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Em 2016, Jon Favreau alcançou um incrível patamar dentro do panteão Disney com uma das melhores adaptações do clássico Mogli – O Livro da Selva. Em sua obra, o diretor aproveitou do fotorrealismo para transformar o icônico conto de superação e identidade em um tour-de-force magnífico que peca em pouquíssimas partes, mantendo-se verdadeiro à sua natureza e trazendo uma perspectiva interessante. Talvez um dos únicos problemas tenha sido a má colocação dos números musicais e a presença mínima da gigante cobra Kah, um dos melhores arquétipos do longa-metragem. Com a aclamação, a necessidade de mais uma releitura era inexplicável – então, não há uma explicação lógica, por assim dizer, para Andy Serkis mergulhar mais uma vez no universo criado por Rudyard Kipling.

Entretanto, diferente do que imaginávamos, a empreitada de Serkis ousou algo além: transformar o conto-de-fadas em uma obscura narrativa de superação, pautada em investidas sombrias e cruéis, talvez até mesmo retomando a crueza selvagem trazida pelo autor em seu romance. O problema é que o diretor, tendo sua estreia na cadeira no ano passado com Uma Razão para Viver (cuja aceitação não foi a das melhores), não consegue transpassar exatamente o que deseja e se vale muito dos constantes efeitos especiais e de um roteiro mal estruturado para entregar qualquer coisa. As falhas parecem rugir a cada ato que se completa, diminuindo as expectativas e, no final das contas, concluindo-se em algo esperável e decepcionante.

Ao contrário da história que conhecemos, Mogli: Entre Dois Mundos, retoma a origem do personagem-título de modo a priori interessante. O menino, separado da mãe após o feroz ataque de Shere Khan (Benedict Cumberbatch), é resgatado pela formosa pantera conhecida como Bagheera (Christian Bale) e passa a ser cuidado pela alcateia de lobos que domina certa região das florestas indianas. Entretanto, o imenso tigre-de-bengala ameaça os animais, dizendo que quando seu líder cair, ele voltará para terminar o trabalho e se “banhar no sangue do filhote humano”. Com essa breve introdução, fica bem claro que Serkis abandona as partes fabulescas e se torna aprazível à mordaz explicitação e ferocidade dos personagens animalescos. Basicamente, os simbólicos personagens de Kipling, representando as várias instâncias humanas, retornam ao estado de barbaridade como se nunca o tivessem deixado, clamando por uma tensão constante.

Ou ao menos a uma tentativa de tensão; afinal, não apenas a condução fílmica, mas o roteiro abraçado por Callie Kloves passa muito longe da envolvência necessária. Cada frame parece ter sido arrancado de uma inacabada pós-produção, deixando bem clara a distinção entre o que é real e o que foi travestido pelas incompatibilidades do CGI. Como se não bastasse, o fotorrealismo é jogado no lixo em detrimento da criação de figuras animalescas decrépitas, cansadas, quase cadavéricas e saídas de um cenário pós-apocalíptico. Baloo (Serkis) parece ter saído de uma cena de guerra, delineado com uma bocarra escancarada, olhos perdidos e cortes diversos pelo corpo.

O visual do filme em si chega a dar medo – não que isso seja uma coisa boa, pois a ambiência contrasta negativamente com os horríveis diálogos e uma atuação tão canastrona que chega a ser incômoda. Dentro de uma arquitetura quase diabólica, em que a casa de Mogli (Rohan Chand) torna-se seu próprio inferno e motivo para lutar constantemente em busca de respeito e pela sua sobrevivência, poderíamos esperar ao menos uma convicção certeira do aplaudível elenco. Entretanto, Bale é o único que se salva em meio a performances forçadas, vícios gestuais e de fala e um constante apreço pela ruína cíclica. Nem mesmo Cate Blanchett, interpretando a nova versão de Kah, consegue se salvar – aliás, ela é uma das melhores, transformando a serpente em uma falsa representação do que realmente é, com indícios teatrais melodramáticos intangíveis para o arco que possui.

Nem mesmo as cenas de perseguição ou de confronto físico consegue salvar o longa da bomba que realmente é. A configuração desnecessariamente pretensiosa também encontra barreiras nas técnicas artísticas, incluindo fotografia e direção de arte. A falsa impressão de realidade paisagística na verdade não passa de um pífio esforço cuja desilusão é maior que qualquer outra coisa. A quebra do misticismo cinematográfico é instantânea desde os primeiros minutos e em momento algum se recupera, deixando um vazio para o espectador e para os próprios personagens. Mas talvez o que mais nos desaponte seja a completa falta de nexo das relações entre os personagens e seus respectivos objetivos – o único momento em que as coisas se mostram mais compreensíveis é quando Akela (Peter Mullan), o alfa da alcateia, bane o garoto de sua matilha após ter utilizado o fogo para defendê-los – o que, se fomos pensar um pouco, também deixa a desejar como virada construtiva para a obra.

Mogli: Entre Dois Mundos é uma obra autodestrutiva, devorando a si própria num inquebrável círculo de pedantismo e presunção desmedidos. Pessoalmente, achei que não conseguiria encontrar um filme tão ruim quanto o remake de Robin Hood, mas pelo visto estava enganado: não há nada que se salve inteiramente dessa bomba de proporções catastróficas.

Mogli: Entre Dois Mundos (Mowgli: Legend of the Jungle – EUA, 2018)

Direção: Andy Serkis
Roteiro: Callie Kloves, baseado no romance de Rudyard Kipling
Elenco: Christian Bale, Cate Blanchett, Rohan Chand, Andy Serkis, Naomie Harris, Peter Mullan, Jack Reynor, Freida Pinto
Gênero: Aventura, Drama
Duração: 104 min.

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