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Crítica | O Escândalo – O Que se Esconde na Superfície

Em 2016, o magnata da comunicação Roger Ailes, responsável por dar vida a um dos maiores impérios televisivos da história (a Fox News), era retirado de sua intocável posição ao ser denunciada com inúmeras alegações de abuso sexual por parte de inúmeras funcionárias da corporação – incluindo várias âncoras dos programas diários e assistentes. Não demorou muito para que as revelações por parte do extenso time do canal se tornassem cada vez mais sombrias, delineando os múltiplos controles dos quais Ailes se dispunha para garantir que todos se submetessem a ele – e permanecessem ao seu lado não importasse o que aconteceria. Eventualmente, ele foi afastado do cargo e a agonizante narrativa foi levada para os cinemas neste ano com o lançamento de O Escândalo.

Dirigido por Jay Roach e escrito por Charles Randolph, o longa-metragem, assim como todas as versões cinematográficas de histórias reais, ganhou uma repaginação “romantizada” e didática, que seguiu os passos de outros dramas verídicos: entretanto, diferente da abordagem feita por obras como A Grande Aposta (acerca da crise financeira de 2008 nos Estados Unidos) e Spotlight – Segredos Revelados (sobre os escândalos de pedofilia da Igreja Católica), esta investida fílmica permaneceu atada demais à superfície e preferiu canalizar seus esforços para um estelar elenco em detrimento de explorar ainda mais temas pungentes e necessários para compreensão de temas importantes à atualidade (como sexismo, machismo, abuso de poder e assédio).

No geral, a produção é aprazível o suficiente para nos fazer torcer pelas protagonistas, que insurgem nos nomes das âncoras Megyn Kelly (Charlize Theron) e Gretchen Carlson (Nicole Kidman), e da recém-promovida ao “segundo andar” Kayla Pospisil (Margot Robbie). Já de cara, o roteiro permite uma humanização considerável dessas personas e não as isenta de terem seus próprios problemas: Megyn recusa a se intitular feminista e prefere acobertar as coisas que acontecem dentro dos quartéis-generais da Fox; Gretchen nutre de uma competitividade absurda que reflete o atrito gerado entre ela e os membros de sua equipe; Kayla, por sua vez, é uma republicana evangélica cujos pensamentos são extremamente conservadores. Entretanto, o trio acaba convergindo para uma mesma necessidade de se expressar e de não ter sua voz diminuída por figuras predadoras.

Desde o princípio, o diretor deixa claro que não está tomando nenhum lado partidário e, longe de se resvalar em concepções panfletárias, apresenta o ocorrido dos fatos – fornecendo múltiplas versões do mesmo enredo. As três personagens principais narram os acontecidos e por vezes quebram a famigerada quarta parede como forma de se aproximar do público e desconstruir quaisquer tensões técnicas que sejam transpostas para as telas. Megyn é a primeira a ganhar sua voz, vendo-se num turbilhão emotivo ao sofrer um backlash extremo depois de atacar o candidato à presidência Donald Trump.

Logo depois, Gretchen, que reclamava o tempo todo sobre o assédio velado que sofria ao vivo em seu programa principal, foi deixada de lado para um quadro com baixíssima audiência e alfinetada constantemente por Roger. Não demorou muito para que ela fosse demitida e, como consequência, abriu a primeira alegação de assédio contra seu ex-chefe – que transformou-se em um barril de pólvora prestes a explodir. É claro que poucas pessoas acreditaram nela, mas depois que outras seis mulheres também se abriram sobre os métodos antiéticos de Aisle, as coisas se tornaram cada vez mais obscuras: afinal, o chefão da Fox sempre contratava mulheres magras, altas e dentro de um padrão de beleza específico, as quais eram obrigadas a usar saias ou vestidos curtos para que suas pernas ficassem a serviço do público.

Roach cria uma atmosfera estética que não sabe muito bem em que direção seguir: o enredo é sólido o bastante para nos manter vidrados do começo ao fim, ainda mais auxiliado por performances aplaudíveis de cada membro do elenco. Todavia, é visível como o cineasta tenta se aproximar de uma identidade documentária, transformando os cortes e os enquadramentos em uma cotidiana análise dessa corporação comunicativa – apenas para voltar-se, pouco depois, para um drama qualquer. Apesar dos claros deslizes, é inegável dizer que Roach busca por uma estrutura palpável o suficiente e explicativa o bastante (sem cair em redundâncias) para resumir esse trágico acontecimento.

Mais uma vez, são as atuações que nos roubam a atenção – e o modo como cada uma das protagonistas é moldada de forma irreconhecível: Theron, Kidman, John Lithgow (que dá vida a Roger) e até Allison Janney (que interpreta a advogada de Ailes, Susan Estrich) mergulham em papéis competentes, com arcos bem desenvolvidos e nunca se voltam às obviedades. Mesmo assim, é Robbie quem vem à tona em sua rendição espetacular, que passa longe de tangenciar o melodrama novelesco e é nutrido por um naturalismo obsessivo, mostrando que a atriz vem pavimentando um caminho de puro sucesso (ainda mais depois de estrelar os aclamados Eu, Tonya e Era Uma Vez em… Hollywood).

Se encarado como uma apresentação sistemática e atenuada de um evento não muito remoto, O Escândalo funciona quando encarado como um todo; porém, se é algo mais profundo que você busca, sinto lhe dizer que é provável que se decepcione – e é melhor mesmo ler os artigos publicado pela New York Times.

O Escândalo (Bombshell– Estados Unidos, 2019)

Direção: Jay Roach
Roteiro: Charles Randolph
Elenco: Charlize Theron, Nicole Kidman, Margot Robbie, Kate McKinnon, John Lithgow, Allison Janney, Alice Eve, Liv Hewson, Connie Britton
Duração: 108 min.

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Publicado por Thiago Nolla

Thiago Nolla faz um pouco de tudo: é ator, escritor, dançarino e faz audiovisual por ter uma paixão indescritível pela arte. É um inveterado fã de contos de fadas e histórias de suspense e tem como maiores inspirações a estética expressionista de Fritz Lang e a narrativa dinâmica de Aaron Sorkin. Um de seus maiores sonhos é interpretar o Gênio da Lâmpada de Aladdin no musical da Broadway.

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