Monstro do Pântano se tornou uma das séries mais aguardadas do panteão DC quando anunciada há vários meses por inúmeras razões. Uma delas, talvez a principal, era o fato de prometer introduzir o icônico personagem-título dentro do universo super-heroico (ou anti-heroico, caso prefira) da mesma maneira que havia feito com o restante de suas produções. Afinal, Titãs abraçou uma pegada mais sombria e funcionou em sua grande parte, enquanto Patrulha do Destino mergulhava de cabeça no non-sense e na quebra da quarta parede de forma impecável e minuciosamente bem pensada. Logo, considerando o nível dos shows construídos até então, não era nada mais justo que a DC Universe se mantivesse nessa habilidosa onda criativa.

Conforme os episódios foram se desenrolando, percebemos que a série abandonou seu ínfimo prospecto sobrenatural em prol de cultivar uma narrativa aos moldes de qualquer novela tour-de-force fantasiosa de baixo orçamento. Claro que, em se tratando de uma produção televisiva, não poderíamos esperar um escopo grandioso e épico – mas ao menos o roteiro supervisionado por Gary Dauberman e Mark Verheiden, dois competentes nomes da indústria do entretenimento contemporânea, poderia ser tratado com um pouco mais de cautela e esmero. Afinal, agora que entramos de fato na reta final da primeira e única temporada dessa aventura, as coisas se tornam cada vez mais maçantes.

É engraçado, senão infeliz, compreender que as múltiplas subtramas da interiorana Marais são mais envolventes do que o pano de fundo central. Em outras palavras, é notável como a relação impalpável entre Abby Arcane (Crystal Reed) e Alec Holland (Andy Bean) a.k.a. a criatura protagonista caiu nas ruínas do convencionalismo cênico e se tornou cansativa demais mesmo após poucos capítulos. A maior estranheza insurge quando percebemos que Abby automaticamente compreendeu que o monstro era seu colega e não duvidou nem sequer alguns minutos antes de tentar ajudá-lo – e tudo se torna ainda mais impalpável visto que ela, sendo uma cientista, deveria ter uma personalidade um tanto quanto mais cética.

Caso seguisse uma progressão mais crível, o sétimo episódio, intitulado Brilliant Disguise, entraria como o principal ápice da nossa personagem principal; afinal, a principal reviravolta deveria insurgir como um momento de irreversibilidade crônica, em que suas crenças pautadas pela lógica são jogadas no lixo e dão lugar a algo muito mais espiritual e perigoso. Entretanto, quando Abby enfrenta o Verde e a Podridão (as duas entidades sobre-humanas que habitam o cenário principal), cada um dos diálogos e das atitudes dos personagens se move apenas pela ação e reação, num bate-e-volta apressado e que não acrescenta muita coisa para a história principal – talvez com uma breve exceção no capítulo seguinte.

O que monopoliza nossa atenção é a inesperada reverência aos clássicos de mistério que acomete três personas: Maria (Virginia Madsen), Lucilia (Jennifer Beals) e Avery (Will Paton). Em uma emulação dos romances de Agatha Christie, o diretor Alexis Ostrander constrói um microcosmos alheio ao escopo geral, porém sem perder sua identidade dentro da série, em que Lucilia e Maria se unem para destruir Avery de uma vez por todas. Em um simples arco começo, meio e fim, a funcionalidade dessa subtrama encontra espaço de sobra para não se tornar saturada, desnecessária e, de quebra, acrescentar muito mais à complexidade que faltava à produção. Qual é nossa surpresa quando o plano é finalmente desvendado sem forçosamente buscar por um pedantismo catártico – e deixar para trás um cliffhanger aplaudível e chocante.

Levando em conta sua breve duração, podemos considerar os momentos supracitados como a desconstrução de um filler cuja praticidade é fruto de suas restrições e seus corolários. Porém, quando E.L. Katz assume o projeto em Long Walk Home, tenta alcançar o mesmo patamar e falha em quase todos os aspectos, exceto pelo momento em que acrescenta uma pitada de thriller ao esquecido Harlan (Leonardo Nam), que já provou existir apenas como suporte para Abby. Katz, assim como alguns diretores que já participaram da equipe do show, também opta por identidades imagéticas que mais se assemelham a soap operas do que dramas televisivos, perdendo o fio da meada enquanto tenta encaixar revelações e promessas vazias dentro de conversas desmedidas.

Todavia, não podemos tirar mérito da constante e agonizante atmosfera de insanidade que ambos os episódios cultivam para o futuro próximo. Ainda que o primeiro gancho se engesse numa esfera medíocre, a captura de Alec pelos homens de Avery e de Jason (Kevin Durand), por mais previsível que seja, desenrola-se em uma incompreensível e tensa sequência que nos arremessa de volta para os atemporais longas-metragens de terror dos anos 1980 – com um twist modernizado.

No momento em que a narrativa principal deixa a desejar e começa a dar espaço para os arcos secundários e personagens coadjuvantes, percebemos que algo não está exatamente correto. O aspecto intrigante de Monstro do Pântano, transferido para momentos que ganham cada vez mais palanque em detrimento de uma credibilidade acentuada, mostrou-se mais que urgente, principalmente agora que caminhamos para o season finale. E, se Abby e Alec não retomarem as rédeas de sua própria jornada, o que poderia ser mais uma joia da DC Universe pode se tornar uma infeliz tragédia seriada.

Monstro do Pântano  – 01×07: Brilliant Disguise / 01×08: Long Walk Home (Swamp Thing, 2019 – EUA)

Criado por: Mark Verheiden, Gary Dauberman
Direção: Alexis Ostrander, E.L. Katz
Roteiro: Mark Verheiden, Gary Dauberman, baseado nos personagens de Len Wein e Bernie Wrightson
Elenco: Andy Bean, Derek Mears, Crystal Reed, Maria Sten, Jeryl Prescott, Virginia Madsen, Will Patton, Henderson Wade, Kevin Durand
Emissora: DC Universe
Gênero: Drama, Fantasia
Duração: 42 minutos