Se Monstro do Pântano prometia se consagrar como uma das melhores séries da DC Universe, então vem falhando completamente nas últimas semanas. Afinal, já faz algum tempo que a série criada por Mark Verheiden e Gary Dauberman está se rendendo a fórmulas tão baratas do storytelling televisivo que não se assemelha nem um pouco aos primeiros episódios. Aqui, a icônica jornada do personagem titular mais parece uma cópia das melodramáticas soap operas norte-americanas do que realmente uma obra seriada que é responsável por trazer à vida uma das figuras mais misteriosas e temidas do incrível panteão super-heroico.

Desde o princípio, a temporada de estreia da série buscava entregar uma história de origem sem perder a mão de algumas interessantes subtramas que, obviamente, também apareceram até agora. Se analisarmos de modo cronológico o arco principal da narrativa, perceberemos que tudo segue conforme um unidimensional arco que deu vida à criatura pantanosa, a uniu juntamente com a protagonista humana Abby Arcane (Crystal Reed) e atraiu a atenção tanto de aliados quanto de antagonistas mercenários cegos pela ambição – encarnados por Avery Sunderland (Will Patton) e Jason Woodrue (Kevin Durand). Apesar da lógica extremamente óbvia, a construção da primeira iteração se fundava com minúcia numa praticidade cênica que abriria portas para um futuro promissor; entretanto, quanto mais nos aproximamos do season finale, mais percebemos o motivo dos executivos da Warner Television terem encerrado tão cedo essa épica aventura.

Como visto nos capítulos anteriores, o conturbado e perigoso relacionamento entre Abby e Alec (Andy Bean) passou por diversos problemas e quase tirou a vida da doutora. Agora, as coisas ganharam uma dimensão mais mortal e complexa na qual os habitantes da sombria Marais começaram a ter ciência da existência de uma figura inexplicavelmente sobrenatural que habita as águas do pântano. Não é surpresa que Woodrue tenha canalizado esforços ao lado de seu empregador e capturado sua presa para levá-lo a estudos sobre sua incrível capacidade regenerativa. O problema é que, numa perspectiva geral, nenhuma das novas investidas na direção e no roteiro são suficientemente bem empregadas para nos comover; na verdade, cada um dos blocos se move com pressa excessiva, sem se atentar às falhas que se fundem em uma bola de neve irrefreável.

Por um lado, temos a bizarra sequência em que Woodrue examina Alec e descobre que ele, na verdade, não é a simbiose de duas espécies diferentes, mas sim a extensão de uma: ao que tudo indica (e que é confirmado nos últimos segundos do episódio), o corpo de Holland permanece no fundo do pântano, enquanto os componentes naturais daquele território construíram um receptáculo ambulante e pensante que apenas vive na ilusão de ser um humano, ou seja, uma versão “atualizada” do falecido pesquisador. De outro lado, Abby e Liz (Maria Sten) partem numa missão para resgatar Alec e desmascarar os verdadeiros objetivos de Avery e sua corja de patrocinadores e investidores – coisa que, eventualmente não funciona.

Nem mesmo os esforços de Verheiden e Dauberman são notáveis aqui; pelo contrário, a construção narrativa auxiliada por Noah Griffith serve como redundante espelho para a superficial condução diretorial de Michael Goi, que nos surpreende em uma infelicidade de escolhas estéticas que não condizem com sua extensa filmografia (ele é o principal diretor de fotografia da aclamada antologia American Horror Story). Cada um dos frames poderia ser tirado de um drama meia-boca qualquer: nem mesmo o jogo de campo-contracampo é crível o suficiente para nos aglutinar dentro daquele universo. O resultado incoerente é rechaçável o bastante para que encaremos esse capítulo como algo solto que não condiz nem mesmo com a identidade imagética que nos foi apresentada anteriormente.

As tramas de apoio também perdem força e deixam um gostinho agridoce de incompletude. Para aqueles que não se recordam, as duas semanas anteriores foram responsáveis por criar um dos parcos momentos em que a série retornava à ambiência de tensão e suspense com uma reviravolta aplaudível envolvendo Avery, Maria (Virginia Madsen) e Lucilia (Jennifer Beals). Aqui, a diabólica e deliciosa atmosfera é praticamente jogada no lixo em prol de conclusões desnecessárias e apressadas que abafam, por ora, a falta de vontade provinda da equipe criativa em arquitetar relações de causa e consequência que realmente carreguem uma preocupação artística consigo.

Nem mesmo as atuações, outrora hábeis e catárticas, se salvam de tantos erros. Patton e Madsen, que já haviam perdido a química algum tempo atrás, mas funcionavam em suas devidas esferas, se entregam a canastrices tão artificiais que chega a ser difícil acompanhá-los durante muito tempo; a articulação excessiva de Durand beira o risível; e Sten se posta em uma triste inexpressividade que não conversa com a personalidade de sua personagem. Os únicos a conseguirem ir um pouco além – e isso não significa algo a ser relembrado – são Reed e Bean (e isso apenas com a chegada do terceiro ato).

Monstro do Pântano caminha para seu season finale com o pé esquerdo e não cultiva expectativas o suficiente para que acompanhemos o final repentino da saga de Alec Holland e Abby Arcane. Não sabemos o que esperar do último episódio – e nem mesmo se os showrunners serão capazes de amarrar todas as pontas soltas sem divagações ocasionais e sem resoluções sem nexo.

Monstro do Pântano  – 01×09: The Anatomy Lesson (Swamp Thing, 2019 – EUA)

Criado por: Mark Verheiden, Gary Dauberman
Direção: Michael Goi
Roteiro: Mark Verheiden, Gary Dauberman, Noah Griffith baseado nos personagens de Len Wein e Bernie Wrightson
Elenco: Andy Bean, Derek Mears, Crystal Reed, Maria Sten, Jeryl Prescott, Virginia Madsen, Will Patton, Henderson Wade, Kevin Durand
Emissora: DC Universe
Gênero: Drama, Fantasia
Duração: 45 minutos

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