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Crítica | How to Get Away with Murder – 3×11: Not Everything’s About Annalise

Toda história tem os seus dois lados. Uma das séries mais famosas do canal ABC, saída direto da distorcida mente de Shonda Rhimes, parece levar a expressão supracitada ao pé da letra, entregando-nos, episódio a episódio, um gancho extremamente bem construído, mas logo revela segundas intenções nos primeiros minutos do capítulo seguinte. 

Em Not Everything’s About Annalise, a pessoa que pensamos ter assassinado Wes (Alfie Enoch) na verdade pode estar mentindo descaradamente para dar um basta na onda de catástrofes que sobrevoa os nossos protagonistas, principalmente no tocante a Annalise Keating (Viola Davis), cujas ações parecem atrair além de dor e sofrimento. Por um lado, fiquei completamente abalado ao ver uma das melhores e mais comoventes personagens dos últimos tempos ter um “fim” tão bruto quanto aquele, mas por outro, devo confessar que seu arco adquiriu apenas mais densidade: estamos diante de uma personalidade extremamente forte e segura de si se desmantelar gradativamente ao ponto de uma desistência emocional e física óbvia. 

Muita coisa permaneceu na mesma da semana passada para cá: ainda vemos o círculo dos personagens principais lidando com as consequências da morte de Wes, e que só agora começam a se revelar mais duras. Afinal, todo o passado “criminoso” de Annalise está sendo investigado, visto que seu subordinado Frank (Charlie Weber), declarou-se culpado de homicídio, tentando livrá-la do julgamento. Entretanto, sabemos que os advogados de acusação sempre estiveram na mira da protagonista, esperando o momento em que ela deslizaria para jogar o trunfo final. Em três temporadas de pura reviravolta, a opção de deixar a narrativa mais monótona foi uma sacada inteligente para demonstrar de que modo alguém onipotente pode tornar-se a própria ruína. 

Enquanto isso, as coisas atingem uma calmaria complexa e duvidosa nas subtramas dos outros personagens. Oliver (Conrad Ricamora) é literalmente ameaçado por Michaela (Aja Naomi King) para não abrir a boca sobre o que sabe e não alimentar ainda mais as expectativas de destruição de seus inimigos. As verdadeiras intenções do grupo são reveladas mais uma vez, ainda que mascaradas por uma camada “justiceira”, mas que na verdade é tão superficial quanto seus problemas pessoais. Eles estão tentando se proteger ao fingir que se importam com a morte de um colega próximo – mas que ironicamente não conheciam muito bem – para saírem ilesos e para tentar voltar à normalidade. Nós já estamos cansados de vê-los tentar dar a volta por cima, e eles também: por mais que este novo capítulo não tenha sido tão verborrágico quanto os outros, a expressão de culpa e de angústia traduz tudo o que precisa. Não há espaço para duplas interpretações – e definitivamente não há lugar para perdão. 

Os relacionamentos, entretanto, parecem aflorar em meio a tantas crises: Michaela e Asher (Matt McGorry) finalmente se entenderam após um período de brigas, culminando talvez numa das passagens de alívio cômico para um cenário tão tenso. Oliver e Connor (Jack Falahee) parecem ter lido os nossos desejos e recuperado a tão esperada química entre um dos casais mais deliciosamente bem estruturados da série – obviamente movendo-se aos poucos. 

Laurel (Karla Souza), não obstante, é a personagem que mais chama a atenção. Sabemos de sua personalidade proativa e impetuosa – muitas vezes impulsiva, também – e aqui ela consegue manejar muito bem seus extremos e suas fraquezas para não cair nas armadilhas dos investigadores e entregar de bandeja uma declaração que possa inocentar Frank e deixar Annalise apodrecendo na cadeia. Ao que tudo indica, este caso está longe de terminar e seus sentimentos pelo ex-amante ainda são visíveis. Mas seu lado emocional mostra-se quase totalmente dominado pela razão. Ela sabe o que fazer, e sua recente perda completa uma armadura contra forças externas com a qual se mostra capaz de lidar.

As viradas no roteiro são ínfimas – e tenho que dizer que sinto falta do ritmo frenético dos acontecimentos em How to Get Away with Murder. Mas se nos atentarmos aos detalhes, vemos que Rhimes, ao lado de seu time criativo, está preparando um gancho muito bem arquitetado que se revelará no season finale. Abby Ajayi assina a história do décimo primeiro capítulo, e segue o estilo de seus predecessores, brincando com a temporalidade e deixando em aberto os acontecimentos passados. Não sabemos quantas horas se passaram entre o momento em que Wes fez as acusações à sua mentora e a explosão da casa de Annalise. E mais importante, não sabemos o que aconteceu nesse meio tempo. Frank pode ou não estar falando a verdade, mas, como declarou o famoso personagem Hamlet em um de seus solilóquios, “há algo de podre no Reino da Dinamarca”. 

Ora, Bonnie (Liza Weil), braço direito e confidente da advogada, conhecedora da história que outrora uniu Wes e Annalise, está de algum modo envolvida no assassinato do garoto. Talvez para proteger aquela que a acolheu, mas sinto alguma coisa diferente no ar. O ideal seria a trama continuar nos arcos de culpa de cada personagem, mas podemos estar sendo levados para outro lugar – inclusive, não vou ficar nem um pouco surpreso se Annalise tiver assassinado um de seus alunos mais queridos.

Apesar dessas sutilezas, Not Everything’s About Annalise peca, como supracitado, em seu ritmo. Combine uma progressão quase em slow motion com mudanças nada perceptíveis de um capítulo para o outro e podemos chegar à conclusão de que a narrativa seria melhor aproveitada caso condensada. Estamos tão perdidos e apáticos quanto os personagens, que oscilam entre os mesmos lugares e uma rua sem saída. O que podemos fazer é recostarmo-nos à cadeira e… Esperar

How to Get Away with Murder (Idem, 2014, Estados Unidos)

3×11: Not Everything’s About Annalise

Criado por: Peter Nowalk, Shonda Rhimes

Direção: Nicole Rubio

Roteiro: Abby Ajayi

Elenco: Viola Davis, Alfie Enoch, Charlie Weber, Liza Weil, Karla Souza, Jack Falahee, Aja Naomi King, Matt McGorry, Billy Brown, Conrad Ricamora

Gênero: Drama, Policial

Duração42 min.

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Publicado por Thiago Nolla

Thiago Nolla faz um pouco de tudo: é ator, escritor, dançarino e faz audiovisual por ter uma paixão indescritível pela arte. É um inveterado fã de contos de fadas e histórias de suspense e tem como maiores inspirações a estética expressionista de Fritz Lang e a narrativa dinâmica de Aaron Sorkin. Um de seus maiores sonhos é interpretar o Gênio da Lâmpada de Aladdin no musical da Broadway.

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