nota-5

E então chegamos ao midseason finale.

Estava assustado com este último episódio. De forma geral, How to Get Away with Murder nos apresentou a uma ótima temporada, permeada por clímaces incríveis e uma direção de arte que harmonizou completamente com uma fotografia distorcida e angustiante. Fomos apresentados aos dois lados da moeda de todos os personagens e, combinado a diálogos perfeitamente delineados, não pudemos evitar de segurar no braço da poltrona e nos torturar de angústia a cada cena final.

O nono episódio, intitulado Who’s Dead?, deveria trazer um nível de consciência absurdo. Afinal, de acordo com a própria identidade da terceira temporada, a cada episódio seríamos apresentados a alguém que sobreviveu ao acidental incêndio. E tudo indicava que apenas duas pessoas poderiam ter morrido: Frank e Nate. Confesso que não fiquei muito interessado com essa ideia. Tudo bem que ambos os personagens trouxeram peso para a cena e fizeram parte dos arcos mais importantes da série, mas não conseguia acreditar que a eliminação brusca e sumária de um deles poderia causar a catarse prometida desde We’re Better People Now (3×01).

Diferentemente dos outros capítulos, este aqui começa já no tempo presente. Somos transportados ao tenso momento em que Frank ameaça tirar sua vida para acabar com todo o sofrimento no qual colocara seus companheiros. Mas, para a alegria de todos, Bonnie o convence a abaixar a arma, para o desgosto escrachado e o alívio oculto de Annalise, que provavelmente não aguentaria mais uma desgraça ocorrendo de sua residência. O mais incrível destas sequências agoniantes na verdade reside no enquadramento, como já citei em episódios anteriores. Talvez os planos utilizados e até a angulação da cena tenham contribuído para uma distorção não-natural das paredes da casa da advogada. Em comparação a episódios anteriores, vemos que sua “fortaleza” já cedeu aos próprios erros e está sendo constantemente bombardeada por fantasmas do passado – representados pelas breves aparições de Eve (Famke Janssen), antigo relacionamento da professora, e até pelo lembrete do assassinato de Wallace Mahoney (Adam Arkin), pai de Wes.

Em uma contraposição muito bem construída, os Keating 5 celebram os últimos dias de prova com bastante embriaguez – e o álcool entra como elemento semiótico de fraqueza comum aos protagonistas. Como bem sabemos, as piores decisões feitas por eles envolviam de algum modo esse tipo de bebidas, não apenas no momento da ingestão, mas na composição cenográfica. Ainda que indiretamente, garrafas de vodca, taças de vinho, shots de uísque e objetos afins sempre alternavam entre primeiro plano ou detalhe, indicando que algo trágico estava para acontecer. Nesta midseason finale, este jogo de imagens foi muito mais usado, preparando o terreno para um acontecimento muito maior.

O roteiro de Michael Foley mostrou-se por vezes acelerado, talvez para cobrir um período um tanto quanto grande de tempo, preocupando-se em sanar quaisquer dúvidas e não deixar furos. O ritmo é entendível e segue uma lógica coesa, apesar de deixar os espectadores com falta de ar em algumas sequências. As últimas cenas principalmente foram montadas de forma a resgatar os finais dos episódios anteriores, nos relembrando rapidamente do que aconteceu. E a grande sacada entra aqui: em nenhum momento nos foi dito que os flash forwards seguiam uma cronologia; apenas encaixavam-se uns nos outros, deixando certas pistas para nos inclinarmos a uma linha de pensamento. E isso deixou margem para uma narrativa amedrontadora que negou até o âmago de tudo o que pensávamos e de forma exímia não deixou ganchos mal construídos ao longo de seus quase cinquenta minutos.

Outra escolha inteligente da criadora Shonda Rhimes foi pegar o mesmo diretor do primeiro episódio desta temporada, Bill D’Elia, para encabeçar Who’s Dead? É possível traçar um paralelo de identidade entre estes capítulos: um bebe do outro, mas de forma transgressora, transpondo-se como pode e alterando algo que se mostrara verdadeiro até os momentos da grande virada. Por exemplo, Connor, ex-namorado de Oliver, coreografa uma cena romântica antes dos Keating 5 serem chamados para a casa de Annalise, quebrando a temporalidade que conhecíamos. Wes testemunhou contra sua professora ao ser chamado para a delegacia de polícia horas antes do desastroso incêndio, refutando mais uma vez toda a cronologia. As coisas poderiam ter ficado muito confusas, mas se complementaram perfeitamente e trouxeram um novo conceito de linearidade narrativa para a televisão.

Como já comentado em críticas anteriores, a paleta de cores azulada e esverdeada teve bastante influência no mergulho psicológico dos personagens num mundo mais uma vez tomado pela desgraça e pela tristeza. A divisão dos episódios seguiu a mesma ordem, mas a seriedade atingiu um novo nível: agora, um dos próprios colegas encontrou sua ruína. E garanto que não há possibilidade de saber quem está por debaixo dos lençóis até o último segundo. As viradas foram arquitetadas de forma a se contradizer a cada momento, de deixar pistas falsas e depois trilhar um caminho diferente, voltando no tempo, mostrando de forma detalhada como estávamos errados. E aqui as cores frias, ao invés de transmitirem uma sensação de desconforto e tensão, funcionam como um escape confortante para os personagens, no qual eles podem enterrar as mágoas e enfrentar uma realidade nem um pouco convidativa.

Obviamente os arcos iniciais de fecharam, mas diversas perguntas foram abertas. Em suma, Who’s Dead entrou como um dos episódios mais fortes da série inteira, tendo total consciência de sua lógica e transmitindo uma sensação de deve cumprido. O clima catártico finalmente encontra um lugar em How to Get Away with Murder de forma versátil e fluida. E não posso deixar de ficar irritado ao lembrar que um dos melhores shows da atualidade só retorna em janeiro. Ao menos teremos tempo para absorver tudo o que aconteceu – e conjecturar sobre o que irá acontecer de agora em diante.