No quarto episódio de Patrulha do Destino, uma das séries mais bizarras dos últimos anos, a trupe de heróis mais irreverente de todas resolveu dar uma parada em sua incessante busca por Niles Caulder (Timothy Dalton) e enfrentar uma legião de inimigos talvez tão perigosa quanto o mortal e louco Sr. Ninguém (Alan Tudyk). E ainda que tenha forçado além da conta a bizarrice própria da composição identitária do show, o novo capítulo da saga acaba por entregar um grande cliffhanger, ao mesmo tempo que funciona como um interessante filler em uma perspectiva geral. Mais importante, talvez tenha sido aqui que o panteão dos quadrinhos conseguiu fundir de forma competente as fórmulas dos múltiplos dramas fantásticos da indústria do entretenimento ao mesmo tempo em que manteve sua arquitetura nostálgica e clássica.

Nas primeiras cenas, os espectadores são transportados para uma nova ambiência, alternada em quatro momentos distintos em que um estranho casal de pais realiza aniversário cerimoniosos até demais para seu jovem filho. Breves momentos depois, quando Willoughby Kipling (Mark Sheppard) cruza caminhos com a equipe e revela que o fim do mundo está muito próximo – e Elliott (Ted Sutherland) é a chave para a continuidade da realidade que conhecemos ou para sua completa destruição. É claro que, considerando o frenético desenrolar da narrativa nas sequências iniciais, é muito fácil desistir de tentar entender qual mensagem o show deseja nos passar, mas a questão aqui é manter a paciência e aguardar que o criador Jeremy Carver e sua equipe consiga recuperar o ritmo e o tom da história.

Cult Patrol, como ficou conhecida a quarta iteração, emerge como uma problemática trama alheia ao cosmos a que fomos apresentados – ao menos à prima vista. A adição inexplicável de personagens não ganha uma explicação plausível até uma chegada forçada que traz Sheppard realizando uma performance que nos relembra claramente de sua atuação na série Supernatural, na qual interpretou o Rei dos Demônios Crowley. Seja pela voz arranhada, seja por seus trejeitos embriagados, o ator funciona mais como um tapa-buracos que qualquer outra coisa – ainda que explique de forma bem rasa sua importância na história, um Cavaleiro Templário conhecido de Niles e Mago do Caos responsável por tomar as decisões difíceis e manter a ordem natural no plano terrestre.

Mais uma vez, o roteiro, agora assinado pela dupla Marcus Dalzine e Chris Dingess, cria narrativas paralelas que separam o grupo em duas dimensões diferentes – algo que também se endossa como um cansaço. Entretanto, Cliff (Brendan Fraser) e Jane (Diane Guerrero), que ganharam um protagonismo maior no episódio anterior, continuam a construir seu conturbado relacionamento e chegam a mais epifanias, forçadas por uma assustadora figura que governa o reino de Nurnheim e que deseja liberar as forças destrutivas do Decriador, uma das criaturas mais poderosas de todo o universo cujo objetivo e transformar o tudo em nada. Ambos são responsáveis por fechar os portões que se abriram entre os dois mundos, mas são arrastados para dentro e passam a enfrentar a si mesmos e à suas próprias essências – isso tudo regado a diálogos cínicos e uma nova e tímida personalidade de Jane que dá as caras pela primeira vez.

Enquanto isso, Elliott, agora resgatado das mãos de sua louca mãe, que na verdade é sua medonha guardiã, permanece resguardado pelos heróis restantes, com Victor (Joivan Wade) na linha de frente junto a Willoughby, enquanto Rita (April Bowlby) o protege no porão da mansão, abandonando sua personalidade individualista e até mesmo egocêntrica e duvidosa para fazer o que for possível para não impedir que essas criaturas ponham as mãos no garoto. Acontece que Elliott nasceu predestinado a ser o Livro Não-Escrito, cujo corpo é incrustado de frases escritas em uma antiga linguagem, com poder inimaginável; aqui, os convencionalismos do gênero retornam em um clássico jogo de vida ou morte: caso ele caia nas mãos erradas, o planeta está condenado a perecer em fogo e sangue. Tais escolhas podem até ser práticas, mas não conversam com a singularidade que o show nos apresentou nas semanas anteriores.

Talvez a personagem que mais roube a cena seja Rita. Ofuscada nos capítulos predecessores com uma personalidade complexa, porém mascarada por um angustiante medo de se expor aos outros, ela parece desenterrar camadas que brotam de todos os lados, utilizando sua condição elástica de modo heroico, impedindo Willoughby de matar Elliott. Seria muito interessante vê-la mais em ação, e mais válido ainda se ela forçasse a si mesma a controlar suas habilidades e canalizar as frustrações com as quais lidou a vida inteira para algo bom e que finalmente os colocasse no patamar de heróis – ainda mais levando em conta os trágicos eventos finais do piloto.

Novamente, a história, mesmo travestida com uma excentricidade mais excessiva do que o normal, chafurda suas múltiplas subtramas para resgatar elementos psíquicos de autoconhecimento e de redescobertas. É claro que, em nome de uma brevíssima ação que não se compara com as sequências vistas em Puppet Patrol, tais elementos simbólicos são deixados em segundo plano, mas não podemos tirar mérito de Carver em orquestrar conexões entre cada uma das iterações. E, querendo ou não, o gancho para a semana que vem pode mudar a perspectiva sobre absolutamente tudo a que fomos apresentados até agora.

Patrulha do Destino pode ter desacelerado, porém, continua a nos entregar algo satisfatório e aprazível. Apesar dos deslizes, é possível encontrar um potencial gigantesco para os próximos episódios – nossa única preocupação, que pode não gritar muito alto, mas continua existindo, é se essa quebra no ritmo e na identidade será corrigida ou se ela voltará de modo mais impactante.

Patrulha do Destino – 01×04: Cult Patrol (Doom Patrol, 2019 – EUA)

Criado por: Jeremy Carver
Direção: Stefan Pleszczynski
Roteiro: Marcus Dalzine, Chris Dingess, baseado nos personagens de Arnold Drake, Bob Haney, Bruno Premiani
Elenco: Diane Guerrero, April Bowlby, Alan Tudyk, Matt Bomer, Brendan Fraser, Joivan Wade, Milla Jovovich, Billy Zane
Emissora: DC Universe
Gênero: Drama, Fantasia
Duração: 47 minutos

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