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Crítica | Maze Runner: A Cura Mortal – Ou ‘Deus Ex Machina’

A noção de deus ex machina provém do latim e sua tradução é literalmente “deus provindo da máquina”. Dentro do mundo narrativa, essa expressão refere-se a alguma acontecimento inesperado, improvável e incabível para finalizar o arco de algum personagem ou para colocar um ponto final em determinada história de forma a amarrar todas as pontas soltas – e isso funcionaria muito bem nas obras de tragédia grega onde cada um dos participantes de determinada encenação era movido por seu apreço e seu louvor aos deuses, cuja aparição servia para solucionar magicamente todos os obstáculos pelos quais as figuras humanas passaram. Mas estamos falando de produtos audiovisuais contemporâneos, respaldados por uma imensa gama de tramas e subtramas que ainda têm muito a ser exploradas, principalmente por perspectivas definidas – e parece que a terceira e última iteração da franquia Maze Runner não percebeu nada disso.

Wes Ball retorna como o diretor do mais novo filme do cosmos idealizado por James Dashner – o que por um lado é bom, visto que ele já está familiarizado com o tom da história e com o escopo pós-apocalíptico em questão. Entretanto, por outro lado, Ball retorna aos maneirismos com os quais estava acostumado, principalmente a câmera na mão quando há a construção exacerbada de inúmeras cenas de ação: é claro que essas sequências são sempre muito bem-vindas, ainda mais se forem coreografadas com tamanha maestria quanto as que abrem o longo prólogo do terceiro longa-metragem. Combinado com uma fotografia e uma montagem um tanto quanto asséptica, nos sentimos em um ambiente relativamente confortável se levarmos em consideração a nostalgia que esses momentos causam, transportando-nos para outras franquias como Missão Impossível e Duro de Matar.

Porém, a existência saturada dessas saídas narrativas são meramente iconográficas e emergem para tapar eventuais buracos de roteiro ou até mesmo para que os mais de 140 minutos não se tornem uma monotonia total como os “apreciados” em Prova de Fogo. Não posso tirar, pois, o cuidado um pouco maior que T.S. Nowlin, roteirista responsável pelas obras anteriores, traz para os inúmeros arcos. Personagens outrora inutilizados, como o de Giancarlo Esposito, Aidan Gillen e Rosa Salazar ganham uma roupagem mais complexa e que os tira de um convencionalismo linear, permitindo inclusive que o público seja guiado por suas nuances e crie conexões inexistentes no último filme.

De qualquer forma, A Cura Mortal, assim como A Esperança foi para a franquia Jogos Vorazes, traz subtramas de rebeldia e levante perante uma organização opressora e cujos pensamentos em escala global não prezam pela manutenção da humanidade, e sim por um sucesso individualista, buscando a salvação de uma pequena parcela. É interessante que temas como meritocracia, livre-arbítrio e subjugação sejam trazidos mais uma vez para uma franquia jovem-adulta como esta; mas diferente do universo criado por Suzanne Collins, tais escolhas permaneçam em uma superfície condescendente para que as execuções mirabolantes encontrem mais espaço – pelo menos no tocante à transcrição cinematográfica.

Dylan O’Brien mais uma vez lidera o grupo de rebeldes contra a instituição conhecida como WCKD, agora para libertar os jovens remanescentes das garras do impetuoso Janson (Gillen) e da deturpada e racional mente progressista da Dra. Ava Paige (Patricia Clarkson em uma performance memorável dentro dos limites do filme). Thomas, o nome do protagonista que encarna, é obviamente um dos que mais mergulha dentro de um processo de amadurecimento forçado, visto que presencia inúmeras mortes e a perda de vários entes queridos lutando por uma causa maior – e não, não é por coincidência que sua personalidade irrefreável e muitas vezes impulsiva trace paralelos com a de Katniss Everdeen. Os dois parecem cegos pelos traumas que lhes foram impostos e trabalharam à mercê de forças superiores e que os comandam, ainda que indiretamente.

Mas agora, Thomas sofre com uma dor ainda pior que a morte: a traição. Conforme descobrimos nos momentos finais do segundo filme, Teresa (Kaya Scodelario) traiu a confiança dos clareanos – ou seja, os sobreviventes ao labirinto do longa original – ao revelar sua localização para os agentes da corporação e então foi abraçada pelo lado inimigo, plantando uma semente de ódio e frustração naqueles que conseguiram escapar. Eventualmente, ambos os personagens se reencontram, visto que uma das tramas principais gira em torno do resgate de Minho (Ki Hong Lee), que permanece trancado dentro das facilidades da WCKD e passa por testes inimagináveis para que a tão famigerada cura seja adquirida.

E então chegamos a essa bendita cura: de forma simples e curta, ninguém se lembra dela; o filme é tão carregado com execuções muito boas de cenas de ação que a real sustentação da história, a cura para o mortal vírus que se espalhou pela Terra, nem ao menos é relembrada pelo público. Mais uma vez, o roteiro preza pelas relações intimistas entre os personagens e se esquece do escopo pós-apocalíptico que poderia ser muito bem aproveitado. E se isso se tornou um deslize, espere só até realmente entender o porquê da explicação do termo deus ex machina no começo do texto; cada um dos perigos enfrentados pelos heróis é resolvido magicamente por ações externas e ocasionais, que insurgem no momento em que mais precisam ou em que estão prestes a morrer. Isso é interessante durante o ato inicial, mas se torna muito repetitivo e previsível conforme a narrativa se desenrola.

Thomas Brodie-Sangster também rouba o foco do filme ao interpretar mais uma vez o fiel “escudeiro” do protagonista, Newt. Diferentemente dos outros, ele foi infectado pelo vírus em questão e não sabe se vai sobreviver ou não; ele encontra sua ruína com a chegada do terceiro ato, e essa decisão do roteiro, bem como com a morte de Teresa, mostra ainda a perseverança de Ball e de Nowlin em não se poupar nos sacrifícios necessários para os arcos de outros personagens – mas isso também já é de se esperar, principalmente levando em consideração os longas anteriores.

A Cura Mortal definitivamente não é uma resolução justa o suficiente para Maze Runner, ainda que seja satisfatório. Se você espera uma obra com questões profundas sobre a humanidade e o caos instaurado dentro de uma sociedade em ruínas, sugiro que procure em outro lugar; caso sua busca seja por um filme com sequências de ação interessantes – algumas até de tirar o fôlego – parabéns: você está no lugar certo.

Maze Runner: A Cura Mortal (Maze Runner: The Death Cure – EUA, 2018)

Direção: Wes Ball
Roteiro: T.S. Nowlin, baseado na obra de James Dashner
Elenco: Dylan O’Brien, Thomas Brodie-Singer, Kaya Scodelario, Ki Hong Lee, Alexander Flores, Rosa Salazar, Giancarlo Esposito, Patricia Clarkson, Aidan Gillen
Gênero: Ação, Ficção Científica
Duração: 142 min.

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Publicado por Thiago Nolla

Thiago Nolla faz um pouco de tudo: é ator, escritor, dançarino e faz audiovisual por ter uma paixão indescritível pela arte. É um inveterado fã de contos de fadas e histórias de suspense e tem como maiores inspirações a estética expressionista de Fritz Lang e a narrativa dinâmica de Aaron Sorkin. Um de seus maiores sonhos é interpretar o Gênio da Lâmpada de Aladdin no musical da Broadway.

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