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Crítica | How to Get Away with Murder – 3×12: Go Cry Somewhere Else / 3×13: It’s War

Anna Mae!

Sempre que ouvimos tal expressão em uma das séries de maior sucesso da ABC, já sabemos que a visceralidade própria de sua narrativa será elevada a um nível ainda maior. O décimo segundo episódio de How to Get Away with Murder, intitulado Go Cry Somewhere Else, pode não ter tido um grande avanço quanto ao mistério que circunda a nova metade da terceira temporada, mas trouxe uma das melhores intepretações de Viola Davis, sustentada pela incrível química que possui ao lado de Cicely Tyson no papel de Ophelia, sua mãe.

De forma quase completa, este capítulo foca na relação da protagonista Annalise Keating com seus medos e suas fraquezas. Desde a segunda temporada, acompanhamos uma das personagens femininas mais fortes da televisão contemporânea ficar frente a frente com ameaças incomensuráveis e inimagináveis, colocando sua personalidade impetuosa em cheque com seus valores e crenças. Resumidamente, seu ego é controlado por uma razão cega que a impede de separar a realidade do impossível.

Sua própria reputação já foi alvo de análise pela equipe de criação de Shonda Rhimes, colocando-a em queda livre em função de sua macabra versatilidade e força dentro de um tribunal. Mas agora, com todos os holofotes apontando para as evidências que a incriminam, nos sentimos dentro de um beco sem saída junto a Annalise. Milauna Jackson, dando vida a uma de suas arqui-inimigas, Renee Atwood, entrega-se a uma performance derradeira e assustadora, que a transforma numa força superiora digna de ser temida por quem ousou desafiá-la.

Talvez renegando a identidade de seus outros episódios – fato que comprova a imensa gama de estilos narrativos dentro de How to Get Away with Murder -, este capítulo adota uma perspectiva intimista e familiar para analisar um arco extremamente frágil. Desde a temporada anterior não tínhamos sequências tão bem coreografadas entre Annalise e Ophelia – a última trouxe as duas personagens num momento de carinho e de autoridade aos moldes do relacionamento cinquentista entre mãe e filha.

Aqui, os papéis parecem ter se invertido: descobrimos com nem tanta surpresa quanto o esperado que a personagem de Tyson está com demência. E apesar de querer ajudar a sua filha, seu frágil e idoso corpo exerce uma força bem além da capacidade para ainda se portar como uma mãe; entretanto, o julgamento de Annalise permita que ela se sinta assim, ainda que a relação encontre seu obstáculo – e posso dizer com toda certeza que foi um dos obstáculos mais bem construídos na série inteira. E, de quebra, Ophelia pode abrir o jogo quanto ao passado obscuro da família, que envolve assassinato e abuso sexual – entre outras coisas.

Em contraposição ao desenvolvimento circular do décimo segundo episódio, It’s War prenuncia uma das maiores viradas da temporada – e porque não da série. Um pouco de esperança nunca é demais, e nossa anti-heroína encontrou uma efêmera paz, quase passível de comparação com o início deste ano, ao ter sua fiança paga e estar em liberdade condicional. Mas tudo o que é bom dura pouco, e a negatividade e o desastre parecem rondar os protagonistas desta série.

Ao que tudo indica, a Procuradoria Geral e Atwood parecem estar em conluio para dar um basta à fama bad-ass de Annalise e culpá-la por todas as mortes que têm sequer um resquício de relação com seu passado. Obviamente os Keating 5 – que agora tornaram-se os Keating 4 – não deixariam isso passado, mas os laços que possuíam com uma de suas maiores mentoras também se fragilizaram ao extremo.

Laurel (Karla Souza) decidiu internalizar seu luto contratando um detetive particular para investigar o desaparecimento do corpo de Wes (Alfred Enoch). Ela, pois, descobre que a família Mahoney conhecia a descendência e o sangue de seu ex-namorado e cria em sua cabeça uma teoria da conspiração que culmina em seu assassinato e no que pode ser um dos melhores plot twists já criados por How to Get Away with Murder – afinal, como muitos devem se lembrar, Wallace Mahoney foi responsável pela morte do filho de Annalise ainda não-nascido. Ainda é cedo para tirar conclusões precipitadas, e espero que a série tenha consciência de sua finitude – afinal, falta apenas uma semana para o tão aguardado season finale.

Enquanto isso, Annalise se resvale de elementos materiais para reconquistar sua confiança, como sua carregada maquiagem e suas perucas – símbolos da desconstrução e construção da persona que acompanha seu verdadeiro eu para os lugares onde deve mostrar imposição. Ao contrário dos anos anteriores, a protagonista decide recompor-se a partir de sua fragilidade, e não se enclausurar em seu próprio mundo – ainda mais porque sua fortaleza impenetrável agora está em ruínas -, transformando a fraqueza em um objetivo para seguir em frente. Ela ainda possui um aliado, Oliver (Conrad Ricamora), e o induz a vazar um artigo da corrupção dentro da casa jurídica do local onde vivem para subjugá-los a suas vontades.

Michaela (Aja Naomi King) está entre uma guerra civil entre seu namorado Asher (Matt McGorry) e Connor (Jack Falahee). Estruturando-se como o elo que ainda mantém – ou tenta manter – o grupo unido, ela por vezes faz o papel daquela que sempre a apoiou e incentivou e toma partido para o lado mais justo, principalmente porque em diversas sequências a impulsividade é a atmosfera em primeiro plano: Asher acredita que Connor assinou um acordo de imunidade para vender informações sobre o grupo para a Promotoria Geral, marcando uma traição e mais uma desestruturação dentro de um ambiente caótico.

How to Get Away with Murder elevou o nível de sua qualidade drasticamente e após uma onda de episódios aos moldes da inexpressividade blasée. Mas com mais revelações em dois episódios que se complementam de forma única – e com sequências construídas no puro sentimentalismo dramático sem a simplicidade exacerbada de capítulos anteriores -, não posso ficar nada além de muito feliz pela qualidade desta terceira temporada.

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Publicado por Thiago Nolla

Thiago Nolla faz um pouco de tudo: é ator, escritor, dançarino e faz audiovisual por ter uma paixão indescritível pela arte. É um inveterado fã de contos de fadas e histórias de suspense e tem como maiores inspirações a estética expressionista de Fritz Lang e a narrativa dinâmica de Aaron Sorkin. Um de seus maiores sonhos é interpretar o Gênio da Lâmpada de Aladdin no musical da Broadway.

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