Zelena (Rebecca Mader) sempre foi uma das personagens mais complexas da série Once Upon a Time. Desde sua primeira aparição na terceira temporada, o público se conectou com uma criação que nos transportava diretamente às longínquas terras de Oz e que ao mesmo tempo nos contava uma história completamente diferente da que estávamos acostumados.

E ainda parece que sua história não acabou. Afinal, Zelena não recebeu a alcunha de Bruxa Má do Oeste por qualquer razão: seu passado conturbado a transformou em uma das vilãs mais bem construídas e que, até agora, busca por seu arco de redenção que possa colocá-la finalmente dentro do grupo de “heróis”. E é justamente neste ponto que os criadores Edward Kitsis e Adam Horowitz resolvem focar no décimo oitavo capítulo da sexta temporada, intitulado Where Bluebirds Fly.

Diferentemente de outros episódios, a distinção das duas linhas temporais do episódio resgata a identidade conceitual das primeiras iterações da série, e dá prioridade apenas para a personagem supracitada. Ou seja, não espere ver as inúmeras linhas narrativas confrontando-se o tempo todo e sendo desenvolvidas na pressa, mas sim uma entrega sincera e a construção de um arco de redenção muito bem colocado – talvez o melhor em muito tempo dentro de Once Upon a Time.

Primeiro, precisamos entender que o arco de Zelena, diferentemente do de Regina (Lana Parrilla) não buscava pela redenção, e sim pela aceitação – mas, é claro, com uma leve distorção sombria: seu desejo sempre foi se livrar da meia-irmã, que sempre teve tudo e sempre foi a filha preferida de Cora (Barbara Hershey). Sua imaturidade e seu crescente descontrole por parte dos poderes natos canalizou toda a frustração que lhe acompanhara durante a infância para um sentimento mesquinho que inclusive levou ao pé da letra a expressão “verde de inveja”. E, ao contrário do que imaginávamos, seus constantes deslizes para com os outros não nos permitiram sentir pena, mas conseguiram cultivar uma necessidade de amar em odiá-la – justamente o que a mantém como uma das personagens mais adoradas pelo público até hoje.

Partindo dessa premissa, a Fada Negra (Jaime Murray) decide, pois, colocar em prática uma das últimas etapas de seu plano ainda desconhecido: utilizar a instabilidade psicológica da personagem em questão para subverter toda a magia branca enterrada nas minas dos anões em pura escuridão. Afinal, seu “material de trabalho” é justamente esse: a sombra que tem o poder de corroer os corações mais inocentes. E, ajudado por seu fiel discípulo Gideon (Giles Matthey), ambos arquitetam uma armadilha para atraí-la a seu covil e liberar toda a raiva que sentiu. E como fazem isso? Ameaçando a única pessoa com a qual Zelena realmente ama: sua filha, Robin.

Todos estamos familiarizados com a impetuosidade e a necessidade de se provar destemida da personagem encarnada por Mader. Essa fraqueza de personalidade é o ponto que a torna tão humana quanto nós: afinal, quem gosta de ser desafiado como forma de desistir de seus valores e do que realmente acredita? Ela, desde criança, permaneceu tentando esconder seus poderes para ser melhor aceita pela comunidade em que vivia, e sua “diferença” foi justamente o que a transformou num poço de vingança e de desprezo – e o que permitiu à Fada Negra chegar muito perto de conseguir o que desejava.

E essa mesma inclinação para o controle absoluto e para sua soberania suprema foi o que a deixou solitária nas terras de Oz, as quais passou a governar depois de transformar o antigo soberano em um macaco voador. E, na narrativa paralela, o roteiro assinado por Jerome Schwartz e Dana Horgan decide se aprofundar mais nessa ausência afetiva ao discorrer sobre uma antiga amizade entre Zelena e Stanum (Alex Désert), a qual, como a maioria dos plot twists da série, acabou em tragédia. Acontece que, para se manter impenetrável e escondida pelos muros do Palácio das Esmeraldas – uma metáfora para sua própria bolha social – ela escolheu o poder ao invés de realmente oferecer ajuda para alguém que fez parte de seu passado, ainda que de modo passageiro.

Além da ótima construção narrativa, Once Upon a Time prova que, mesmo com tantos deslizes acompanhando a série desde sua quarta temporada, ainda é possível acertar em cheio. E quando o time criativo acerta, é para deixar um episódio marcante e que consiga permitir ao público uma “luz no fim do túnel”.

O ápice do episódio definitivamente vem com a conclusão do arco de Zelena. Através do paralelismo entre passado e presente, entendemos que a Bruxa Má do Oeste está se livrando dos rótulos que sempre a acompanharam para transformar seu desfecho em uma parábola de redenção completa, equiparando-se à mesma história que finalizou participações como a de Cora, a da Rainha de Gelo (Elizabeth Mitchell) ou a de Hook (Colin O’Donoghue). E para que essa catarse seja finalmente alcançada, ela se entrega para o maior sacrifício possível, provando que não precisa daquilo que sempre internalizou: magia. Através de um cristal, ela abdica de todos os seus poderes para impedir que Storybrooke seja consumida pela escuridão e para ajudar Emma (Jennifer Morrison) em sua batalha final.

Where Bluebirds Fly configura-se como um dos melhores episódios da série. Os deslizes são ofuscados por um roteiro ritmado e por uma construção psicológica que culmina em uma das viradas mais emocionantes da temporada.

Once Upon a Time – 6×18: Where Bluebirds Fly (Idem, 2017, Estados Unidos)

Criado por: Adam Horowitz, Edward Kitsis
Direção: Michael Schultz
Roteiro: Jerome Schwartz, Dana Horgan

Elenco: Lana Parrilla, Josh Dallas, Jennifer Morrison, Ginnifer Goodwin, Jared S. Gilmore, Emilie de Ravin, Colin O’Donoghue, Sean Maguire, Robert Carlyle, Rebecca Mader
Gênero: Drama, Fantasia
Duração: 42 min.