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Crítica | Jumanji: Próxima Fase – Mantendo o Frescor Narrativo

A saga de ‘Jumanji’ nos cinemas começou em 1995 e foi imortalizada na persona de Robin Williams como Alan Parrish, um menino que foi sugado por um tabuleiro amaldiçoado e ficou preso dentro do mundo titular por quase trinta anos. Apesar de não ter feito um sucesso crítico considerável à época do lançamento, o longa-metragem entrou para um dos clássicos cult da nova geração e foi redescoberto em 2017 por Jake Kasdan, revivendo a produção com uma perspectiva moderna e investindo em uma repaginação brutal que conseguiu nos encantar com seu prospecto metalinguístico e uma das melhores adaptações cinematográficas de games dos últimos anos.

Não demorou muito para que a arrecadação estrondosa de ‘Jumanji: Bem-Vindo À Selva’ cultivasse um terreno fértil para mais uma sequência – cujo confirmado anúncio veio com certo receio. Afinal, não se deve mexer em algo que já está bom ou consideravelmente aprazível; entretanto, contrariando as expectativas de grande parte do público, Kasdan retornou para ‘Jumanji: Próxima Fase’ com mais um competente enredo e um escopo guiado por um elenco transbordante com química e quebras de expectativa ainda mais cômicas que a iteração predecessora. Expandindo a mitologia que já nos fora apresentada alguns anos atrás, o cineasta, colaborando mais uma vez com Jeff Pinkner e Scott Rosenberg e acrescentando elementos dramáticos para cada um dos protagonistas e coadjuvantes.

Distorcendo o escopo formulaico explorado no último filme, a narrativa mergulha nas consequências da inesperada união dos quatro jovens formados por Spencer (Alex Wolff), Martha (Morgan Turner), Fridge (Ser’Darius Blain) e Bethany (Madison Iseman). Depois de terem conseguido escapar e destruído os últimos resquícios do jogo, o grupo acabou seguindo caminhos diferentes, ainda que mantivessem um tênue relacionamento à distância: entretanto, enquanto Bethany, Martha e Fridge conseguiram superar seus próprios obstáculos e transcendido a uma autossuficiência saudável, Spencer viajou para Nova York e foi embebido por uma depressiva e solitária atmosfera que o fez se afastar de seus amigos – e de sua namorada. Não é surpresa que o jovem, ao retornar para casa, decide reconstruir Jumanji e reencarnar o intrépido Dr. Bravestone (cujo avatar é interpretado por Dwayne Johnson) e acaba entrando na aventura por conta própria.

O desenrolar da história pode até ser previsível – mas é essa proposital previsibilidade que serve de convite para o público e para uma jornada ainda mais divertida que a primeira. Eventualmente, o restante do grupo descobre o que aconteceu e decide salvar Spencer de uma morte iminente naquele mortal cenário; porém, não demora muito até que a primeira reviravolta tome forma. Por ter sido reconstituído pelas inábeis e desesperadas mãos do personagem de Wolff, o game adquiriu certos “defeitos” que logo são explicados pelo fato de outras duas pessoas entrarem no jogo: Eddie (Danny DeVito) e Milo (Danny Glover), dois ex-sócios que se reencontram décadas depois de uma despedida nada amigável.

Isso não é tudo: a única a retornar para o avatar escolhido é Martha, que encarna agora Ruby Roundhouse (Karen Gillan); Milo acabou sendo destinado para Franklin Finbar (Kevin Hart), enquanto Eddie encarnou o Dr. Bravestone. Fridge, ficando ainda mais frustrado, se torna o Professor Sheldon Oberon (Jack Black). Enquanto isso, Bethany é deixada de fora e recorre ao seu amigo de longa data Alex (Colin Hanks) para que consiga voltar a Jumanji e ajudar seus amigos. Como se não bastasse esses erros imprevisíveis, o objetivo principal também mudou: com fases ainda mais complicadas, novos aliados e um inimigo muito mais versado que o anterior, o grupo deve recuperar o Coração do Falcão e leva-lo de volta para uma comunidade montanhesa antes que uma terrível seca destrua toda a vida e os mantenha presos lá para sempre.

Mais uma vez, Kasdan e seu competente time arquiteta um enredo redondo, cuja coesão está no total afeto pelo qual nutre por videogames – os mais nostálgicos possíveis. Entretanto, para além do que foi diluído didaticamente em ‘Bem-Vindo À Selva’, nota-se uma preocupação imensurável para a complexidade dos seus personagens, seja com as construções jogáveis, seja com as da vida real. Esse aprofundamento inclusive é traduzido para certas fraquezas que não existiam e que, agora, devem ser trabalhadas como forma de cumprirem a missão a que lhes foi destinada.

Se Black nos roubou a atenção no longa de 2016, cabe a Hart e à adição de Awkwafina cuidar desse aspecto aqui. A atriz dá vida à sorrateira e hilária Ming Fleetfloot, mestra na arte de roubar e que tem uma engraçada alergia à pólen – equivalendo-se à fraqueza de bolos que Finbar possui (e que inclusive é recapturada com irreverência total aqui). O diretor aproveita os elementos originais para aperfeiçoar certos aspectos da jogabilidade virtual, contribuindo para a ascensão de uma subtrama de mistério recheada com ótimas sequências de ação e uma ingenuidade escabrosa que se estende nos três atos da obra.

Surpreendentemente mantendo o frescor de mais um chamado selvagem e resgatando a praticidade ficcional e aventuresca da franquia, ‘Jumanji: Próxima Fase’ prova que algumas sequências ainda têm muito para contar – e coisas novas para mostrar.

Jumanji: Próxima Fase (Jumanji: The Next Level – Estados Unidos, 2019)

Direção: Jake Kasdan
Roteiro: Jeff Pinkner, Scott Rosenberg, Jake Kasdan
Elenco: Dwayne Johnson, Karen Gillan, Kevin Hart, Jack Black, Awkwafina, Danny DeVito, Danny Glover, Nick Jonas, Nat Wolff, Ser’Darius Blain, Morgan Turner, Madison Iseman
Duração: 123 min.

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Publicado por Thiago Nolla

Thiago Nolla faz um pouco de tudo: é ator, escritor, dançarino e faz audiovisual por ter uma paixão indescritível pela arte. É um inveterado fã de contos de fadas e histórias de suspense e tem como maiores inspirações a estética expressionista de Fritz Lang e a narrativa dinâmica de Aaron Sorkin. Um de seus maiores sonhos é interpretar o Gênio da Lâmpada de Aladdin no musical da Broadway.

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