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Crítica | O Que Ficou Para Trás – As Alegorias do Terror Psicológico

Com Spoilers

O terror O Que Ficou para Trás estreou no começo deste ano no Festival de Sundance e conquistou o coração da crítica como um filme do gênero não fazia há algum tempo. A obra é a história diretorial de Remi Weekes e gira em torno de um casal de refugiados que, depois de conseguir escapar das guerras civis do Sudão do Sul, conseguiu uma casa em Londres como forma de recomeçar uma vida marcada pela guerra e por traumas assombrosos. Entretanto, uma força sobrenatural se esconde nas paredes maciças do sobrado e ameaça colocar tudo o que alcançaram em xeque – a não ser que encontrem uma forma de impedi-la.

No geral, o longa é bastante funcional e faz o máximo de esforço para se afastar dos convencionalismos de tantas obras similares – e alcança seu objetivo em grande parte, apesar de falhar em construir um ritmo conciso o bastante para nos prender do começo ao fim. De qualquer forma, as metáforas escondidas por trás da trajetória dos protagonistas e a exploração de uma cultura sul-africana que normalmente é escondida perante o imperialismo do entretenimento eurocêntrico insurgem como reviravoltas interessantes e um tempero a mais do que esperaríamos de uma construção como esta – permitindo que os arcos sejam infundidos com profundidade apaixonante e uma densa e angustiante atmosfera.

Logo de cara, percebemos que o enredo em primeiro plano será diferente do que estamos acostumados a ver – ainda mais com a exímia direção de Weekes, que causa uma impressão e tanto, colocando-o no radar para futuros produtores que queiram colaborar com ele. O cineasta captura com magistral competência a essência do cotidiano dos refugiados de guerra que lutam, a todo custo, por uma saída segura de sua terra natal e por uma centelha de esperança num prospecto assolado por negativismo e por preconceito. É nessa ambiência que surgem Rial (Wunmi Mosaku) e Bol (Sope Dirisu), casal que perde a filha na travessia do mar em direção à Inglaterra e que fica detido num centro de imigrantes ilegais até serem liberados em condicional. Ainda carregando fantasmas que amedrontam seus sonhos, eles tentam ao máximo transformar uma casa aos pedaços num lar.

Em dado momento, Rial e Bol percebem que nem tudo é o que parece ser e que uma criatura espreita na escuridão, pronta para atacar quando os dois estiverem fracos e rendidos ao medo. Entretanto, os crescentes eventos não atuam com a mesma força sobre os dois personagens – preferindo, desse modo, tratá-los como duas peças distintas de um mesmo jogo de xadrez. Weekes até mesmo pega algumas páginas emprestadas da literatura gótica para incrementar a complexidade das personas, colocando Rial em congruência com os espíritos que a observam na calada da noite, enquanto Bol segue o padrão esperado de alguém que deseja esquecer o passado.

Talvez o título, tanto em inglês quanto em português, refira-se a coisas distintas a princípio, mas que se unem em uma evocação melodramática sobre o que significa a expressão “seguir em frente”: Bol abraça a cultura anglófona e, de alguma forma, ainda que inconscientemente, abandona quem realmente é em prol de “se encaixar” numa sociedade que, de forma bem clara, não está disposta a aceitá-los; Rial, por sua vez (encarnada por Mosaku com visceralidade chocante e um respeitoso retrato que engloba a comunidade que representa), se martiriza o tempo todo por ter deixado a jovem Nyagak (Malaika Abigaba) se afogar no oceano. Os dois, em discordância, também são unidos por um conhecimento em comum – a existência de um apeth (bruxo da noite, na cultura sudanesa) que os seguiu desde sua saída da África.

Conforme a narrativa se desenrola, o público percebe que o casal protagonista está longe de ser um arquétipo heroico de pessoas que sobreviveram às atrocidades da guerra – pelo contrário: sendo vítimas de uma força incontrolável, eles fizeram o necessário para embarcarem num bote improvisado e cruzar o Pacífico em busca de um recomeço, até mesmo afastando uma filha de sua mãe para conseguir transporte às terras inglesas. Perdendo-a após um acidente, o apeth os perseguiu com ameaças mortais, dizendo que aquela casa não pertence a eles, e sim àqueles que deveriam ter ido em seu lugar – algo concisamente alegórico para explicar as aparições que os amedrontam do começo ao fim (e que passa longe de esbarrar nas tendências novelescas que o filme poderia ter tomado).

Emblemática é a frase que resume o filme – “depois do que eu vi o homem fazer, você acha que barulhos à noite me assustam?”. Mais do que isso, esse breve diálogo entre dois amantes assíncronos que devem enfrentar seus algozes, sejam eles como forem. O Que Ficou para Trás, enfim, deixa se levar pelas potentes mensagens que pretende entregar, sem se tornar uma pedante pintura panfletária e tropeçando algumas vezes ao longo do caminho.

O Que Ficou Para Trás (His House – Estados Unidos, Reino Unido, 2020)

Direção: Remi Weekes
Roteiro: Remi Weekes
Elenco: Wunmi Mosaku, Sope Dirisu, Matt Smith, Malaika Abigaba
Duração: 93 min.

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Publicado por Thiago Nolla

Thiago Nolla faz um pouco de tudo: é ator, escritor, dançarino e faz audiovisual por ter uma paixão indescritível pela arte. É um inveterado fã de contos de fadas e histórias de suspense e tem como maiores inspirações a estética expressionista de Fritz Lang e a narrativa dinâmica de Aaron Sorkin. Um de seus maiores sonhos é interpretar o Gênio da Lâmpada de Aladdin no musical da Broadway.

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