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O Mundo Sombrio de Sabrina sem dúvida alguma foi uma das grandes surpresas do ano. Baseado nos quadrinhos homônimos da Archie Comics, o showrunner Roberto Aguirre-Sacasa conseguiu se superar em relação a seus trabalhos anteriores e mergulhou em um mundo sobrenatural, repleto de magia, traições e tramoias inesperadas para dar uma repaginada na figura adolescente e inocente de Sabrina Spellman, talvez se aventurando em resgatar alguns elementos da série apenas para desconstruí-los e remontá-los em uma perspectiva arrepiante. Com apenas uma temporada, a série tornou-se uma das favoritas dos usuários da Netflix e já está causando bastante rebuliço quanto à chegada do novo ano, marcado para abril de 2019.

De qualquer forma, Aguirre-Sacasa não nos deixaria sedento por mais jornadas místicas e fabulescas por muito tempo. Tal qual foi nossa alegria quando ele anunciou um pequeno especial de Natal que, conhecendo bem o escopo no qual Sabrina e seu grupo se meteriam, se assemelharia muito mais a um Halloween de fim de ano que qualquer outra coisa. Porém, apesar dos muitos pontos positivos, não posso fazer vista grossa e devo dizer que o episódio em si, intitulado Um Conto de Inverno, deixou a desejar em diversos aspectos, principalmente no tocante à narrativa. Mesmo com o elenco voltando em sua plena forma, as tramas principais parecem convencionais demais e mal exploradas, renegando o incrível potencial da série e preferindo brincar com resoluções do estilo deus ex machina em detrimento de algo maior e mais original.

Sabrina (Kiernan Shipka) permanece lidando com inúmeras mudanças em sua vida, tanto bruxa quanto mundana, por ter assinado seu nome no Livro de Satã e abraçado a escuridão e também por ter se aberto a seus amigos sobre sua verdadeira natureza. Desde os primeiros minutos, a garota se prende em um repetitivo ciclo de “o que devo fazer agora?”, principalmente no que diz respeito a seu relacionamento com Harvey (Ross Lynch), talvez finalizado, talvez à beira de um precipício. E é durante as festividades natalinas que ela decide contatar sua mãe, Diana (Annette Reilly), presa no limbo por seus assuntos inacabados quando em vida, e perguntar-lhe o que fazer.

É claro que o Aguirre-Sacasa e o diretor Jeff Woolnough aproveitariam a época para explorar o que conseguissem acerca da cultura celta, incluindo certas explicações bem didáticas sobre o Yule, comemorado no solstício de inverno no Hemisfério Norte, e que deu origem ao Natal como o conhecemos. Mesmo sendo avisada por sua tia protetora e sarcástica Zelda (Miranda Otto), Sabrina se reúne com suas amigas e realiza o ritual, atraindo o espírito da mãe para seus aposentos e tentando extrair o máximo de informações. O problema é certas pessoas não muito confiáveis, como a figura da Srta. Wardwell (Michelle Gomez), que descobrimos ser a mãe dos demônios e arauta do Senhor das Trevas, Lilith, não quer que a menina suceda nessa empreitada e faz com que suas tentativas sejam atrapalhadas pela entrada de outros fantasmas na casa.

Talvez seja nesse ponto que as coisas comecem a desandar. Woolnough trabalha bem o aspecto estético do episódio, talvez até mesmo abandonando alguns vícios imagéticos, como o blur excessivo dos capítulos anteriores, preferindo algo mais novelesco e melodramático – compreensível, até, ainda que sentimental por demais. Mas o roteiro frenético não prepara o território com cautela suficiente para cultivar o máximo possível, mantendo-se na superfície e no safezone formulaico. Os espíritos em questão não apresentam nenhuma ameaça conforme a trama se desenrola, e nem mesmo sua mestra, Gryla (Heather Doerksen), traz mais profundidade ou terror para a cena.

A trama paralela, que traz um diabólico ser infernal travestido de Papai Noel e que rapta Susie (Lachlan Watson) para transformá-la em um boneco de cera, é esquecível e monótona. Uma suposta batalha entre dois demônios certamente traria um pouco mais de animação para o episódio, mas a opta-se por manter o público alheio ao que realmente acontece. De qualquer forma, a maioria dos personagens mantém-se na linearidade e parece funcionar como um fragmento perdido da temporada, achado apenas para tapar alguns buracos ou realizar um especial às pressas, sem muita necessidade.

Entretanto, Shipka e Otto, ao lado também de Lucy Davis, que encarna a outra tia de Sabrina, Hilda, roubam o foco mais de uma vez, aprofundando a complexidade de suas personagens e entregando-se de corpo e alma, mais uma vez. Até nas sequências mais forçadas, como o breve embate entre Zelda e Gryla, Otto mostra sua versatilidade e prova que há muito mais para ser visto e compreendido do que nossos olhos conseguem ver. Algumas questões permanecem sem resposta, como o que realmente aconteceu entre a tia e a mãe da adolescente, ou qual foi o destino de Diana após contatar e filha e revelar seu assunto pendente no mundo dos mortais – o que esperamos ser explicado com mais precisão na próxima temporada.

Para aqueles com grande expectativa, Um Conto de Inverno tem grandes chances de decepcionar. Àqueles que se mantiveram sem um hype elevado, o capítulo pode até ter agradado e insurgido de modo coeso para o universo dos Spellman. Mas de qualquer forma, o especial de Natal não faz jus à série e definitivamente não faz jus ao que poderia ter sido.

O Mundo Sombrio de Sabrina: Um Conto de Inverno (The Chilling Adventures of Sabrina: A Midwinter’s Tale – EUA, 2018)

Direção: Jeff Woolnough
Roteiro: Roberto Aguirre-Sacasa, Donna Thorland
Elenco: Kierna Shipkan, Miranda Otto, Ross Lynch, Lucy Davis, Chance Perdomo, Michelle Gomez, Jaz Sinclair, Tati Gabrielle, Richard Coyle
Gênero: Suspense, Drama
Duração: 65 min.

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