças quando uma revelação no clássico estilo deus ex machina de evidências que poderiam inocentá-lo desde o primeiro julgamento.

Apesar dessa resolução jogada, tudo funciona perfeitamente quando falamos de metáfora. Uma simbologia bem maior para o que chamamos de corrupção sistêmica e falha generalizada, dentro das quais os únicos a saírem ganhando são aqueles que definitivamente não têm nada a perder e podem reconquistar uma leve rachadura em seus impérios num estalar de dedo. Em contrapartida, lidamos com os marginalizados pela estratificação social, que são obrigados a viver sob a sombra duvidosa daqueles que juram lhes proteger, mas que são os primeiros a serem abatidos em qualquer situação de caos. Em It’s for the Greater Good, até mesmo os valores impetuosos de Annalise entram em diálogo paralelo com a macro-perspectiva do episódio.

Os deslizes retornam, porém, com a montagem. Mais uma vez, nos entregamos para uma edição frenética com cortes muito bruscos e rápidos dentro da mesma ação, impedindo que prestemos atenção no que acontece. São poucos os planos que duram mais que alguns segundos, e a direção de Nicole Rubio não ajuda, com toda uma movimentação desnecessária em cena. Todavia, a narrativa sólida ajuda a ofuscar os erros passíveis de consideração – ou seja, nada de novo no front.

How to Get Away with Murder gradativamente recupera sua identidade, ainda que em detrimento de uma ousadia estética. A história que rodeia Annalise Keating está cada vez mais profunda e pode inclusive significar sua ruína – premeditada desde o episódio piloto e cada vez mais apontando em uma direção.

How to Get Away with Murder – 04×03: It’s for the Greater Good (Idem, 2017 – EUA)

Criado por: Shonda Rhimes, Peter Nowalk
Direção: Nicole Rubio
Roteiro: Erika Harrison
Elenco: Viola Davis, Billy Brown, Jack Falahee, Aja Naomi King, Matt McGorry, Conrad Ricamora, Karla Souza, Alfred Enoch, Liza Weil, Charlie Weber
Emissora: ABC
Gênero: Drama criminal
Duração: 45 minutos

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Publicado por Thiago Nolla

Thiago Nolla faz um pouco de tudo: é ator, escritor, dançarino e faz audiovisual por ter uma paixão indescritível pela arte. É um inveterado fã de contos de fadas e histórias de suspense e tem como maiores inspirações a estética expressionista de Fritz Lang e a narrativa dinâmica de Aaron Sorkin. Um de seus maiores sonhos é interpretar o Gênio da Lâmpada de Aladdin no musical da Broadway.

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