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Crítica | Joias Brutas – O Lado Obscuro do Dinheiro

Adam Sandler é conhecido por estrelar diversas comédias românticas piegas e previsíveis que, mesmo nos dias de hoje, conseguem encantar o público ao mesmo tempo que se tornam fracassos de crítica. Entretanto, Sandler parece recuar-se ao seu estereótipo performativo e se negar a ir além, como fez com sua incrível rendição em Embriagados de Amor, de Paul Thomas Anderson – isso é, até ser elencado no thriller policial Joias Brutas, que sem sombra de dúvida tornou-se uma das melhores atuações de sua carreira (senão a melhor). Como se não bastasse, o próprio conjunto da obra surgiu das sombras e alcançou um patamar espetacular, cruzando a linha da insanidade narrativa e nos entregando uma obra-prima irretocável em que cada elemento foi analisado e lapidado com extrema cautela.

Aqui, Sandler dá vida ao joalheiro e especialista em pedras preciosas Howard Ratner, que luta para sair de uma iminente falência através de contratos dúbios e falcatruas negociáveis – que explicam o motivo de nomes poderosos estarem-no caçando para reaver o dinheiro que lhe emprestaram. Mesmo assim Howard tem um fraco por apostas (principalmente no tocante a jogos de basquete) e por objetos raros. E é por esse motivo que, usando o restante de sua escassa verba, adquiri uma vibrante opala etíope cuja lenda reza que “contém toda a história e todas as cores do universo”, e tal premissa é canalizada para a apaixonante e nebulosa estética dos irmãos Josh e Benny Safdie, saindo do drama Bom Comportamento para uma investida digna de sua complexa filmografia.

O personagem principal passa longe das concepções maniqueístas de herói ou anti-herói, funcionando mais como um empreendedor sem escrúpulos que fará de tudo para conseguir o que deseja, mesmo que isso signifique mentir para a família que construiu. Na verdade, Howard leva uma vida dupla ao tentar se fazer presente para sua esposa, Dinah (Idina Menzel), e ao saciar-se com a amante Julia (Julia Fox), uma das funcionárias que trabalha em sua loja. A princípio, o propositalmente desconexo roteiro não nos apresenta a todas as peças do quebra-cabeça, exigindo do público uma atenção especial para que cada camada seja posta com perfeição sobre a outra e para que a ansiedade cultivada pela primeira sequência atinja níveis assustadores de pura envolvência.

Howard atinge um ponto em sua carreira no qual não tem mais para onde fugir: as coisas saem do controle e ele é confrontado até mesmo por seus contatos, encarnados nas presenças de Lakeith Stanfield como o insolente Demany e de Eric Bogosian como o perigoso Arno, que o ameaça das formas mais aterrorizantes possíveis até culminar em uma abrupta e chocante ruína. Ademais, cada membro do elenco é também escolhido a dedo, a fim de arquitetar uma epopeia cotidiana que se esconde nos edifícios de mármore dos centros comerciais e que pode estar mais próxima de nós do que imaginamos.

A dupla de diretores não permite que sua analítica e quase antropológica produção se transforme em mais um melodrama qualquer ou que seja uma cópia formulaica do suis-generis gângster, por exemplo; na verdade, os Safdie têm plena noção dos aspectos que desejam canalizar para o enredo e para a pulsante veia artística que têm em mãos, homenageando alguns clássicos de Martin Scorsese e Alfonso Cuarón e encontrando uma identidade única e vibrante. Não é surpresa que, enquanto de um lado eles alargam religiosamente os conceitos cronológicos em um vanguardista frenesi, de outro expandem cenários claustrofóbicos em um labiríntico reflexo de uma sociedade movida pela ambição e pelo capitalismo predatório.

É engraçado perceber como as próprias celebridades, interpretando a si mesmas, vão além de nossas expectativas: enquanto o time protagonista se infiltra em caracterizações retiradas do Queens e do Bronx, nomes como Kevin Garnett e The Weeknd humanizam a si mesmos em arcos reduzidos, mas repletos de falhas internas que perscrutam suas personalidades. Na verdade, a jornada principal é tanto focada em Howard quanto no impacto que os outros elementos trazem para sua vida – e sua consequente derrocada: no final das contas, a audiência trilha um caminho predisposto pelos diretores, acreditando que mesmo essa inconstante construção pode ter um final feliz.

Eventualmente, o prospecto de que tudo dê certo para a persona de Sandler entra em um colapso sórdido, cuja crueza se eleva a níveis exponenciais quando dá-se conta de que aquilo não deveria acontecer. A ideia de frustração catártica, tão condenada em diversos longas-metragens, é transgredida em prol de uma convicção filosófica quase niilista de que saímos de lugar nenhum para chegar a nenhum lugar – e, assim que Howard é assassinado pelos capangas de Arno, tal princípio é estampado no letárgico sorriso imprimido em seu rosto sem vida.

Joias Brutas é uma das grandes surpresas do ano passado (e desse ano, inclusive), trazendo para as telonas, se não um novo jeito de contar histórias, uma nova perspectiva para tramas que já conhecemos. Liderada por uma performance inenarrável de Sandler, o filme é angustiante, emocionante e extremamente narcótico.

Joias Brutas (Uncut Gems – Estados Unidos, 2020)

Direção: Josh Safdie, Benny Safdie
Roteiro: Josh Safdie, Benny Safdie, Ronald Bronstein
Elenco: Adam Sandler, Julia Fox, Kevin Garnett, The Weeknd, Idina Menzel, Lakeith Stanfield, Eric Bogosian
Duração: 135 min.

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Publicado por Thiago Nolla

Thiago Nolla faz um pouco de tudo: é ator, escritor, dançarino e faz audiovisual por ter uma paixão indescritível pela arte. É um inveterado fã de contos de fadas e histórias de suspense e tem como maiores inspirações a estética expressionista de Fritz Lang e a narrativa dinâmica de Aaron Sorkin. Um de seus maiores sonhos é interpretar o Gênio da Lâmpada de Aladdin no musical da Broadway.

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