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Crítica | Mulan – Remake live-action garante bom épico de ação

Lançado originalmente como um filme de animação em 1998, Mulan sempre foi uma das melhoras obras originais da Disney, mas curiosamente uma que não tinha a mesma popularidade ou sucesso de outros filmes cultuados, como A Pequena Sereia, A Bela e a Fera ou O Rei Leão. O tempo fez bem para o filme de Tony Bancroft e Barry Cook, e em tempos onde Hollywood aposta em longas de ação com protagonistas femininas e de etnias diversas, Mulan era um candidato óbvio para se juntar à safra de remakes em live-action que marcaram a década passada para o estúdio bilionário de Walt Disney.

Em meio a uma pandemia que sacudiu as estruturas do mundo todo, e até agora força a indústria a se reinventar, a nova versão de Mulan chega com um impacto diminuído, já que seu lançamento nas telonas foi diminuído para uma opção de locação premium (com o preço salgado de US$30) no Disney+, serviço de streaming próprio da empresa. Ainda assim, mesmo com esse lançamento bem menos glamouroso, o capricho desta nova versão não merece passar despercebido. 

Preferindo se basear mais na lenda chinesa original do que no clássico animado, o roteiro assinado pela dupla Rick Jaffa e Amanda Silver (dos novos filmes de Planeta dos Macacos), além das novatas Elizabeth Martin e Lauren Hynek, mantém a premissa básica de uma ameaça chegando ao Imperador da China (Jet Li), que exige que cada família da dinastia ofereça um filho como guerreiro. A fim de proteger seu pai doente, Hua Mulan (Liu Yifei) se passa por um homem para se juntar ao exército, que tenta conter a invasão do temível Boris Khan (Jason Scott Lee) e sua aliada, a bruxa Xianniang (Li Going).

O texto do quarteto segue uma fórmula básica de aventura e o clássico arquétipo de Joseph Campbell sobre o herói que deixa sua zona de conforto para embarcar em uma jornada fantástica. É fácil prever todas as viradas e passos seguintes de história, mesmo para quem nunca assistiu a animação; afinal o atual modelo da Disney de humanizar antagonistas já está se tornando um tanto manjado, assim como a clássica ideia de um personagem que precisa esconder seu poder por temer as consequências de seu uso no mundo real. Há um conflito bem mais próximo da Elsa de Frozen para Mulan, o que pode surpreender alguns dos fãs, mas que é executado com competência.

Toda a dinâmica de Mulan se passando por um soldado masculino em meio ao exército funciona com eficiência, tal como na animação, já que a encenação e o ritmo imposto pela direção garantem uma experiência ágil e que nunca parece se arrastar, beneficiando-se também de bons coadjuvantes, como o sempre divertido Donnie Yen e o carismático Yoson An. No eixo antagonista, Jason Scott Lee faz o possível para soar “maléfico” e “mais maléfico” a cada aparição, ao passo em que Li Going se mostra muito mais interessante com sua vilã, que tem bons tons de cinza em sua composição.

O que torna este novo Mulan realmente digno da visita é todo seu aspecto visual deslumbrante. Dirigido por Niki Caro (dos dramas Terra Fria e O Zoológico de Varsóvia), esta é sem dúvida uma das produções da Disney que mais impressiona em escala e execução cinematográfica, especialmente se a compararmos com a execução pragmática de outros remakes live-action de clássicos animados, vide o divertido Aladdin e o péssimo A Bela e a Fera. A estética vista no trabalho do design de produção e nos figurinos é notável, especialmente pela mistura de uma abordagem mais “histórica” e derivativa do épico gritty à lá Game of Thrones, com tons mais coloridos e cartunescos, remetendo não apenas à animação original, mas também a exemplares do cinema chinês de ação do Wushu, como O Tigre e o Dragão.

E por falar em Wushu, Caro claramente fez o dever de casa, já que oferece uma execução vibrante para as principais cenas de batalha do longa. Tanto pela coreografia, que usa e abusa de cabos, saltos exagerados e golpes elaborados de espada, até sua câmera que adota slow motion e viradas de eixo espetaculares, o trabalho de ação em Mulan é digno de nota, e não deixa a desejar em comparação com outros exemplares do gênero.

Infelizmente, talvez o grande comprometedor deste novo Mulan seja sua própria personagem-título. Estrela em ascensão na China, e agora com um papel que praticamente construiria sua carreira em Hollywood, Liu Yifen falha ao trazer algum carisma ou personalidade notável para esta Mulan, que nunca parece ter seu conflito interno (ou externo) realmente bem explorados pela atriz – que surge inexpressiva até mesmo nas cenas de ação.

No que diz respeito a remakes live-action de clássicos animados da Disney, a Mulan de Niki Caro facilmente se destaca como um dos melhores exemplares, justamente por preferir a homenagem a um gênero específico do que se prender fielmente à tradições do original. Apesar do roteiro previsível e da protagonista fraca, Niki Caro entrega um bom e caprichado épico de ação.

Mulan (2020, EUA)

Direção: Niki Caro
Roteiro: Amanda Silver, Rick Jaffa, Elizabeth Martin e Lauren Hynek
Elenco: Liu Yifei, Jet Li, Jason Scott Lee, Li Going, Donnie Yen, Yoson An, Tzi Ma, Rosalind Chao
Gênero: Ação, Aventura
Duração: 115 min

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Publicado por Lucas Nascimento

Estudante de audiovisual e apaixonado por cinema, usa este como grande professor e sonha em tornar seus sonhos realidade ou pelo menos se divertir na longa estrada da vida. De blockbusters a filmes de arte, aprecia o estilo e o trabalho de cineastas, atores e roteiristas, dos quais Stanley Kubrick e Alfred Hitchcock servem como maiores inspirações. Testemunhem, e nos encontramos em Valhalla.

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