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Crítica | Once Upon a Time – 6×10: Wish You Were Here (Midseason Finale)

nota-4,5

E se…? parece ter sido a pergunta dessa temporada de estreia e já de muitos anos. Séries como The Man in the High Castle ousaram deturpar a história escrita e relatada para criar uma realidade alternativa do mundo que conhecemos hoje, utilizando como foco principal o que aconteceria se Hitler houvesse vencido a II Guerra Mundial. Once Upon a Time não poderia ficar de fora disso, e Edward Kitsis e Adam Horowitz decidiram embarcar mais uma vez numa narrativa muito bem construída sobre transgressão, realidade e loucura.

Wish You Were Here foi o décimo episódio da sexta temporada a ser transmitido, e marca o fim deste primeiro ciclo. O midseason finale começa com um leve salto no tempo, e mudando seu foco drasticamente da história não contada de Rumplestiltskin e Belle para a trama principal da temporada: o confronto do ego e alter-ego entre Regina e a Rainha Má (ambas as personagens interpretadas pela incrível Lana Parrilla). Para aqueles que não se recordam, nas últimas cenas de Changelings, Emma (Jennifer Morrison) e Hook (Colin O’Donoghue) encontraram a espada que supostamente mataria a Salvadora e, num ato de puro ódio e pura irracionalidade, descobrem que a vilã pode sim ser exterminada com a utilização de tal objeto, fato que definitivamente muda as regras do jogo.

Pela primeira vez na série, a Rainha se mostra fraca e impotente, e seus planos milimetricamente arquitetados são transformados em jogadas impulsivas que a colocam na parede mais de uma vez. Confesso que vê-la no perigo me traz um pouco de angústia, visto que tal personagem foi considerada uma das melhores da década e foi o primeiro relance que tivemos na série do nível de crueldade dos antagonistas. Sua eminente morte poderia causar uma revolta entre os fãs de Once, mas não foi isso que aconteceu. Kitsis e Edwards, em um roteiro muito bem construído, optam pelo sofrimento em vez da morte, afinal, o agonizante desespero é por vezes muito mais satisfatória que a efemeridade do extermínio.

Mas a Rainha ainda tem cartas na manga, e em última instância, captura Jasmine (Karen Davis) e Aladdin (Deniz Akdeniz), o qual virou o Gênio da Lâmpada Mágica. E qual o motivo de tanto alarde? Ora, a resposta na verdade é bem simples: a antagonista precisava de um público. Precisava de pessoas que realmente se importassem com ela, e por isso mesmo conseguiu reuni-los numa sequência de tirar o fôlego, onde deseja que o desejo mais profundo de Emma se realize: que ela nunca tivesse sido a Salvadora.

Sim, exatamente isso. A protagonista da série tem consciência de seu futuro e depois de perceber que a batalha contra as forças das Trevas será interminável, decide simplesmente abandonar. Uma escolha um tanto quanto compreensível, visto que ela foi arrastada por seu filho, Henry (Jared S. Gilmore) para um mundo completamente desconhecido e que julgava existir apenas nas páginas dos livros. E a Rainha, tendo olhos e ouvidos em todo lugar por ser uma força psíquica superior a qualquer um, sabia que poderia utilizar esse desejo compulsório a seu favor.

E é aí que entra o principal e se. E se Emma não fosse mais a Salvadora? O que será que aconteceria? Será que a Rainha finalmente conseguiria seu final feliz e ninguém no mundo poderia parar sua conquista sanguinária? Em Storybrooke talvez não. E nem em outras realidades. Diferentemente do que ocorreu na season finale da terceira temporada, quando ela e Hook foram transportados no tempo e suas ações no passado poderiam impactar no presente, aqui a protagonista fica presa em um desejo, ou seja, numa dimensão alternativa onde Regina foi derrotada e exilada para um Reino distante, e o reinado dos Charming continuou por vários anos. Nessa nova realidade, Snow e David conseguem derrotar todo o mal, incluindo Rumple, e emergem como os reais heróis. Eles conseguem finalmente se casar e dão vida à Emma, que consequentemente dá vida a Henry. Aqui entra o único furo do roteiro: Henry foi o nome dado por Regina ao filho adotivo em homenagem a seu pai. Como ela foi derrotada, nada do que conhecíamos ocorreu realmente. Talvez as explicações sejam um pouco mais exploradas nos próximos episódios, mas tenho que dizer que isso atrapalhou um pouco a fluidez de Wish You Were Here.

De qualquer modo, descobrimos que, sem uma vilã, Emma nunca conseguiu desenvolver aquilo que a tornou a Salvadora. Sua condição de combatente do arquétipo maléfico foi comprimida até transformá-la em uma princesa como as outras. Once Upon a Time é conhecida por renegar todos os clichês dos contos de fada, mas aqui essa vertente se aplica de forma única: um lado completamente novo da protagonista forte e independente que conhecemos. Ela definitivamente não sabe o que está fazendo e submete-se a simples ameaças. Vemos uma cena idêntica ao episódio piloto da série, onde Regina invade o casamento de Snow e Charming para fazer juras de vingança contra a felicidade que abençoou as vidas dos “heróis”. Mas aqui, tudo é muito bem explicado: o único modo de Emma realmente voltar à sua verdadeira essência é ser elevada ao extremo da angústia e do terror para re-despertar seus poderes e sua personalidade.

Enquanto isso, em Storybrooke, a trama entre Bela e Rumple ainda continua se desenrolando, mas de modo muito mais profundo e interessante. Achávamos que a subtrama de Changelings havia alcançado um fim, mas estávamos enganados. Acontece que a Fada Azul (Keegan Connor Tracy), ao levar o recém-nascido bebê do casal para um lugar protegido, acabou sendo alvo dos avanços impetuosos da Fada Negra, mãe do Senhor das Trevas, a qual roubou a criança para si. Pelo que tudo indica, ainda veremos muito mais desta personagem e podemos esperar que sua história e suas motivações se tornem um dos pontos fortes da sexta temporada.

A inovação de Wish You Were Here é demonstrada em sua direção. Ron Underwood opta por uma estética transgressora neste episódio, utilizando-se de planos holandeses muito bem encaixados e que em momento algum deixam a narrativa monótona e arrastada. Os momentos de tensão são arquitetados com bastante cautela, mas sem cair na autoexplicação exacerbada, vindo com uma grande carga de emoção e viradas inesperadas. É interessante frisas que a própria composição da cena é forrada com metáforas para outras temporadas: somos transportados, ainda que indiretamente, a momentos de puro terror vistos com a chegada de Cora (Barbara Hershey), mãe de Regina, à era de terror instituída pela Rainha de Gelo (Elizabeth Mitchell) e outros, tudo construído de forma gentil, afastando-se de metáforas escrachadas de episódios anteriores.

O ápice do episódio ocorre em seus últimos minutos. Personagens muito queridos acabam voltando, e o real preço da Magia é analisado profundamente com reviravoltas emocionantes. Não ouso dar spoilers aqui, mas garanto que os acontecimentos finais deixam um ótimo gancho para os próximos capítulos, os quais infelizmente só retornam em março de 2017.

A sexta temporada de Once Upon a Time conseguiu elevar a série a um nível há muito esquecido. Horowitz e Kitsis estão cada vez mais explorando o potencial de histórias não tão bem conhecidas pelo público – e sim, queremos mais. Muito mais.

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Publicado por Thiago Nolla

Thiago Nolla faz um pouco de tudo: é ator, escritor, dançarino e faz audiovisual por ter uma paixão indescritível pela arte. É um inveterado fã de contos de fadas e histórias de suspense e tem como maiores inspirações a estética expressionista de Fritz Lang e a narrativa dinâmica de Aaron Sorkin. Um de seus maiores sonhos é interpretar o Gênio da Lâmpada de Aladdin no musical da Broadway.

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