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No começo de 2019, Titãs chegava à Netflix pouco tempo depois do season finale nos Estados Unidos e causou um positivo e otimista alvoroço entre o crescente público da plataforma e os fãs da DC – criando um prospecto interessante para os estúdios e para as múltiplas adaptações em live-action de seus próprios quadrinhos. E seguindo os mesmos passos que essa série, Patrulha do Destino chegaria pouco tempo depois às telinhas, explorando ainda mais o universo e marcando uma convergência entre dois times que, apesar de serem vistos com repúdio por uma sociedade conservadora e retrógrada, não fazem nada além de proteger os fracos e inocentes – como é de praxe para qualquer narrativa super-heroica.

É claro que não sabíamos o que esperar sobre esse spin-off, mas felizmente o resultado é bastante agradável e cultiva possibilidades infinitas – principalmente levando em conta que o episódio piloto restringe-se à apresentação do improvável grupo. Mas o que mais consegue cativar o público, seja ele o mais cético imaginável, é a forma como as múltiplas convergem em um sutil melodrama carregado com expectativas e frustrações, desmistificando a construção epopeica dos heróis e deixando-os humanizados além do esperado, ou seja, com desejos, falhas e ambições. E ainda que não alcance uma perfeição estética, o primeiro capítulo é aplaudível de diversas formas.

Patrulha do Destino retoma o classicismo cênico ao introduzir um narrador onisciente para nos apresentar os personagens. Entretanto, diferente das inúmeras fórmulas convencionais, a presença dessa força desconhecida contribui para aumentar a identidade da série: uma ótima mistura entre bizarrice e estranheza – que se reafirmam conforme a narrativa se desenrola. A priori, a primeira cena mostra-se confusa, mas logo abre espaço para introduzir-nos, nos momentos finais, um dos vilões que os proscritos heróis irão enfrentar: porém, é com Cliff Steele (Brendan Fraser) que temos o primeiro baque.

O ex-piloto de corridas vê sua vida se despedaçar quando sofre um acidente em uma de suas competições, acordando anos depois dentro do corpo metálico do Homem-Robô. Ao que tudo indica, a única parte que o misteriosamente zeloso Dr. Niles Caulder (Timothy Dalton), também conhecido como Chefe, conseguiu salvar foi seu cérebro, transplantando-o para uma máquina que criou e mantendo seu espírito vivo, ainda que estivesse encarcerando-o em uma outra prisão. Porém, a série criada por Jeremy Carver nunca nos entrega de bandeja o que precisamos entender, e é brincando com a cronologia e com a mutável sensação do tempo que percebemos que, na verdade, a tragédia que acometeu Cliff é muito pior do que imaginávamos.

É logo aqui que os espectadores começam a criar laços com as múltiplas personalidades que habitam a Mansão Dayton, exilada de qualquer outro contato humano: um ex-piloto de avião que foi exposto a uma espécie de energia negativa e agora utiliza bandagens para impedir que a radiação emita de seu corpo, também conhecido como Homem-Negativo (Matt Bomer); Rita Farr (April Bowlby), uma atriz da Era de Ouro do cinema norte-americano que se esconde após ter contato com um gás tóxico e transformar-se na Mulher Elástica; e Crazy Jane (Diane Guerrero), uma jovem garota que desenvolveu 64 personalidades diferentes, cada qual com um poder específico.

A priori, a série deixa bem claro que a história não é centrada nos clássicos super-heróis, mas sim nos tristes “zeros à esquerda” que observaram impotentes suas vidas virarem de cabeça para baixo e agora são obrigados a passar seus dias se escondendo. Ainda que a tensa e obscura atmosfera mova os primeiros atos do episódio, é o equilíbrio entre tragédia e comédia que cria essa irretocável envolvência, preparando-nos para o que está por vir. A rebeldia narrativa e a irreverência cênica, que oscilam entre passado e presente várias vezes sem nos cansar, impede que o show seja apenas um rip-off de outras produções e ganha uma roupagem única, além de contribuir para um aprazível dinamismo.

Eventualmente o episódio opta por apressar demais as micro-conclusões de cada arco, pegando um pequeno espaço para mostrar (ou nos relembrar) que os membros da Patrulha têm sim poderes únicos – seja com a super-força do Homem-Robô, seja com a capacidade flexível da Mulher-Elástica. Porém, não podemos deixar de sentir uma certa falta de esmero quando as sequências de maior ação insurgem no começo do terceiro ato. De qualquer forma, essa multiplicidade de perspectiva não é totalmente jogada ao acaso, ajudando a compreender que nenhum deles, por mais desesperados que estejam para ajudar as pessoas que não os querem por perto, está pronto para lutar ou para enfrentar os reais perigos que habitam o mundo lá fora. Mas se eles dessem ouvido à costumeira voz de sabedoria, não haveria história para ser contada.

Patrulha do Destino tem um começo interessante, recheado com personagens memoráveis e incumbido com um potencial que esperamos não ser desperdiçado. Apesar do primeiro episódio poder causar momentânea repulsa, essa é a ideia da série – e esperamos, do fundo do coração, que a singularidade do mais novo show da DC se mantenha nos próximos capítulos.

Patrulha do Destino – 01×01: Piloto (Doom Patrol, 2019 – EUA)

Criado por: Jeremy Carver
Direção: Glen Winter
Roteiro: Jeremy Carver, baseado nos personagens de Arnold Drake, Bob Haney, Bruno Premiani
Elenco: Diane Guerrero, April Bowlby, Alan Tudyk, Matt Bomer, Brendan Fraser, Joivan Wade, Milla Jovovich, Billy Zane
Emissora: DC Universe
Gênero: Drama, Fantasia
Duração: 58 minutos

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