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O ilustre Monstro do pântano é uma das criaturas mais controversas do expansivo universo DC, e sua série homônima resolveu seguir pelo mesmo caminho ao nos apresentar a um antagonista em potencial cuja ideologia é compreensível. Afinal, ele insurge de uma necessidade de conscientizar as pessoas acerca da progressiva poluição que destrói a natureza – mas não de uma forma autoexplicativa, e sim optando por sutilezas inteligentes e sagazes que contribuem para a constante acepção do público. Por enquanto, o show em questão encontrou um caminho interessante para explorar esses temas, valendo-se de elementos do terror para criar uma atmosfera inebriante e arrepiante de modo competente – quer dizer, até agora.

Com a chegada do terceiro e quarto episódios da primeira temporada – e, ao que tudo indica, a única -, a DC Universe e a Warner Channel cometem seus primeiros deslizes gritantes, recuando consideravelmente o ritmo dos eventos da obscura cidadezinha de Marais para construir subtramas apressadas em detrimento de delinear com mais precisão a narrativa principal. Logo, é apenas natural que fiquemos surpresos quando a criatura, no começo do capítulo intitulado He Speaks, comece a se sentir culpado pelas coisas que fez: os demônios que passam a assombrá-lo insurgem de forma artificial e abrem portas enferrujadas para dois fillers com pouquíssimo desenvolvimento orgânico.

Aqui, um novo monstro emerge das sombras e ameaça caçar o protagonista-título enquanto invade a storyline de outros personagens – incluindo a de Abby (Crystal Reed). Apesar da ambiência emular os clássicos contos de terror da década de 1980 e erguer uma estrutura que honre (ou tente honrar) seus predecessores, a fluidez deixa de existir quando os nós desatados de unem e as pontas soltas são amarradas à força; poucos minutos depois, Abby, mergulhada em seu ceticismo científico, entende que a criatura que a salvou é, na verdade, seu amigo Alec (Andy Bean) – e ela fará de tudo para tentar compreender o que aconteceu com ele e, eventualmente, tentará salvá-lo (como é de praxe dentro de um tour-de-force televisivo).

Não contente o bastante com o andamento das coisas, os criadores Gary Dauberman e Mark Verheiden entregam à audiência um outro “tapa-buracos”, por assim dizer, com o título de Darkness on the Edge of Town. A quarta iteração é um tanto quanto mais precisa, liderada pela competência dramática de Carol Banker na cadeira de direção: novamente, um perigo menos expressivo, porém tão mortal quanto a substância sobrenatural que se espalha no pântano, começa a assolar a vizinhança – mas não causa o tanto de caos que promete no breve prólogo. Aliás, Monstro do Pântano parece se relacionar com sua conterrânea Sleepy Hollow, valendo-se dos mesmos equívocos explanatórios e conseguindo encontrar um novo patamar para “o mais do mesmo”.

De qualquer forma, os episódios não se inteiramente perdidos – apenas se rendem a uma mediocridade que não é comum da DC Universe. Afinal, como bem nos recordamos, Patrulha do Destino e Titãs surpreenderam grande parte do público ao se afastarem por completo das fórmulas já vistas e revistas na televisão contemporânea e auxiliaram na revitalização de um nicho interessante; a série em questão, por sua vez, se restringiu a uma infeliz zona de conforto que não combina com as personas e as tramas que a compõe. O novo vírus apresentado em Edge of Town, por exemplo, tem uma habilidade agonizante de, literalmente, matar as pessoas de medo, levando-as ao suicídio iminente com terríveis ilusões subconscientes; apenas a primeira vítima nos causa choque por sua crueza, e o mesmo não pode ser dito do restante.

É interessante, entretanto, observar de que forma a relação à la A Bela e a Fera se desenrola. Deixando de lado a conhecida Síndrome de Estocolmo, Abby e Alec se veem numa situação nem um pouco convencional, onde diferenças são colocadas de lado e ambos trabalham para salvarem a si mesmos e a Marais – que, de acordo com as premonições nebulosas de Madame Xanadu (Jeryl Prescott), está prestes a ser palco de uma terrível tempestade. De fato, as predileções de Dauberman e Verheiden se isolam numa abstração incompreensível que pouco a pouco dá as caras; o problema é que, dessa forma, a tonalidade fica comprometida e o panorama geral da obra mergulha numa complicada monotonia.

As outras subtramas também perdem um pouco de força quando em comparação com o escopo principal: a relação entre Avery (Will Patton) com o restante da cidade é colocado em segundo plano – e nem mesmo as revelações acerca de seu conturbado passado corroboram para uma compreensão melhor de quem ele realmente é; além disso, Avery e Maria (Virginia Madsen) recuperam os laços de outrora em um estalar de dedos intangível e rechaçável que representa um dos grandes furos da história; a doença, pelo menos, torna-se menos mortal quando Abby entende exatamente o que fazer com os enfermos, mas é tão esquecível quanto o restante da história.

Os dois novos episódios de Monstro do Pântano representam uma queda considerável em sua qualidade – com exceção de pequenas pontualidades de esperança. Entretanto, estamos apenas no começo dessa épica jornada e, se tudo prosseguir como o planejado, a série está apenas fomentando algo que pode se tornar grandioso (e esperamos que realmente se torne).

Monstro do Pântano  – 01×03: He Speaks / 01×04: Darkness on the Edge of Town (Swamp Thing, 2019 – EUA)

Criado por: Mark Verheiden, Gary Dauberman
Direção: Len Wiseman,  Carol Banker
Roteiro: Mark Verheiden, Gary Dauberman, baseado nos personagens de Len Wein e Bernie Wrightson
Elenco: Andy Bean, Derek Mears, Crystal Reed, Maria Sten, Jeryl Prescott, Virginia Madsen, Will Patton, Henderson Wade, Kevin Durand
Emissora: DC Universe
Gênero: Drama, Fantasia
Duração: 45 minutos

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