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Patrulha do Destino não é uma série como as que estamos acostumados a assistir, principalmente se analisarmos a mixórdia narrativa e estética que se propões a nos oferecer. Afastando-se consideravelmente no tom mais dark, característico da DC e de todo seu panteão super-heroico, o show criado por Jeremy Carver é irreverente e bizarro ao extremo – sem deixar de nos dar uma continuidade coesa para a jornada de autoaceitação e descobrimento dos anti-heróis mais improváveis do mundo. E ainda que o primeiro episódio tenha mergulhado em um nonsense próprio até mesmo das vanguardas surrealistas – claro, num patamar menos chocante -, deu um início interessante ao que pode ser uma das melhores produções televisivas do ano.

O segundo capítulo, intitulado Donkey Patrol, opta por uma história mais melodramática, perscrutada por uma construção constantemente tensa que nos envolve, ainda mais quando a trama oscila entre passado e presente e, ao mesmo tempo, nos oferece um relance de um caótico futuro. Por vezes, a resolução apressada pode não agradar parte do público, ainda mais por começar e terminar um dos microarcos em um episódio só; mas, no geral, temos mais uma iteração com bastante funcionalidade e uma aprazível capacidade de nos satisfazer dentro de certos limites – os quais esperamos ser quebrados nas próximas entradas. E mais: é aqui que vemos em primeira mão a fusão deste rebelde cosmos com outro bastante conhecido – o do show Titãs.

A mais nova história dos “zeros à esquerda”, também tratados como aberrações de circo pelos considerados “normais”, é continuação direta dos inesperados eventos da semana passada. Em uma tentativa de mostrar que está no controle, o Sr. Ninguém (Alan Tudyk), outrora conhecido como Eric Morden até cair nas mãos de Niles Caulder (Timothy Dalton), abre um vórtex dimensional que oblitera a pequena cidade de Cloverton, Ohio, deixando um rastro de destruição pelo caminho. Porém, não é apenas isso que deixa os nossos protagonistas sem a menor ideia do que fazer; Niles e Jane (Diane Guerrero) também mergulham nessa espécie de “buraco de minhoca”, desaparecendo por completo. Isso lança os super-humanos restantes em um cíclico arco de dúvida, resignação e histeria, levando-os a se separar por breves momentos.

É interessante ver como o show não se restringe às fórmulas dos dramas televisivos e já coloca um gigantesco obstáculo logo no começo. Enquanto os inimigos insurgem de todos os lados, o time enfrenta a si mesmo:  (Brendan Fraser) é o único que, mesmo à flor da pele, permanece nos escombros da cidadela para resgatar a mais ínfima forma de vida – que, no final das contas, vem na figura de um burrinho (sim, a série continua em sua belíssima caracterização de estranheza até os créditos finais). Rita (April Bowlby) sucumbe à negação do que realmente aconteceu e retorna para suas tarefas diárias, assombrada por suas próprias emoções; e Larry (Matt Bomer) tenta fugir de Cloverton para o lugar mais remoto possível – mas é impedido pelo ser de pura energia que habita seu corpo.

Os problemas em questão também ganham uma nova camada com a chegada de Victor Stone, também conhecido como Cyborg (Joivan Wade), o último integrante e “filho” pródigo de Niles que marca relações com o grupo de heróis exilados conhecidos como Titãs, ainda que não tenha aparecido na série predecessora. Ele, na verdade, é introduzido logo no primeiro ato como uma criatura meio humana, meio máquina, que após um trágico incêndio que matou sua mãe foi transformado pelo próprio pai biológico em uma espécie de divindade robótica para orgulhar a família e o legado que pretendem deixar. Entretanto, ele nutre um carinho especial por Niles e, após descobrir que a cidade na qual vivia transformou-se em um antro caótico, retorna para Ohio e cruza caminhos com os patrulheiros, apenas para descobrir os planos do Sr. Ninguém.

Dois momentos roubam completamente o foco e entregam-se a uma mistura perfeita de suspense e drama: o primeiro mostra as habilidades multidiegéticas de Carver e de Dermont Downs, que encabeça o episódio. Como bem sabemos, Jane é uma jovem garota que mantém dentro de si sessenta e quatro personalidades diferentes, cada qual com um único poder. Em Donkey Patrol, conhecemos algumas outras personas que compõe o complexo alter-ego e cuja periculosidade aumenta gradativamente – é por isso que é muito fácil traçarmos semelhanças, incluindo em termos à atuação, entre a personagem de Guerrero e James McAvoy em Fragmentado. A atriz, tendo sofrido um trauma gigantesco, não consegue controlar a emergência de todos os seres que a compõe, ainda que se estabilize em Baby Doll e depois nos apresente à perigosa Katy – e mais: descobrimos que cada uma dessas personalidades está escondida num local subconsciente chamado de Underground (e que tem um potencial incrível de exploração).

O segundo alcança um novo nível de bizarrice: Cyborg, em determinada parte da ação, descobre que o burrinho que Cliff encontrou vagando pela cidade obliterada é, na verdade, uma porta para uma outra dimensão. Assim que ele, Rita e Larry conseguem atravessá-la, eles se deparam com um cosmos inexplicavelmente aterrorizante e que quebra quaisquer limites que existam dentro das concepções televisivas. Sr. Ninguém quebra a quarta parede mais de uma vez e coloca os nossos heróis dentro de pequenas situações complicadas que refletem o pior de cada um deles – apenas como forma de ameaçá-los a não procurar Niles e deixá-lo preso naquele horrendo lugar.

Patrulha do Destino continua sendo uma das séries mais originais de 2019 por diversos motivos, sendo o principal deles a capacidade de nos envolver dentro das histórias mais anormais e extraordinárias. Porém, a excentricidade excessiva é utilizada com um propósito e não deve ser encarada como show de horrores, e sim como um recurso estilístico que colabora para deixar tal obra única e irretocavelmente tragicômica.

Patrulha do Destino – 01×02: Piloto (Doom Patrol, 2019 – EUA)

Criado por: Jeremy Carver
Direção: Dermont Downs
Roteiro: Neil Reynolds, Shoshana Sachi, baseado nos personagens de Arnold Drake, Bob Haney, Bruno Premiani
Elenco: Diane Guerrero, April Bowlby, Alan Tudyk, Matt Bomer, Brendan Fraser, Joivan Wade, Milla Jovovich, Billy Zane
Emissora: DC Universe
Gênero: Drama, Fantasia
Duração: 58 minutos

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