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Crítica | How to Get Away with Murder – 3×14: He Made a Terrible Mistake / 3×15: Wes (Season Finale)

Wes está morto.

O corpo por debaixo do lençol criou um mistério gradativamente envolvente desde o primeiro episódio desta nova temporada de How to Get Away with Murder. Até mesmo seus corolários foram capazes de manter o público fiel às resoluções e às subtramas que perscrutaram os protagonistas sobreviventes, aprofundando suas relações interpessoais e como uma catártica construção de tragédias conseguiu transformar suas simples vidas em constantes ápices de humor e puro desprezo.

Na terceira season finale da série assinada pela veterana Shonda Rhimes, ao lado de seu parceiro Peter Nowalk, as coisas entraram numa desaceleração quase drástica para segurar as pontas e os últimos fechamentos de arco até os cinco minutos finais. Pelo que já sabíamos, Connor (Jack Falahee) mais uma vez voltou-se contra sua “família criminosa” e embebeu-se em seus próprios valores distorcidos para denunciar Annalise (Viola Davis) a seus inimigos declarados – ou seja, a Promotoria Geral. Era de se esperar que a história tomasse um rumo inequivocamente nostálgico e melodramático, apontando para suas vertentes novelescas exploradas no ano anterior.

Entretanto, o roteirista Joe Fazzio, ao lado também de Nowalk, decidiu colocar os protagonistas, cujas contradições e nuances permitiram que nós nos apaixonássemos logo de cara, em pequenas jornadas de redenção – uma decisão um tanto quanto apressada, talvez por não saber de que modo finalizar a arquitrama da temporada. Isso prevê de forma congruente e quase certeira diversas cenas de perdão entre personagens cujo atrito era o principal fator incitante de eventos – fossem trágicos ou irreverentes. Por exemplo, temos a resolução dos conflitos entre Connor e Oliver (Conrad Ricamora), os quais oscilavam entre o término e o reatamento do namoro, tudo marcado por segredos que episódio a episódio eram revelados.

Annalise e Frank (Charlie Weber) também encontraram uma momentânea trégua nestes dois últimos capítulos. Conhecendo o passado de ambos os personagens, sabemos que a confiança um no outro não é um dos elos mais fortes a ligá-los, mas ele já provou diversas vezes sua capacidade de reparar os erros – mesmo os mais tardios e mortais. E ainda sim, sua impetuosidade e sua cegueira frente às ações errôneas foi capaz de transformá-lo em uma máquina assassina cujo objetivo é bem claro: eliminar obstáculos e literalmente enterrá-los o mais profundamente possível – e, de quebra, sem deixar rastros muito evidentes.

Apesar dessas previsibilidades mancharem a identidade narrativa da série, a season finale resolve pontuar suas explorações – e aqui, escolhe Laurel (Karla Souza) para que atinja mais uma vez o ápice da insanidade e a coloque em choque com a racionalidade exacerbada que a acompanhou desde o princípio, talvez até mais que Michaela (Aja Naomi King). Acontece que ela simplesmente decidiu agir por conta própria, recusando-se a esperar que alguém a ajude a encontrar o real culpado pela morte de Wes (Alfred Enoch). Tudo bem, é possível dizer que esta segunda metade se desenrolou de forma mais lenta, ainda que sólida, deixando até as subtramas mais distantes à mercê do grande clímax, por vezes esquecendo-se de que os protagonistas também têm problemas pessoais não relacionados a isso.

Laurel, pois, arquiteta um plano superficialmente sem falhas, mas que culmina na grande revelação dos minutos finais: acontece que seu pai, Jorge Castillo (Esai Morales) dono de uma das corporações farmacêuticas mais ricas dos Estados Unidos, foi o responsável pelo assassinato de seu ex-namorado. Ao que tudo indicava, Wes havia sido contaminado pelo vazamento de gás da casa de Annalise que antecedeu a grande explosão, mas não foi exatamente o que isso aconteceu: o mercenário contratado por Jorge injetou uma droga paralisante em seu corpo e assim conseguiu asfixiá-lo, colocando seu corpo no porão e induzindo Connor – um dos novos acusados dos capítulos anteriores – a tentar ressuscitá-lo. Entretanto, ele quebrou suas costelas e admitiu a culpa para si, varrendo quaisquer outras suspeitas.

Por incrível que pareça, esta não era para ser a grande surpresa da season finale, mas tornou-se por falta de opção. Nos últimos segundos de Wes – e aqui revelo um spoiler que não vem com tanta surpresa -, descobrimos que o personagem interpretado por Enoch é na verdade filho de Annalise. Nowalk pode ter encontrado um grande gancho para a quarta temporada – que inclusive já foi anunciada pela ABC -, mas ele não funciona em vários níveis.

Aos fãs mais atentos e que ainda conseguem absorver acontecimentos passados e conservá-los de forma ativa, uma das amantes da protagonista, Eve (interpretada fabulosamente por Famke Janssen) descobre que seu par romântico havia resgatado Wes de um destino mais cruel que a morte – o abandono. Desde este episódio, alimentei a possibilidade de que ele, na verdade, sempre foi filho de Annalise, e de que foi mandado para viver com a mãe adotiva por falta de opções logo depois de um acordo de adoção velado. Creio piamente que não fui o único a criar tal teoria, e é por isso que digo que o fechamento deste arco foi mal colocado dentro da série.

De forma geral, a season finale de How to Get Away with Murder é bem construída o suficiente para manter o clima de suspense. Porém, suas últimas viradas trazem problemas estruturais relativamente graves e que podem manter o público envolvido para o quarto ano – e não digo isso pela qualidade de sua cena final, comandada com maestria por uma atuação emocionante de Davis, mas sim por fidelidade e amor a mais uma das criações de Shonda Rhimes.

How to Get Away with Murder – 3×14: He Made a Terrible Mistake / 3×15: Wes (Idem, 2017, EUA)

Criado por: Shonda Rhimes, Peter Nowalk
Direção: Jet Wilkinson, Bill D’Elia
Roteiro: Peter Nowalk, Joe Fazzio

Elenco: Viola Davis, Alfred Enoch, Karla Souza, Aja Naomi King, Conrad Ricamora, Jack Falahee, Liza Weil, Charlie Weber, Billy Brown, Matt McGorry
Gênero: Drama, Suspense, Policial
Duração: 45 min.

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Publicado por Thiago Nolla

Thiago Nolla faz um pouco de tudo: é ator, escritor, dançarino e faz audiovisual por ter uma paixão indescritível pela arte. É um inveterado fã de contos de fadas e histórias de suspense e tem como maiores inspirações a estética expressionista de Fritz Lang e a narrativa dinâmica de Aaron Sorkin. Um de seus maiores sonhos é interpretar o Gênio da Lâmpada de Aladdin no musical da Broadway.

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