O nome Laika pode não soar muito familiar, mas certamente suas produções já devem ter passado por sua vida. A empresa de animação é responsável por alguns dos projetos mais interessantes e mais brilhantes da indústria cinematográfica, e carrega em seu currículo impecável obras como A Noiva Cadáver, Coraline e o Mundo Secreto e, mais recentemente, Kubo e as Cordas Mágicas – todos esses indicados inclusive para o Oscar em seus respectivos anos. E agora, Chris Butler, um nome bastante familiar dentro da produtora, insurge em sua segunda colaboração como diretor com o envolvente e aventureiro O Elo Perdido, que consegue unir as mais diversas mitologias em um único só lugar.

Ora, é claro que brincar com as clássicas epopeicas já não emerge com grande surpresa no cinema contemporâneo. Afinal, a própria Laika já ousou nos apresentar sua própria perspectiva com mundos estranhos e bizarros, eventos sobrenaturais e histórias aplaudíveis que resgataram o melhor da clássica “jornada do herói” – seja na figura da jovem Coraline ou do conturbado Norman (ParaNorman), ambos exilados socialmente que encontram conforto nos mais inesperados lugares. Entretanto, em sua mais nova produção, a companhia resolve resgatar alguns temas estéticos e narrativos do filme arquitetado junto a Tim Burton – mesmo que não se respalde com tanta força assim no obscurantismo expressionista e resolva explorar múltiplas vertentes em um mesmo campo semântico.

A trama gira em torno do famoso explorador de criaturas míticas, Sir Lionel Frost (Hugh Jackman) e sua busca pela fama e pela credibilidade dentro da high society. Sua presença já automaticamente nos incita a fazer suposições sobre sua personalidade – a priori, um charlatão, mas depois um homem que luta contra todas as adversidades para conseguir o que deseja, sem passar por cima dos outros. Esse é o primeiro tema com o qual entramos em contato, delineado entre duas forças opostas: Lionel e o Lorde Piggot-Dunceby (Stephen Fry), membro do alto-escalão e responsável por decidir quem pertence ou não ao grupo dos “homens de ótima qualidade”. É claro que tal distinção segregadora não é tratada com o costumeiro cientificismo, e sim ganha um escopo didático e acidamente bem-humorado que contribui para o dinamismo e a conexão com o público – seja lá de qual faixa etária for.

Lionel coloca sua reputação em xeque quando enfrenta o Lorde, partindo para as florestas do noroeste pacífico em busca do temível Sasquatch, também conhecido como Pé-Grande. A partir daqui, pelo menos à prima vista, é meio óbvio imaginarmos o que pode acontecer – afinal, estamos falando de uma trama que tem como principal foco criaturas fantásticas. Monstros, por assim dizer. E tudo segue uma linha bastante convencional até o momento em que o explorador se encontra com a criatura e a primeira grande virada ganha vida. O Pé-Grande, interpretado por Zach Galifianakis, é na verdade um indivíduo bastante civilizado, dotado de uma habilidade de fala incrível e com uma etiqueta maior até mesmo que os homens que se consideram superiores.

Sr. Link (como fica conhecido o Sasquatch após seu encontro com Lionel, apenas para mais tarde se renomear “Susan”) tem um desejo intrínseco de pertencimento a algum lugar. Afinal, como ele próprio diz, as metrópoles e o domínio humano cresce, enquanto seu habitát natural desaparece. Link cada vez mais se sente solitário e busca fugir daquela espécie de prisão para um lugar longínquo, conhecendo o mundo enquanto procura por seus semelhantes – e, ao que tudo indica, Frost é a pessoa certa para fazer com que isso aconteça. Suas incríveis habilidades exploratórias o levaram a tomar conhecimento do famoso e onírico Shangri-La, um reino místico lar dos Yetis, onde provavelmente o Sasquatch seria recebido de braços abertos.

Mas é claro que as coisas não seriam tão fáceis assim e, numa tentativa de impedir que Lionel susceda, Dunceby contrata o assassino Willard Stenk (Timothy Olyphant) para matar o aventureiro e trazer, como prova de sua fidelidade ao Lorde, a cabeça de Link. E é nesse pano de fundo deliciosamente bem arquitetado que o filme se estrutura e, no final das contas, insurge como uma das melhores animações dos últimos anos – algo que já é de praxe para a reputação da Laika. Butler traz todas as suas habilidades artísticas para as telonas, concentrando-as na produção de um stop-motion verdadeiro e natural, afastando-se do pedantismo cênico que certas obras do gênero carregam consigo.

Além disso, é visível a preocupação do diretor em nos transportar direto para o século XIX e de que forma as múltiplas ambientações vão de encontro umas às outras ao mesmo tempo que se completam. A paisagem urbana cinzenta e chuvosa, lar de uma praticidade infernal, entra em paradoxo com o colorido de territórios nunca antes explorados – até mesmo do lar dos Yetis, que se localiza enterrado entre os picos nevados do Nepal. Essa estruturação pode até nos apresentar a lugares novos e fantásticos, mas é nutrido com uma verossimilhança que até então não existia em outras obras da produtora. Afinal, Coraline Jones vivia em um mundo à parte, num casarão lar de uma passagem para uma espécie de refúgio; Norman Babcock lutava para levantar todos os dias em seu pequeno vilarejo, amaldiçoado por uma bruxa centenária; e até mesmo Kubo, ainda que resgatasse uma identidade nipônica, lançou-se numa aventura sobrenatural, cruzando o limiar entre o real e o imaginário.

De qualquer forma, a fertilidade criativa de seus respectivos diretores corria solta nas telas, diferente do que ocorre aqui – e não tiro mérito de Butler, muito pelo contrário. O claro perigo era abrir margens para explicações monótonas demais, o que não acontece aqui. Conforme citado acima, é o didatismo e a presença de um humor inteligente e propositalmente autoexplicativo e irreverente que fornecem o brilho necessário para que o longa ganhe credibilidade e transforme-se em uma epopeia envolvente e bastante aprazível.

Porém, não podemos dizer que a história não cede à tentação dos excessos. Como forma de aumentar o dinamismo supracitado, temos a presença de um breve e supérfluo início de relacionamento romântico entre Lionel e Adelina (Zoe Saldana), cujo passado é bastante remoto, ainda que não ganhe muitas explorações por aqui. Na verdade, Adelina serve como consciência e “guia espiritual” para os protagonistas, mas tem um peso um tanto quanto desnecessário para a continuidade dos eventos principais. Entretanto, é interessante observar como esse equívoco é mínimo em meio a tanto charme estético e narrativo.

O Elo Perdido é mais um acerto da Laika e reafirma novamente o nome da produtora como uma das mais proeminentes da indústria contemporânea. O filme ganha um lugar especial por se afastar das produções anteriores e nos apresentar a uma mítica e mais amadurecida jornada, sem abandonar sua inocência ou sua capacidade de nos encantar.

O Elo Perdido (Missing Link – EUA, 2019)

Direção: Chris Butler
Roteiro: Chris Butler
Elenco: Hugh Jackman, Stephen Fry, Zach Galifianakis, Zoe Saldana, Emma Thompson, David Walliams
Gênero: Drama, Terror
Duração: 95 min.