» Siga o Bastidores no Facebook , Instagram e no Twitter para saber todas as notícias sobre cinema «

Once Upon a Time continua sendo uma das produções televisivas mais originais dos últimos anos. Mesmo encontrando certos obstáculos em seu terceiro ano que tangenciaram um melodrama extremamente excessivo, introduzir personagens que ganharam o gosto do público foi uma investida interessante. É claro que não podemos deixar de levar em consideração o imenso marketing por trás da série, mas ainda assim o cliffhanger da iteração anterior foi de tirar o fôlego. E desse modo, entramos no mundo de Frozen – Uma Aventura Congelante que, seguindo o mesmo padrão já conhecido de Edward Kitsis e Adam Horowitz, esse conto de fadas contemporâneo encontra uma perspectiva nova e macabra que, mesmo com alguns deslizes, funciona na maior parte.

Elizabeth Lail e Georgina Haig interpretam as irmãs Anna e Elsa, respectivamente. Porém, diferente da animação dos estúdios Walt Disney, a história se passa algum tempo depois dos eventos originais, trazendo-as de volta para Arendelle e focando tanto no casamento de Anna com Kristoff (Scott Michael Foster) quanto nas descobertas que Elsa faz em relação à sua família. De qualquer forma, a série ganha uma incrível reformulação narrativa e efeitos especiais aplaudíveis, ao menos no primeiro episódio, para delinear as tramas que cruzarão caminho com as que já conhecemos.

A quarta temporada mergulha na mesma estruturação que a terceira, dividindo-se em dois blocos. Neste aqui, Anna ganha bastante protagonismo na cronologia passada e mostra que vai muito além da ingênua e sonhadora personagem que conhecemos nas telonas, fazendo escolhas a priori terríveis para manter a união de sua família, mas nunca perdendo seu espírito altruísta. Já no presente, as coisas até tentam se mover com o mesmo dinamismo, mas eventualmente esbarram em certos obstáculos, incluindo a rapidez desnecessária com a qual a história se move. Porém, existe um nome em especial que torna-se o centro inesperado das atenções, seja pela atuação, seja por sua envolvente backstory: Elizabeth Mitchell.

A atriz, conhecida por seu papel como Juliette em Lost, encarna a versão original do conto de Hans Christian Andersen que deu origem ao filme vencedor do Oscar. A Rainha de Gelo, na verdade, traz uma trama muito mais complexa e nem um pouco otimista para a personagem-título, aqui chamada de Ingrid. E, além disso, ela integra a própria família de Elsa e Anna, entrando como tia das duas – uma tia perdida que esconde um terrível segredo e que, insurgindo como a principal antagonista, segue um padrão conhecido de redenção e vitimização, sendo fruto de circunstâncias negativas que a moldaram no “monstro” que todos a consideram hoje.

Porém, Mitchell encontra um terreno muito fértil para mostrar sua versatilidade: ainda que sua trama em específico pareça datada, ela mantém-se em uma bolha fria e cruel que não mede esforços para conseguir o que quer – inclusive lançar uma terrível maldição para destruir todos os moradores de Storybrooke. E como se não bastasse, ela mantém uma relação materna muito forte com Emma (Jennifer Morrison), tendo sido sua mãe adotiva em um passado remoto. No final das contas, ela se entrega ao amor que nunca achou ter de suas falecidas irmãs, sacrificando-se para o bem de todos em um clássico final feliz e fabulesco que facilmente nos arranca algumas lágrimas e já coloca o tom para a próxima parte da temporada.

E é aqui que as coisas começam a desandar. Após um complicado desentendimento entre Rumplestiltskin (Robert Carlyle) e Belle (Emilie De Ravin), o Senhor das Trevas retorna ao seu compulsório arco de pura egolatria e parte em busca de antigas “aliadas” do passado: as icônicas Malévola (Kristin Bauer), Cruella De Vil (Victoria Smurfit) e Úrsula (Merrin Dungey), também conhecidas como as Rainhas da Escuridão. Porém, nenhuma delas ganha uma exploração digna do que representam em um panteão clássico: as subtramas são tratadas em sua superficialidade e lutam para ganhar destaque em um outro pano de fundo, em que os vilões merecem ganhar seus finais felizes enquanto os heróis devem se submeter a uma vida em que nada dá certo. Em outras palavras, uma drástica inversão de papéis.

Também é aqui que temos a participação do Autor, figura responsável por contar todas as histórias dos Reinos mágicos. Porém, essa nova versão, encarnada por Isaac Heller (Patrick Fischler) nunca gostou apenas de relatar, e encontrou nessa “profissão” um meio para colocar tudo o que sempre quis – e por isso mesmo resolve se aliar com Rumplestiltskin e mudar para sempre o que conhecemos. “Está na hora dos vilões terem um final feliz”, ele repete, em quase todos os episódios. Eventualmente ele consegue fazer isso nos últimos dois episódios, até que o beijo de amor verdadeiro entre mãe e filho – ou seja, Regina (Lana Parrilla) e Henry (Jared S. Gilmore) – se concretize, retomando até mesmo a desconstrução da fórmula já vista na primeira temporada.

O problema se endossa com a falta de exploração. Porém, Smurfit consegue nos entregar uma ótima performance como Cruella, e o episódio sobre sua história é um dos pontos altos da temporada – e, porque não, da série. Aqui, a divertida história de 101 Dálmatas ganha uma prequela tenebrosa em que a personagem nunca foi boa: ela se entregou para a escuridão desde pequena e sempre seguiu sua vida fazendo o que bem entendia, incluindo assassinar os maridos de sua mãe e, no final das contas, assassiná-la impiedosamente. É com essa construção que a série também explora, em segundo plano, uma nova vertente para Emma, que cada vez mais abraça o seu “lado ruim”, principalmente quando descobre do que seus pais foram capazes para garantir que ela fosse uma heroína.

A quarta temporada de Once Upon a Time consegue recuperar um pouco de sua glória, mas se perde em meio a tantas tramas desnecessárias e conclusões apressadas. Talvez seja com a segunda parte deste ano que a série mostre seu cansaço narrativo – e indique que precisa se renovar o mais rápido possível caso não queira ceder à própria ruína.

Once Upon a Time – 4ª Temporada (Idem, EUA – 2014)

Criado por: Edward Kitsis, Adam Horowitz
Direção: Ralph Hemecker, Dean White, Milan Cheylov, David Solomon, Paul Edwards, David M. Barrett, Anthony Hemingway, Ron Underwood
Roteiro: Edward Kitsis, Adam Horowitz, Christine Boylan, Jane Espenson, Kalinda Vasquez, Daniel T. Thomsen, Andrew Chambliss
Elenco: Jennifer Morrison, Ginnifer Goodwin, Josh Dallas, Lana Parrilla, Emilie de Ravin, Colin O’Donoghue, Jared S. Gilmore, Robert Carlyle, Georgina Haig, Elizabeth Lail, Elizabeth Mitchell, Kristin Bauer, Victoria Smurfitt, Patrick Fischler
Emissora: ABC
Episódios: 22
Gênero: Fantasia, Drama
Duração: 45 min. aprox.

Comente!